Todos os caminhos do imóvel de Wassef em Miami levam a ex-mulher, beneficiária de milhões em contratos com o governo Bolsonaro

A ex-mulher Maria Cristina Boner foi beneficiária de R$ 60,4 milhões em contratos assinados no atual governo através da Globalweb Outsourcing

www.brasil247.com - Wassef e Maria Cristina Boner
Wassef e Maria Cristina Boner (Foto: Reprodução)


Lúcio de Castro, Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo - Todos os caminhos do imóvel de Frederick Wassef em Miami levam até a ex-mulher Maria Cristina Boner, beneficiária de R$ 60,4 milhões em contratos assinados no atual governo através da Globalweb Outsourcing.

O apartamento passou para a titularidade do advogado da família Bolsonaro em 13 de setembro de 2021, um ano depois do Conselho do Controle de Atividades Financeiras (COAF) apresentar relatório mostrando transferências atípicas entre as partes, totalizando R$ 4 milhões. Embora sem constar como proprietária, Maria Cristina Boner realizou o pagamento da taxa anual de 2021, no valor de US$ 10.520,25, do imóvel de Miami. E fez o mesmo desde 2013, como mostram os documentos obtidos pela reportagem.

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Os registros dos cartórios de Miami mostram que o proprietário anterior a Wassef era a empresa Integration Consulting and Project Finance (ICPF), do brasileiro Paulo Oliveira.

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Em 2018 e 2019, com o imóvel constando em nome da Integration Consulting and Project Finance, Maria Cristina Boner também pagou o imposto, como mostra o documento abaixo:

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Apesar de estar em nome da Integration Consulting and Project Finance, quem paga o imposto de 2019 é Maria Cristina Boner

Paulo Oliveira também consta em registros comerciais americanos como representante da Eagle Tax Representation. Onde as filhas de Maria Cristina Boner (Mariana, Karina e Bruna) também aparecem.

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A Eagle Tax também aparece na sociedade da Compusoftware Corp, onde as filhas estão como acionistas e a própria Maria Cristina figurava anteriormente. Em 2015, Bolsonaro, ainda deputado federal, comprou uma Land Rover que estava em nome da Compusoftware, abaixo do preço de mercado.

Antes da ICPF, entre 2013 e 2017, o imóvel era da GT Invest Partners. Da mesma forma, em 2013, 2014 e 2016, também é a ex-mulher de Wassef que paga o tributo.

Uma das empresas da filha Mariana, a The Top Global Enterprise Corporation, tinha como endereço o apartamento atualmente em nome de Wassef.

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Cronologia

2013– Maria Cristina paga pelo imposto anual do imóvel que no papel é da GT INVEST PARTNERS

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2014 – Maria Cristina paga pelo imposto anual do imóvel que no papel é da GT INVEST PARTNERS

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2015– O imposto foi pago pela GT INVEST PARTNERS pelo imóvel que no papel é da GT INVEST PARTNERS

2016– Maria Cristina paga pelo imposto anual do imóvel que no papel é da GT INVEST PARTNERS

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2017– O imóvel passa a constar no papel como sendo da INTEGRATION CONSULTING AND PROJECT FINANCE, de Paulo Oliveira, que representa empresa onde as filhas de Maria Cristina Boner aparecem

2018– Maria Cristina paga pelo imposto anual do imóvel que no papel é da INTEGRATION CONSULTING AND PROJECT FINANCE

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2019– Maria Cristina paga pelo imposto anual do imóvel que no papel é da INTEGRATION CONSULTING AND PROJECT FINANCE (documento já mostrado acima)

2020– a imobiliária CASALINA TITLE ESCROW INC consta como autora do pagamento do imposto anual do imóvel que no papel era da INTEGRATION CONSULTING AND PROJECT FINANCE.

2021– O imóvel passa a constar nos registros como de Frederick Wassef no dia 13/9/2021 e Maria Cristina Bonder paga a taxa anual. (documento já mostrado acima)

O pagamento da ex-mulher beneficiando Wassef não foi o primeiro. Repasses feitos por parte das empresas de Maria Cristina Boner e da filha Bruna Boner para o advogado já tinham sido apontados anteriormente, em outras situações, pelo COAF. Em 15 de julho de 2020, o órgão apresentou relatório de inteligência financeira (RIF) para o Ministério Público Federal (MPF-RJ) e Polícia Federal, em que citava Frederick Wassef como tendo recebido R$ 2,3 milhões por parte de Bruna Boner Léo. Os pagamentos não foram apenas para pessoa física. De acordo com o RIF, o escritório de advocacia de Wassef recebeu R$ 1,04 milhão da Globalweb. Em 2017, o COAF constatou saques em dinheiro de Maria Cristina Boner, seguidos por depósitos casados de Frederick Wassef, sempre no mesmo valor. De dezembro de 2018 e maio de 2020 foram registrados depósitos bancários entre as partes. Wassef começou a representar os Bolsonaro no fim de 2018, após a eleição.

