Regozijo inócuo

Será que a limpeza pontual será capaz de erradicar o crime organizado e trazer a paz e a tranquilidade para a sociedade?

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O Estado Republicano, iniciado há 122 anos precisamente, nada tem para se regozijar. A gritante diferença de rendas e a má distribuição afetam direta e decisivamente o processo civilizatório da sociedade brasileira como um todo.

O espetáculo que assistimos na cidade do Rio de Janeiro representa uma luta entre o estado marginal contra o estado bandido, décadas perdidas da leniência do Estado e sua cegueira em relação à criminalidade correndo solta.

Remanesce a dúvida: será que a limpeza pontual será capaz de erradicar o crime organizado e trazer a paz e a tranquilidade para a sociedade?

Temporariamente acreditamos que sim, mas estamos combatendo, sempre foi o nosso erro, as consequências, e não as causas da carência e do manifesto subdesenvolvimento, mais do que secular.

Caberia ao Estado, com apoio da sociedade e fincado em políticas públicas, desfavelizar as grandes metrópoles e apresentar planos habitacionais compatíveis e concretos, que saíssem das promessas de campanhas eleitorais.

O triste espetáculo passado pelas televisões do mundo globalizado é sinal de vergonha, e não de ufanismo, ainda que se reconheça a competência das forças envolvidas na elogiável missão, ela não se encerra em si mesma, mas se incorpora a um ditado mais profundo das causas da miséria e do abandono da sociedade à gritante miserabilidade.

Não há justiça social, a tributação é iníqua, os gargalos são frutos da concentração de riqueza, e não se combatem problemas sociais com metralhadoras e explosivos, há uma instigante investigação sócio-antropológica e colonizadora a perquirir os reclamos de uma mudança primacial.

Queremos chegar à sexta economia do planeta e, com a crise internacional, a meta não se mostra impossível, mas o nosso saneamento é precário, o trânsito nos centros urbanos irreconhecível, a poluição frustrante e a criminalidade atinge níveis incompreensíveis. O policiamento ostensivo e preventivo precisa melhorar, e muito.

Quando nossas lideranças políticas saem falando, e atirando para todos os lados, que nossa crise é pequena e que a população precisa consumir, não enxergam o âmbito do discurso e, menos ainda, o endividamento da sociedade, o índice de pífio crescimento da indústria nacional e o grau de endividamento da população.

Seguramente, o ano de 2012, sem pessimismo exagerado, propiciará-nos, naturalmente, os caminhos de uma crise sentida, cuja autoridade monetária conhece de antemão e nada ou muito pouco pode ser feito para debelar o seu deflagrar.

Bancos internacionais dão sinais de fragilidade e, ao menor sinal de perigo, sobe a aversão ao risco e aos investimentos nos países emergentes.

Necessitamos sair do círculo vicioso de um crescimento forte mesclado com uma paralisação do parque produtivo, vemos no horizonte uma grande dificuldade dos titulares de cartões de crédito de conseguirem pagar seus débitos, igual fato se repetirá em relação aos financiamentos imobiliários.

Preços exageradamente elevados recuaram, e com razão, pois o poder aquisitivo nem de longe poderá acompanhá-los, e o grande salto de qualidade das empresas que abriram seus capitais em bolsa, a grande oportunidade, fora perdida com a ambição do lucro fácil e do ganho desmesurado.

O débito do Estado Brasileiro com o cidadão é impagável e incalculável, um tributo que não é possível mensurar, na medida em que se manteve séculos no torpor de sua leniência e na falta de iniciativa para combater as grandes mazelas, a principal delas, e que reina soberana, a corrupção.

Sem ética e a defesa intransigente da moral e dos bons costumes, a Constituição Federal não será capaz de alinhar os principais objetivos a serem alcançados pelo Estado brasileiro.

Muitos preferem o convívio tolerante da injustiça absorvida diariamente do que a justiça que fere e consolida a higidez das instituições.

Precisamos alavancar preceitos e conceitos que revelem a indignidade da cidadania em relação ao que tem sido feito e revelado pela mídia, em razão dos fatos e acontecimentos diários que nos envergonham e nos tomam de perplexidade.

Dar um basta a tudo isso é o mínimo que se espera, e avançar para conquistar seriedade e transparência na administração pública, exorcizando o demônio das falcatruas e da corrupção endêmica.

Nada há no momento para que nos regozijemos, qualquer ufanismo é meramente inócuo e o grande teste que atravessaremos será o ano de 2012, de forte instabilidade, e de recessão econômica, a verdadeira década perdida anunciada pelos Europeus.

Governar em maré alta e de bons resultados mostrou-se relativamente simples, o desafio se avizinha e a competência gerencial-administrativa será o pano de fundo não apenas para que a sociedade veja melhor o que verdadeiramente somos, mas a prova induvidosa para as urnas municipais.

Carlos Henrique Abrão é desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo

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