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Ribeirinhos em risco: naufrágio no Amazonas expõe crise histórica do transporte fluvial na região Norte

O episódio reforça a vulnerabilidade de milhões de moradores ribeirinhos

Samila e Souza, de 3 anos, e Lara Bianca, de 22 anos, morreram no naufrágio em Manaus (Foto: Reprodução)

247 - O naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, ocorrido no Encontro das Águas, no Amazonas, voltou a evidenciar problemas estruturais antigos do transporte fluvial na região Norte do país. O acidente deixou ao menos três mortos, cinco desaparecidos e 71 pessoas resgatadas com vida após a embarcação afundar durante o trajeto entre Manaus e Nova Olinda do Norte, na última sexta-feira. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo, que reuniu especialistas e dados oficiais sobre segurança da navegação na Amazônia.

O episódio reforça a vulnerabilidade de milhões de moradores ribeirinhos que dependem quase exclusivamente dos rios para deslocamento, acesso a serviços públicos e transporte de mercadorias em uma região marcada por grandes distâncias e baixa infraestrutura rodoviária.Levantamento do professor Carlos Padovezi, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), baseado em 1.279 processos do Tribunal Marítimo — órgão ligado à Marinha responsável por julgar acidentes de navegação — aponta que, desde a década de 1970, ao menos 1.379 pessoas morreram em incidentes registrados nos principais rios amazônicos, como Amazonas, Madeira, Solimões e Negro, além da Baía de Marajó.

Os dados não incluem acidentes envolvendo pequenas embarcações isoladas nem mortes por quedas na água, o que indica que o número real pode ser ainda maior. Especialistas destacam que o cenário combina fiscalização limitada, condições precárias das embarcações e novos riscos associados às mudanças climáticas.

Erro humano domina estatísticas


Segundo a pesquisa, seis em cada dez acidentes aquaviários na região são provocados por erro humano. Entre as principais causas estão falta de habilitação adequada, treinamento insuficiente, falhas de navegação, imprudência, negligência e consumo de álcool por condutores.

O estudo revela ainda que o Rio Amazonas concentra 23,5% dos registros de acidentes, seguido pelo Rio Negro, responsável por 11,7% das ocorrências.A professora de Engenharia Civil da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e especialista em transportes hidroviários, Suanne Martins, afirma que o problema exige respostas urgentes do poder público.— A superlotação é grave na nossa região, as pessoas viajam enlatadas como sardinhas, dormindo em redes, e são percursos longos. De Santarém para Manaus, em embarcação grande, com casco de madeira, por exemplo, leva três dias. De lancha, cai para um dia. É um assunto bem sensível, pois não tem efetivo de fiscalização da Capitania dos Portos na Amazônia Ocidental, e os comandantes burlam o sistema.

Condutor foragido
O condutor da lancha Lima de Abreu XV, Pedro José da Silva Gama, chegou a ser preso em flagrante após o acidente, mas foi liberado mediante pagamento de fiança. No dia seguinte, a Justiça decretou prisão preventiva, porém ele não se apresentou às autoridades e passou a ser considerado foragido.O caso reacendeu debates sobre responsabilidade dos comandantes e a necessidade de maior controle operacional sobre embarcações de passageiros na região amazônica.

Mudanças climáticas aumentam riscos
Além da precariedade estrutural e da fiscalização limitada, especialistas apontam que a crise climática vem transformando o comportamento dos rios amazônicos e ampliando os riscos de navegação.Segundo Suanne Martins, o desmatamento altera a dinâmica dos ventos ao reduzir a “rugosidade” natural da floresta, que funcionava como barreira contra rajadas mais intensas. Ao mesmo tempo, as chuvas tornaram-se mais irregulares, alternando estiagens severas com tempestades concentradas e linhas de instabilidade mais agressivas, fenômenos associados a eventos climáticos como o El Niño.

Esse novo cenário provoca ondas mais fortes, surgimento de bancos de areia, aumento de sedimentos em suspensão e presença de troncos e placas de terra desprendidas das margens dos rios.— O piloto precisa estar muito atento, respeitar limites de velocidade e conhecer profundamente o rio. Se houver imperícia, qualquer rajada ou onda mais forte pode virar tragédia — afirma Martins.

Propostas para reduzir acidentes
Para o pesquisador Carlos Padovezi, a redução dos acidentes passa por medidas estruturais de longo prazo. Ele defende a criação de um sistema de monitoramento de tráfego fluvial em tempo real na Amazônia, semelhante ao utilizado na navegação marítima.A proposta inclui maior comunicação entre embarcações, divulgação online de informações meteorológicas e compartilhamento de dados sobre fluxo de barcos e condições climáticas, permitindo que comandantes adaptem rotas ou aguardem melhora do tempo antes de enfrentar trechos perigosos.

Padovezi também sugere exigências técnicas mais rigorosas, como instalação de tanques de colisão na proa, reforço estrutural das embarcações e mecanismos para impedir a entrada de água durante ondas fortes, além da substituição gradual dos barcos de madeira por modelos mais seguros.— Boa parte da precariedade decorre da baixa condição econômica da população ribeirinha. Sem subvenção, o passageiro não consegue bancar um serviço de melhor qualidade. Hoje, a carga acaba subsidiando o passageiro, mas isso torna a viagem mais perigosa e menos confortável. Se quisermos segurança de fato, teremos que enfrentar essa equação.

Problema nacional
Dados da Marinha indicam que a insegurança na navegação não se restringe à Amazônia. Desde o início do século, o Brasil registrou mais de 21 mil acidentes ou fatos da navegação, que resultaram em cerca de 5.600 mortes e 1.175 desaparecidos até janeiro deste ano.Somente no primeiro mês de 2026, foram contabilizados 13 naufrágios e 13 abalroamentos em todo o país, além de 11 quedas de pessoas na água e dez colisões contra estruturas fixas. Ao todo, 21 pessoas morreram no período, com maior incidência em embarcações de pequeno porte, como canoas, botes e motos aquáticas.As estatísticas mostram ainda que 13 ocorrências envolveram embarcações classificadas como de transporte de passageiros ou carga — perfil semelhante ao da lancha que afundou no Encontro das Águas.

Casos recentes reforçam o quadro preocupante. Em janeiro, um barco com seis pescadores desapareceu após sair de Niterói (RJ), sem que os tripulantes fossem localizados. No mesmo mês, uma colisão entre motos aquáticas na orla de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, deixou três feridos.

Especialistas avaliam que, sem investimentos estruturais, fiscalização efetiva e adaptação às novas condições climáticas, acidentes como o ocorrido no Amazonas tendem a continuar expondo a fragilidade histórica do transporte aquaviário brasileiro.