Trio de Cachoeira: “Chico”, “amendoim” e “caneta”

Estes eram os apelidos que ele costumava usar para se referir a algumas pessoas prximas, como o sargento Dad (Chico), o senador Demstenes Torres (amendoim) e o jornalista Policarpo Jnior (caneta), da revista Veja, cujas relaes com o contraventor se tornam cada vez mais prximas

Trio de Cachoeira: “Chico”, “amendoim” e “caneta”
Trio de Cachoeira: “Chico”, “amendoim” e “caneta” (Foto: Edição/247)
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247 – A cada dia, novas revelações sobre o caso Carlos Cachoeira. A de hoje, trazida pela Folha de S. Paulo, mostra a construtora Delta tentando plantar uma reportagem na revista Veja porque não vinha sendo atendida no DNIT – órgão do Ministério dos Transportes responsável por obras viárias. “Em conversas no primeiro semestre de 2011, Cachoeira disse a Claudio Abreu, diretor da Delta no Centro-Oeste, que estava fornecendo informações sobre irregularidades no Dnit para a revista Veja durante a apuração de uma reportagem”, aponta trecho de um relatório da Polícia Federal, citado pela Folha.

O trecho constrange ainda mais a publicação da Editora Abril, que provavelmente verá serem convocados pelo CPI o jornalista Policarpo Júnior, diretor da sucursal Brasília, e o próprio dono da empresa, Roberto Civita. As ligações são tão estreitas que Cachoeira tinha um apelido carinhoso para se referir ao jornalista. Ele era chamado de “caneta” pelo contraventor. Outros que também tinham codinomes eram o sargento Idalberto Martins, o Dadá, e o senador Demóstenes Torres. O primeiro era chamado de “Chico”, justamente por ter a mania de tratar todos os interlocutores por Chico. O senador era chamado de “amendoim” – uma lembrança dos tempos em que era gordo e não se cansava de comer amendoins.

Veja já tem um discurso pronto para a CPI. Assim como colocou na edição deste fim de semana, dirá que boas informações podem ser colhidas com homens de má reputação. A revista, no entanto, foi rebatida pelo jornalista Janio de Freitas, da Folha de S. Paulo. Ele afirmou que, ainda que exista interesse público nas informações prestadas por fontes criminosas, o interesse de marginais, em geral, é o de ampliar a marginalidade (leia mais aqui).

Diante da revelação trazida hoje pela Folha, o blogueiro Luís Nassif aponta as conexões entre os matérias pautadas por Carlos Cachoeira e seus interesses comerciais, nem sempre republicanos. Leia, abaixo, o texto de Nassif:

A Folha tem dois bravos repórteres – Cátia Seabra e Rubens Valente – lutando com um braço amarrado. É isso que explica o fato do lide da matéria sobre Cachoeira (a informação mais importante, que deveria estar na abertura) ter ficado no pé:

"Em conversas no primeiro semestre de 2011, Cachoeira disse a Claudio Abreu, diretor da Delta no Centro-Oeste, que estava fornecendo informações sobre irregularidades no Dnit para a revista "Veja" durante a apuração de uma reportagem".

Na verdade, a Folha (e a Globo) têm muito mais que isso. Pelas matérias divulgadas, a Globo teve acesso às gravações do Guardião – a máquina de grampo da Polícia Federal. A Folha tem acesso a relatórios da Operação Monte Carlo, provavelmente do material reservado que está no Supremo Tribunal Federal (STF), envolvendo o senador Demóstenes Torres e dois deputados federais.

Nesse relatório existem informações relevantes sobre a relação Veja-Cachoeira – que a Folha ainda não deu.

O primeiro, a íntegra das conversas entre Cachoeira e o diretor da Delta, Cláudio Abreu, comprovando que estavam por trás da denúncia da Veja. O segundo, as negociações da Veja, Cachoeira e o araponga Jairo para combinar a invasão do Hotel Nahoum - na qual foram feitos vídeos ilegais de encontros do ex-Chefe da Casa Civil José Dirceu com políticos e autoridades.

A matéria da Veja sobre o DNIT saiu em 3 de julho de 2011. A diretoria estava atrapalhando os negócios da Construtora Delta. Foi o mesmo modo de operação do episódio dos Correios: Cachoeira dava os dados, Veja publicava e desalojava os adversários de Cachoeira.

Coincidiu com investigações que já estavam em curso na Casa Civil, alimentando algumas versões de que o próprio governo vazara os dados para a revista. Fica claro que era Cachoeira.

No dia 8 de julho, as escutas captaram a seguinte conversa de Cachoeira:

Cachoeira: Não. Tá tudo tranquilo. Agora, vamos trabalhar em conjunto porque só entre nós, esse estouro aí que aconteceu foi a gente. Foi a gente. Quer dizer: mais um. O Jairo, conta quantos foram. Limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do caralho pro Brasil, essa corrupção aí. Quantos já foram, rapaz. E tudo via Policarpo.

A partir da divulgação da íntegra do relatório e das escutas, será possível entender alguns dados relevantes das negociações entre as duas organizações – a de Cachoeira e a de Roberto Civita.

Nas negociações sobre o DNIT, Policarpo se compromete a dar matéria em defesa do Bingo Online. A matéria do Bingo Online acabou não saindo na Veja (apenas no Correio Braziliense, em matéria de Renato Alves).

Provavelmente foi o não cumprimento do acordo que levou Cachoeira a se queixar amargamente de Policarpo e a aconselhar os comparsas a não passarem informações de forma descoordenada. Nas conversa, aliás, ele confessa ter sido ele quem aproximou os arapongas da revista Veja.

Cachoeira: Não, Jairo, foi isso não. Deixa eu falar pra você. Se Dadá estiver aí pode pôr até no viva-voz. Olha, é o seguinte: a gente tem que trabalhar em grupo e tem que ter um líder, sabe? O Policarpo, você conhece muito bem ele. Ele não faz favor pra ninguém e muito menos pra você. Não se iluda, não. E fui eu que te apresentei ele, apresentei pro Dadá também. Então é o seguinte: por exemplo, agora eu dei todas as informações que ele precisava nesse caso aí. Por que? É uma troca. Com ele tem que ser uma troca.

 

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