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Pobres e negros são os mais prejudicados pela crise do coronavírus, diz socióloga Rosana Pinheiro-Machado

Segundo a colunista do The Intercept, “enquanto bilionários pegam seus jatinho particulares e vão para bunkers de luxo isolados em países não infectados”, “736 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no mundo e consideram o sabonete um objeto de luxo”

Pobres e negros são os mais prejudicados pela crise do coronavírus, diz socióloga Rosana Pinheiro-Machado (Foto: Reprodução ONU)

247 - “Enquanto uma parte significativa do mundo discute trabalho remoto e isolamento, a senhora que trabalha como caixa do supermercado permanece parte do dia sentada, encarando cada consumidor que compra papel higiênico para estocar”, afirma a socióloga Rosana Pinheiro-Machado em sua nova coluna no The Intercept Brasil.

Para ela, os principais afetados pela crise do coronavírus no Brasil serão as pessoas pobres, trabalhadores, que “não podem parar”, como a socióloga define. Enquanto “as consequências extremadas de um mundo distópico e pandêmico seguem seu curso”, diz, “bilionários pegam seus jatinho particulares e vão para bunkers de luxo isolados em países não infectados” e “736 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no mundo e consideram o sabonete um objeto de luxo”.

A socióloga mostra que o fato do vírus ter chegado no Brasil com recessão econômica e desemprego, a situação será pior, pois “para grande parte dos trabalhadores brasileiros desprotegidos - entre trabalhadores informais, freelancers e empreendedores -, o isolamento não é uma possibilidade”. Precisa-se fazer uma escolha entre não ficar vulnerável ao vírus ou pagar as contas.

Para Pinheiro-Machado, com o esvaziamento dos espaços públicos causado pela epidemia, “entregadores e motoristas de aplicativos precisam trabalhar em dobro para compensar” e “ao não dormirem bem, a imunidade cai” e facilita-se a infiltração do vírus. Outra vítima são os terceirizados de grandes empresas. A colunista do The Intercept mostra:

“Na semana passada, prestadores de serviço do Facebook denunciaram ser obrigados a ter que trabalhar em algumas sedes da empresa, enquanto os funcionários formais foram liberados para trabalhar remotamente. Terceirizados da sede de Mountain View dizem que as pessoas vão trabalhar tossindo e doentes. Outra empresa de marca ‘descolada’, o supermercado Whole Foods, em vez de garantir folga remunerada para seus empregados, enviou uma nota sugerindo que os trabalhadores doem seus dias pagos para seus colegas que precisam”.

Ela reforçou que o HIV, tuberculose, ebola, dengue, zika e coronavírus são “casos bem acabados daquilo que o médico e antropólogo Paul Farmer chamou de ‘violência estrutural’: a forma como estruturas políticas e econômicas afetam, infectam e matam populações que vivem em condições precárias”. A socióloga chama atenção para “como alguns corpos são escolhidos para vencer a batalha da sobrevivência, enquanto outros são jogados à própria sorte”. “Como para algumas pessoas a vida é permitida e a outras, não?”, questiona, afirmando que trata-se de um problema de saúde pública mas também de política econômica.

Por isso, para ela, “o vírus escolhe, sim, classe, raça e gênero”. A colunista procurou Mariana Varella, editora do Portal Drauzio Varella, e informou que “ela demonstrava profunda preocupação com o potencial catastrófico que a epidemia pode ter no Brasil entre os mais pobres, entre aqueles que moram em comunidades cujas casas são aglomeradas e sem ventilação. Ela também teme a falta de leitos em localidades onde não há UTI”. A socióloga fala em “apartheid sanitário” e “racismo epidêmico”, pois “a grande maioria dos mais vulneráveis é negra”.

Neste sentido, ela afirma que é preciso “voltar a debater políticas de proteção social”, “ampliar a proteção social dos trabalhadores informais e por conta própria” e “defender o SUS e lutar contra projeto de seu sucateamento”. “Se há alguma lição que podemos tomar desse processo que beira à catástrofe é a necessidade de radicalizar na contramão do neoliberalismo, discutindo acesso aos direitos fundamentais à educação, à saúde e à moradia”, afirma.