Quando senti vergonha de ser brasileiro

Sonho com um Brasil onde eu não sinta culpa por poder alimentar a minha filha. Sonho com um país que consiga ser realmente nação e que não faça dos seus filhos suas maiores vítimas

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Fortaleza-CE, 22 de julho de 2011, caminhava eu tranquilo numa das mais movimentadas avenidas da cidade, a 13 de maio, quando me deparei com uma cena que mudaria os rumos da minha tarde.

A cena que presenciei era, de certa forma, já bastante comum nas grandes cidades brasileiras, porém, algo naquele instante me tocou de forma diferente.

O semáforo fechou e dei os primeiros passos para cruzar a faixa de pedestres quando avistei uma garotinha, não mais que 05 (cinco) anos de idade, encostando o rosto nos vidros dos carros que paravam no sinal, na tentativa de enxergar quem estava ao volante e, quem sabe, comover com o olhar os proprietários dos luxuosos veículos.

Tinha o cabelo na altura do ombro, pisava o asfalto com os pés descalços, estava sem camisa e usava um calção sujo e rasgado.

Aquela menina não tinha comida, escola, brincadeiras, sonhos, pai, mãe, lar, saúde... ela não tinha nada!

Lembrei da minha Sophia de 03 (três) anos de idade que estava em casa, bem alimentada, bem vestida, com um teto, escola, saúde, amor e uma mãe maravilhosa. Continuei atravessando a rua.

A menininha chegou ao segundo carro, que seguindo o exemplo do primeiro, não baixou o vidro. E os telejornais noticiavam o nervosismo do mercado financeiro. Caminhou então ao terceiro carro e o governo brasileiro contava suas vitórias de ser uma das maiores economias do mundo. Correu ao quarto carro, alguém lhe deu uma moeda, e mais uma vez se concretizava bem ali, na frente dos meus olhos, um país miserável.

O sinal abriu, continuei caminhando na avenida enquanto minhas lágrimas iam deslizando pelo rosto. Tentei esconder o choro com os óculos escuros, mas não consegui esconder a vergonha que senti de ser brasileiro.

Pensei até que ponto eu também era culpado pelo que havia visto, pensei em muitas coisas que nem saberia explicar. Mas tem algo que não consigo parar de pensar: aquela brasileirinha, linda e abandonada, não foi abandonada somente pelos pais, foi abandonada pela nação.

A inocência arrancada, os sonhos impossíveis de serem sonhados, os dias sem nenhum sabor de esperança.

Enquanto isso, políticos brasileiros continuam a roubar o dinheiro do povo, negociar obras e projetos em troca de apoio, usar e abusar do poder e dos privilégios que eles mesmos se concedem.

Leitores queridos, pouco me importa a bipolaridade da doente política nacional! Não me interessa o PT ou o PSDB, ou sei lá qual o partido. É tudo uma grande piada sem graça. No fim das contas, gente mesquinha correndo atrás de prestígio, dinheiro dos outros e poder. Não tenho esperanças com a atual geração de políticos brasileiros, não tenho esperanças com o modelo de gestão do nosso país.

Sonho com um Brasil onde eu não sinta culpa por poder alimentar a minha filha. Sonho com um país que consiga ser realmente nação e que não faça dos seus filhos suas maiores vítimas.

Provavelmente nunca mais verei aquela menina. E certamente vocês nunca mais irão ler uma notícia sobre ela. Sem nome, ela reflete a realidade de um país que vive sob a falácia de caminhar para ser uma grande potência.

Agora eu lhes pergunto: potência de quê?

Brasileirinha, perdoe nossa incompetência.

Eu não sei o que fazer. Eu só soube chorar.

Khalil Gibran é cantor, compositor e produtor cultural.

www.twitter.com/khalilgoch

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