Na ocasião, o Coaf afirmou que, “apesar de não haver participação formal de Frederick Wassef no grupo econômico, ocorre intenso relacionamento financeiro deste (Wassef ) com pessoas e empresas ligadas ao grupo TBA, ao longo dos últimos anos”. O grupo criado por Maria Cristina Boner se chamava TBA e depois foi transformado na holding Globalweb Sourcing.

As contas de Wassef também receberam R$ 360 mil diretamente de Maria Cristina Boner. E o escritório do advogado recebeu R$ 2,1 milhões da Computsoftware, citada no início da reportagem. Sobre o escritório de advocacia, o Coaf afirmou então que as contas foram objeto de “comunicações de operações suspeitas, motivadas principalmente por resistência ao fornecimento de informações acerca das movimentações havidas na conta da empresa, consideradas incompatíveis com a atividade”.

Transação do apartamento de Miami foi um ano depois do Coaf mostrar transferências financeiras entre Wassef e ex-mulher

Quando o RIF foi divulgado, a Globalweb afirmou, por nota, que ia “encaminhar requerimentos a todos os órgãos de controle para tomar conhecimento acerca de eventuais investigações em nome dos sócios e/ou das empresas”. E completou que, se houver algum procedimento, vai apresentar a defesa e “provar que não há qualquer ilicitude nas transações efetuadas”. A transação do apartamento é de um ano depois, em 2021.

Maria Cristina Boner Léo é fundadora da Globalweb Outsourcing e de outras do grupo. Em 2009, foi denunciada pelo MPF por pagamento de propina no governo de José Roberto Arruda, DF. A filha, Bruna Boner Léo, passou a constar na direção. Em 2019, Maria Cristina Boner foi proibida judicialmente de fazer contratos com o poder público até 2022.

Além dos R$ 60 milhões em novos contratos, Globalweb recebeu mais R$ 165 mi em aditivos

Reportagem de Juliana Dal Piva no UOL em 2020, mostra que, além do montante recebido diretamente em novos contratos pela empresa por parte do governo Bolsonaro, a Globalweb também recebeu R$ 165 milhões em aditivos de acordos antigos.

Em 2020, o jornal o Globo revelou que o governo Bolsonaro anistiou um consórcio do qual a Globalweb fazia parte em multa de R$ 27 milhões, por não entregar serviços previstos para a Dataprev, a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência, vinculada ao Ministério da Economia.

Dos R$ 60.442.009,92 em novos contratos entre a Globalweb Outsourcing e o governo Bolsonaro, 45%, ou R$ 27.170.085,60, foram através do Ministério da Educação (MEC), envolvido em escândalo de corrupção que causaram a demissão do ministro Milton Ribeiro. Reportagem da Agência Sportlight de Jornalismo no último dia 23 de março mostrou que somente nos nove primeiros meses de 2019, os dois operadores do esquema de desvios tinham estado 19 vezes no Palácio do Planalto.

Três quartos, 226 metros quebrados e alto luxo em bairro sofisticado

Com três quartos e 226 metros quadrados, o apartamento agora em nome de Frederick Wassef fica no sofisticado bairro de Aventura, um dos preferidos dos brasileiros em Miami. Com elevador privado, vista panorâmica, varanda por toda extensão, a 5 minutos da praia de Sunny Isles e cerca de 20 do aeroporto. Em sites de imobiliárias da Florida que anunciam imóveis para aluguel de temporada, o apartamento aparecia em nome de Maria Cristina Boner. A propriedade do apartamento foi declarada na justiça eleitoral por Wassef, candidato a deputado federal pelo PL (SP). No cartório americano, o imóvel consta com o valor de US$ 890 mil.

Outro lado:

Frederick Wassef:

A reportagem tentou seguidamente contado com Frederick Wassef, sem resposta. Em caso de retorno, atualizaremos aqui.

Maria Cristina Boner:

A reportagem enviou pedidos de “outro lado” seguidamente para o grupo empresarial e para as pessoas físicas citadas, sem resposta.

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