Projeto Cingapura: perfeito retrato do Brasil

A construo de moradias populares rendeu prestgio ao ento prefeito Paulo Maluf, mas a construtora de Salim Schahin (centro) ergueu prdios onde no devia, a prefeitura no previu a instalao de equipamentos pblicos e o projeto foi ignorado pelos governos seguintes; hoje, moradoreslutam para ficar

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247 com Agência Estado – Um projeto de forte apelo social, capaz de agradar a todos os envolvidos, inclusive ao seu idealizador, o ex-prefeito e atual deputado federal Paulo Maluf (PP-SP). O projeto Cingapura nasceu com ares de plano perfeito. Moradores de favela ganhariam a oportunidade de adquirir a sonhada casa própria por meio de parcelas que caberiam dentro de seu orçamento mensal – uma prestação que podia chegar a apenas R$ 18 mensais. Se não fosse o bastante, o morador não precisaria nem deixar o local onde estava. A casa seria construída ali mesmo, onde outrora estava seu barraco. Como comprovam os problemas do Conjunto Habitacional Cingapura Zaki Narchi, na Zona Oeste de São Paulo, a escolha do local não poderia ter sido pior.

O que parecia ótimo há 20 anos acabou se mostrando uma péssima opção, evidentemente de cunho populista. “Os apartamentos eram construídos no mesmo lugar em que os favelados já moravam, evitando que eles mudassem para outro, longe da escola de seus filhos, de seus amigos, enfim de onde já eram conhecidos e onde se sentiam respeitados“, lembrou Maluf em declaração recente registrada em seu próprio site. Ao agradar a população naquele momento, o então prefeito desconsiderou a situação da área, cujo subsolo apresenta hoje elevados níveis de gás metano, a exemplo do vizinho Shopping Center Norte, também ameaçado de interdição.

Esse obviamente não foi o único problema do Projeto Cingapura, que entregou 20 mil apartamentos e, nas contas de Maluf, reurbanizou (e verticalizou) 58 favelas da cidade, beneficiando 100 mil pessoas. Moradores do local reclamam da imposição do projeto, que foi feito sem consulta à população contemplada, e não são poucas as suspeitas de superfaturamento nas obras. Uma das principais construtoras envolvidas no projeto era a Schahin, de Salim Schahin, envolvida atualmente em investigações do Ministério Público por falhas na execução de projetos e cujo braço financeiro, o Banco Schahin enfrentou problemas de liquidez recentemente e teve ser socorrido pelo Banco Central, antes de ser entregue ao mineiro BMG.

Outro problema do Cingapura é seu completo abandono após a construção. Desde que os prédios foram finalizados, na década de 1990, nem a pintura das paredes foi refeita – e o máximo que apareceu por lá foram grades durante a campanha do prefeito Gilberto Kassab á reeleição. Também falta urbanização básica, como asfalto, e equipamento público, como creches, escolas e hospitais próximo à comunidade. Um retrato perfeito do modo como decisões capitais são tomadas no país.

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Reconsideração

A Prefeitura de São Paulo entrou com um pedido de reconsideração na tarde desta segunda-feira para que a Justiça reconsidere a medida de retirada dos moradores do Cingapura Zaki Narchi, segundo a assessoria do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

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Na última sexta-feira, 7, o juiz Valentino Aparecido de Andrade, da 10ª Vara da Fazenda Pública, pediu a interdição do conjunto habitacional. De acordo com o magistrado, "trata-se, sem dúvida, de uma medida extrema essa de interdição e remoção dos moradores mas ela é a única que pode eficazmente controlar a situação de risco a que essas pessoas estão submetidas, exigindo-se a intervenção do Poder Judiciário".

Segundo a Prefeitura, o pedido de reconsideração foi feito "tendo em vista as medidas realizadas para minimizar os efeitos do gás no local". Em resposta, o juiz marcou uma audiência para amanhã, às 14h30, com técnicos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), representantes do Ministério Público e da Prefeitura.

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Cerca de 70 moradores do Cingapura viraram duas caçambas de lixo na avenida Zaki Narchi, interditaram parte da via e fazem uma manifestação na noite de hoje contra a decisão da Justiça divulgada hoje, que manda a Prefeitura removê-los do local devido ao risco de explosão. Atualmente, 2.787 pessoas moram no Cingapura Zaki Narchi.

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