Terror nas salas de aula

O que eu, professora da rede pública, ouvi dos alunos após o Massacre do Realengo. E o que disse: respeito é a melhor forma de segurança



Depois de passar um dia estarrecida, nessa última quinta-feira, fui dar aulas nas escolas da rede estadual em que trabalho.

Sou professora estadual, atuo em três colégios, desses três estive em dois e o assunto era só um: “O massacre de Realengo”.

Professores assustados, direção acuada, alunos sem saber o que pensar e sem segurança em sala de aula.

Muitos nem mesmo chegaram ir à aula, uma turma de um dos colégios não compareceu.

Debati levemente com os meus alunos esses dois dias, soube de pessoas que tinham parentes, amigos e conhecidos que estavam na escola, uma das professoras me relatou que sua sobrinha estava lá no momento:

“A menina viu tudo, agora só faz chorar, não come, não dorme, e se dorme tem pesadelos, acorda gritando e correndo...” – diz uma das professoras em sala dos professores de um dos colégios em que atuo, ontem na sexta após o dia em que um homem derramou sangue de doze crianças, não se sabe ainda muito bem o porquê.

Em sala, meus alunos me responderam à minha inquietação:

“Digam pra mim: Qual a segurança que posso oferecer a vocês em uma situação dessas?”

Muitos disseram em coro: “Nenhuma, professora...”

Pois bem, nenhuma mesmo, mas assegurei que aquele colégio seria um dos que me sinto mais segura, pois as portas são fechadas e se averigua quem é aluno ou não, há muito temor da direção com respeito a isso e que eu acompanhava esse cuidado. Realmente, sinto-me bem e tranquila ali.

Sorriram aliviados, e alguns me questionaram e contaram como foi e porque o rapaz executou aquela chacina. A tentativa era em vão, ninguém conseguia justificar tal violência.

Muitos me perguntaram: “Professora como fazer para evitar algo assim?”

Eu só consegui pensar em um discurso: o do respeito. E disse-lhes que se um respeitasse ao outro, e se as pessoas tivessem a consciência de que ninguém conhece o interior, as dores, traumas do outro e os problemas que se somam em suas vidas, exemplifiquei ainda que nem eu não os conhecia, eles também não me conheciam, os próprios alunos em si, entre seus colegas do lado, que ninguém conhecia ninguém. Ficaram me olhando e se olhando em um pequeno silêncio reflexivo e emendei dizendo que a brincadeira torta que poderia ser interpretada como ofensa e quem sabe pudesse vir a ser vingada em anos por aquele que sofreu o desrespeito. Não se sabe!

Concluímos que a melhor forma de segurança nas salas de aula é justamente esse: o respeito. Para se estabelecer a paz dentro de sala de aula devemos buscar essa ordem com o nosso comportamento e atitude diante do outro, principalmente, antes de cobrar às autoridades segurança e até policiamento dentro da escola, pois lugar de polícia é nas ruas, na escola deve se estabelecer uma relação de tranquilidade e extensão de suas casas.

“Violência não se combate com violência, mas sim com inteligência.” Quem diz é o deputado Gabriel Chalita.

• Cristiane Passinato é carioca, professora da rede estadual no RJ e técnica em química da UFRJ, escritora, envolvida com voluntariado, internet, possuí diversos blogs onde estimula à escrita e solidariedade. Assina a coluna de Educação do portal Top Blog. Também é colunista do Jornal O Rebate no Caderno R. Escreveu um livro que foi publicado pela USP, com suas poesias, o "Ebulições".

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