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Brasil

São Paulo mais humana

Os CEUs mostram que a maior cidade do País tem condições de melhorar a vida da sua gente

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Quando estava para assumir o Ministério do Turismo, recebi um convite muito interessante: ir à Galícia, na Espanha, debater “feísmos”. Isso quer dizer isso mesmo: coisas feias com as quais nos deparamos nas  grandes cidades e nas paisagens urbanas.

Os espanhóis queriam ouvir a experiência da ex-prefeita de São Paulo nesse tema. A própria cidade, afinal, é uma referência no assunto, uma vez que não faltam espaços e situações incontáveis de "feísmos" em sua intrincada mancha urbana.

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Na minha gestão, procurei encontrar soluções para deixar São Paulo mais humana e, neste sentido, mais bonita e alegre. Foi possível, lá na Espanha, mostrar algumas boas soluções adotadas. Pena, hoje, ver que foram abandonadas. Deveríamos ter caminhado anos-luz. E, no entanto, nos últimos anos temos insistido na marcha à ré.

Na Galícia, o estudo de “feísmos” começou pela observação de construções erguidas em meio à pobreza, ou ainda em decorrência de não planejamento ou até o resultado de intervenções consideradas ricas, mas adornadas de puro mau gosto. Da estética, avançaram para a compreensão do fenômeno em suas bases sociais.

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Ao pensar na palestra que faria, procurei lembrar por onde andei, com quem falei, o que fiz como prefeita. E nesse exercício redobrei os sentidos ao caminhar pela cidade que já não administrava.

Vi que enfrentamos, sim, “feísmos” estéticos. Neles se incluem desde o centro deteriorado, os blocos aparentes, os prédios abandonados até o mau acabamento nos projetos de habitação dirigidos à população de baixa renda. O principal, porém, o mais dilacerante, é o “feísmo social”– esse representado na fome nas favelas e periferias da cidade.

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O que mais me inquietou e deu estímulo a contribuir com a discussão foi pontuar um capítulo em particular: o da construção dos CEUs (Centros Educacionais Unificados).

Como apanhei por causa dos CEUs!

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Imaginou? Oferecer estudos em um ambiente com o que houvesse de melhor para os filhos e filhas de gente que vivia em quase miséria, quando boa parte da classe média suava a camisa e muitas vezes se via em desespero para conseguir pagar a mensalidade de uma boa escola particular?

Foi um prato cheio para os meus adversários que não entendiam para que fazíamos piscinas, quadras e sala de teatro de primeira qualidade para a população carente. Criticavam o ensino de línguas, assim como antes faziam com os uniformes escolares, quando minha gestão foi pioneira na entrega para um milhão de crianças paulistanas.

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Valeu, pois o tempo mostrou que até os adversários tiveram de manter o projeto.

Os CEUs são janelas de oportunidades para uma vida melhor. Mesmo o projeto tendo sido tão apequenado nos últimos anos, ainda é um oásis em meio ao “feísmo”.

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Seja aqui, na Galícia, ou qualquer outra parte do mundo, as comunidades têm mergulhado em discussões sobre ordenamentos jurídicos, ações de governos, planos diretores, mudanças culturais e metas para interferir e cobrar melhorias urbanas.

Mas, quando discutimos qualidade de vida, nada é mais importante do que falar de educação.

A experiência de governar São Paulo me mostrou que você pode não conseguir, imediatamente, tirar a criança da favela, mas pode tirar a favela de dentro da criança.

São Paulo tem congestionamentos recordes, transporte precário, saúde sempre defasada em vista das necessidades urgentes e emergenciais da população, bairros e centro deteriorados, mas o que mais me assusta em termos de “feísmos” é o da mentalidade de governantes que não apostam na educação. Discursam, mas não fazem.

E é por isso que lamento muito cada vez que ouço que os CEUs agora não têm qualidade na programação cultural, não têm também conselhos gestores fortalecidos. E sabe-se lá sobre onde foram parar os instrumentos musicais...

O projeto dos CEUs combatia o “feismo” estético nas periferias, mas mais que a “boniteza”, tão necessária, como diria Paulo Freire, trazia uma proposta pedagógica para formar cidadãos.

Crianças que não teriam a menor chance de viver outra realidade, que não a pobreza, receberam ali estudo de qualidade, arte, esporte, cultura. Assim como suas famílias, muitas, pela primeira vez, tiveram oportunidades de ir ao cinema ou desfrutar peças de teatro.

São Paulo era pensada como cidade educadora.

Afinal, a cidade que amamos pode oferecer melhor qualidade de vida às pessoas? Sempre que penso sobre isto, acabo me vendo numa repetição, dizendo, como num mantra: tem, sim, com “educação”, “educação”, “educação”.

Em tempo: não pude ir à Galícia, mas fui muito bem representada pela secretária de Educação da nossa gestão, Cida Perez. E o exemplo que demos foi mesmo o dos CEUs. Encantou todos que ouviram. E Cida foi convidada pelo mundo afora para detalhar o conceito dos CEUs, de tanto interesse que o projeto despertou.

 

 

Marta Suplicy (PT) é senadora pelo Estado de São Paulo. Foi ministra do Turismo, prefeita de São Paulo e deputada federal

 

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