Revivendo Bernardo Sayão

Foi ele, um engenheiro agrônomo dado a desafios, quem desempenhou o papel de último bandeirante em solo goiano

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Percorrer os caminhos de Goiás é sempre um prazer para os olhos e um privilégio inigualável. A paisagem natural é rica, o cenário humano é formidável. Melhor que a terra, só seu povo. E já lá se vai meio século de vida em que a convivência com terra e povo, com sua cultura e sua história, suas tradições, esperanças e lutas, me faz a cada dia mais goiano.

Quem conhece Goiás sabe o que significa percorrer as formas retilíneas da BR-153, a extraordinária “Belém-Brasília”. Cortando nosso território de sul a norte, a imponente rodovia vai de Itumbiara até Porangatu, integrando o Estado e sua gente. Para os goianos do Vale do São Patrício e da região norte, a epopéia da sua construção ainda está muito viva na memória. O trabalho hercúleo de adentrar o cerrado, rasgar o caminho que integraria o sul rico à ainda desconhecida Amazônia, passando pelo então empobrecido centro-oeste, naquele novo Brasil que estava nascendo pela determinação férrea de JK e pelas mãos dos candangos, coube a um carioca nascido no bairro da Tijuca. Foi ele, Bernardo Sayão, um engenheiro agrônomo dado a desafios e que não rejeitava as missões que lhe eram confiadas, quem desempenhou o papel de último bandeirante em solo goiano.

Bernardo Sayão formou-se em 1923 na Escola Superior de Agronomia de Belo Horizonte, aos 22 anos, e visitou Goiás pela primeira vez em 1939. Saiu do Rio de Janeiro e tomou o rumo de terra com a qual teria uma relação histórica, num velho Ford. Trazia junto dele a mulher, os filhos, muita determinação e capacidade de trabalho. Assim acampou às margens do Rio Araguaia. Esta façanha chegou ao conhecimento do presidente Getúlio Vargas, que em 1941 designou o jovem engenheiro para implantar a Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), que se tornaria a cidade de Ceres. Lá se deu uma de nossas primeiras experiências de reforma agrária: as glebas eram doadas para casais, que se comprometiam a cultivá-las, criar suas famílias, colonizar o interior goiano, gerar riqueza. Em suma, um projeto visionário e generoso no Brasil ainda pobre e sertanejo dos anos 40. Uma das facetas de Sayão: não era um reacionário preso às velhas estruturas oligárquicas, senão um progressista em busca de soluções para os nossos problemas.

Para consolidar o projeto da “Marcha para o Oeste”, em 1944 Sayão conclui os 142 quilometros ligando Ceres à cidade de Anápolis. Em 1954 seria eleito vice-governador com mais votos que o governador eleito! Logo em seguida foi nomeado pelo presidente Juscelino para a diretoria da Novacap, trabalhando ao lado de Israel Pinheiro na epopéia da construção de Brasília. Em 1958 JK encarrega Sayão de tocar as obras da indispensável rodovia Belém-Brasília. Não era homem de se ater, apenas e tão somente, ao comando: punha a mão na massa e se irmanava aos peões no trabalho braçal, com vontade, irradiando liderança e companheirismo. Era um líder nato e admirado por todos. Faltando duas semanas para a inauguração da rodovia, em 15 de janeiro de 1959, é vítima de um brutal acidente: uma árvore, derrubada na beira da estrada, cai sobre a barraca onde se encontrava. O destino foi ingrato com um homem jovem e em seu pleno vigor, que ainda tinha muito a oferecer à Goiás e ao Brasil. Seu nome é relembrado e seu trabalho reconhecido. Em todas as cidades ao longo da rodovia as homenagens se sucedem: são ruas, praças, avenidas, escolas ou prédios públicos que levam, merecidamente, o seu nome. A pujança que a região exibe faz jus à memória do destemido engenheiro, e ao visitá-la sua imagem e tudo o que lí sobre ele me vem à memória. Recordá-lo é não apenas prestar um tributo à figura de um grande brasileiro, mas reafirmar o compromisso que nós, goianos, temos com o progresso e o desenvolvimento.

Ceres é hoje uma cidade rica, de economia pujante, que se destaca na prestação de serviços. Uruaçu vive um “boom” imobiliário com negócios em torno do turismo e dos esportes náuticos às margens do Lago de Serra da Mesa. Porangatu é um pólo na atração de empresas, chamando atenção pelos investimentos chineses que estão criando uma nova fronteira para a soja nas planícies que permeiam as cadeias de serras que compõe aquele Município e toda a rica região do Vale do Rio Araguaia. Certamente, Bernardo Sayão se orgulharia de ver sua obra concluída. Seu espírito desbravador se rejubilaria com outra artéria de desenvolvimento que corta a região: os trilhos da Ferrovia Norte-Sul. De JK a Lula, o Médio-Norte Goiano ganhou incentivos perenes para seu desenvolvimento. Mas vale lembrar também outro reforço rodoviário: a BR-080. No governo Dilma a sua pavimentação corre célere e já liga o Distrito de Luís Alves a Brasília, e o objetivo final é que chegue a São Miguel do Araguaia. Prosseguirá adentrando os Estados de Mato Grosso, Rondônia e Acre, e depois de rasgar o ventre da Amazônia no Brasil e no Peru, encontrará a Cordilheira dos Andes e descerá rumando para os portos de Ilo/Callao, no Oceano Pacífico.

Sul e norte de Goiás têm paisagens distintas, povos com costumes que se diferenciam em algumas particularidades, mas unem-se nas aspirações de desenvolvimento e de progresso. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios do norte goiano não param de subir. Respira-se progresso por onde se passa. Os empreendedores mudam a face do antes pacato interior goiano, dando-lhe ares de um novo Eldorado do agronegócio. Os dois mandatos do presidente Lula tiveram uma significação especial para Goiás e o seu desenvolvimento e há em cada cidadã e cidadão goianos que trabalham e investem no desenvolvimento de sua terra um espírito desbravador, otimista e vitorioso. Em cada goiano há um Bernardo Sayão redivivo.

(*) Delúbio Soares é professor

www.delubio.com.br

www.twitter.com/delubiosoares

[email protected]

 

 

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