Segurança versus liberdade

Motim que eclodiu na PMBA não pode e não deve ser visto como apenas uma obra de um ou de 12 homens

O filósofo polonês Zygmunt Bauman afirma que há dois valores absolutamente indispensáveis para uma vida feliz. Um é a segurança, o outro é a liberdade.

Nessa lógica, o movimento reivindicatório dos policiais militares baianos, inegavelmente, expressa os desajustes desses dois valores dentro da corporação. Mas, por outro lado, também revela que a convivência com esse desajuste, pelo menos na PM da Bahia, atinge o seu limite de dez em dez anos. Foi assim em 1981, 1991, 2001 e seria em 2011, caso o Governo do estado não tivesse feito a mudança no comando da corporação dando-lhe um novo e breve alento de esperança de que, finalmente, se encontraria a fórmula de equilíbrio ideal.

Não é sem sentido que os marxistas costumavam dizer que “a revolução não se faz, ela surge”, pois, nesta ótica, o motim que eclodiu na Polícia Militar da Bahia há nove dias, não pode e não deve ser visto, independentemente da indiscutível capacidade de mobilização de suas lideranças, como apenas uma obra de um ou de 12 homens tidos como responsáveis pela deflagração do movimento.

Segundo o jornalista, escritor e deputado federal Emiliano José, “a greve de 1981, com as consequências trágicas dela decorrentes, talvez seja um daqueles momentos em que a PM da Bahia toma consciência de si mesma, recusa-se a ser simples massa de manobra, embora, como é evidente, limite-se a seus interesses meramente corporativos, temendo até a solidariedade de outros setores sociais, o que decididamente reduziu o alcance do movimento”.

É também o parlamentar baiano que nos lembra que o movimento de 2001, quando outra revolta, também, colocou Salvador em estado de choque e o governo temporariamente paralisado produziu alguns dos líderes que estavam à frente da “greve” atual.

Quando um conflito destas proporções acontece em uma corporação militar é sinal de que há muito tempo o desequilíbrio entre a segurança e a liberdade já havia criado as condições propícias para a ideia da revolta que, lançada, é acolhida por aqueles que, já tendo perdido a confiança no escalão de comando e a fé nas vãs promessas governamentais, vêem na “insubordinação” a única via para a construção de um novo amanhã.

Como a mão que afaga é a mão que apedreja e a boca que escarra é a boca que beija, as mesmas mãos e bocas que, no passado, tramaram as estratégias e táticas de construção de um poder político paralelo ao poder do Alto Comando das corporações policiais, hoje, com o desespero que aflige o rei ao qual o menino grita estar nu, jogam uma pá de cal sobre o movimento, dando um tom conspiratório ao caos da segurança pública na Bahia, denunciando seus principais líderes de crimes muitos graves: o de lesa pátria e o de lesa carnaval.

Espero, sinceramente, que esta manhã de quinta-feira traga a notícia de que venceu o bom senso e que o movimento paredista dos policiais militares e bombeiros cessou. Foi-se o meu temor de um confronto entre militares e o prédio do Poder Legislativo, agora desocupado, receba de volta os parlamentares na segunda-feira para debater, também, que razões serviram de razões para mais esta grave crise institucional que a Bahia vive.

Ante a gravidade do momento que vivenciamos ouso apelar para os meus antigos companheiros de caserna para que tenham bom senso e, cessado mais este transitório desassossego, independentemente das melhorias salariais, pautem suas condutas na estrita legalidade e, refletindo sobre as definições do filósofo inglês John Locke (1632-1704) sobre o que é a Lei e o que é a Justiça, percebam que a “única diferença entre os grandes e os pequenos violadores da lei é que, não raro, os grandes punem os pequenos para mantê-los em sua obediência; enquanto permanecem impunes, por serem grandes demais para as mãos frágeis da justiça deste mundo”.

Freud, em “O Mal-Estar da Civilização“, nos lembra que a civilização é uma troca: sempre ganhamos e perdemos algo. Para Freud, os indivíduos entregaram liberdade demais em prol de segurança. Hoje, poderíamos dizer o contrário: os policiais baianos entregaram demais a nossa segurança em prol da sua liberdade.

Dito isto, mais uma vez, deixo claro o meu pensamento de que em situações como essas não há inocentes. Todos os envolvidos, sem nenhuma exceção, estavam cientes das ações que iriam empreender e que, de fato, empreenderam. Mas é justamente aí que fica o cerne da questão, pois, para o teórico político russo Mikhail Bakunin (1814-1876), todo político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos.

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