Só os sem-teto e os sem-terra salvam o Brasil, diz o jornalista Xico Sá
"Pobre de espírito quem chama de vagabundo quem não tem casa ou terra no país que sempre foi o reino dos capatazes, sempre viveu sobre o tacão da monocultura — da cana-de-açúcar da Casa Grande à Sojolândia. A cara de pau, assim como o agro, é pop", diz o jornalista Xico Sá; "Os sem-teto e os sem-terra lutam todos os dias, estes são imprescindíveis, velho Brecht. Eles não se rendem à mudez geral da nação"
247 – Reproduzimos, abaixo, um trecho de um belo artigo publicado pelo jornalista Xico Sá no El Pais:
Imprescindíveis criaturas, caro Boulos, como aqueles dez mil sem-teto que marcharam esta semana da ocupação de São Bernardo ao Palácio dos Bandeirantes, que bela romaria em busca do que lhes é de direito no latifúndio urbano. Pobre de espírito quem chama de vagabundo quem não tem casa ou terra no país que sempre foi o reino dos capatazes, sempre viveu sobre o tacão da monocultura — da cana-de-açúcar da Casa Grande à Sojolândia. A cara de pau, assim como o agro, é pop.
Entre os milhões de sem-qualquer-coisa, os sem-teto do MTST e os sem-terra do MST, ave palavra, são um alento. Ainda mais nesta hora calada que mais parece um minuto de silêncio sem fim antes de um jogo da Pátria em chuteiras.
Os sem-teto e os sem-terra lutam todos os dias, estes são imprescindíveis, velho Brecht. Eles não se rendem à mudez geral da nação. Eles aguentam as buzinas dos apressadinhos da urbe — acelera, São Paulo! Eles suportam a história universal da infâmia e todos os xingamentos de “vagabundos”. Será que temos ao volante ou nas caixas de comentários da internet alguém que já trabalhou mais que essa gente? Duvido muito.