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"Trump propõe uma nova ONU em que ele sozinho é o dono", critica Lula

Presidente afirma que unilateralismo ameaça multilateralismo e cobra reforma da ONU durante ato de encerramento do 14º Encontro Nacional do MST em Salvador

23.01.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a sessão de encerramento do 14.º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Parque de Exposições Agropecuárias. Salvador (BA) - Brasil (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (23) que a política mundial vive um momento crítico, marcado pelo avanço do unilateralismo e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais. A declaração foi feita durante o encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador. As informações foram divulgadas originalmente pela Agência Brasil.

Ao discursar para milhares de participantes do evento, Lula disse que a Carta das Nações Unidas vem sendo desrespeitada e criticou duramente a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar um Conselho de Paz. Para o presidente brasileiro, a iniciativa representa, na prática, a tentativa de instituir uma nova Organização das Nações Unidas sob controle exclusivo de Washington.

“Está prevalecendo a lei do mais forte, a carta da ONU está sendo rasgada e, em vez de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que fui presidente em 2003, reforma da ONU com entrada de novos países [como membros permanentes no Conselho de Segurança], com a entrada de México, do Brasil, de países africanos… E o que está acontecendo: o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU, em que ele sozinho é o dono da ONU”, afirmou Lula.

Segundo o presidente, a proposta norte-americana surge no momento em que o governo brasileiro defende mudanças estruturais no sistema multilateral, especialmente no Conselho de Segurança da ONU, para torná-lo mais representativo da atual correlação de forças globais. Lula informou ainda que foi convidado por Trump a integrar o Conselho de Paz, que teria como atribuição supervisionar o trabalho de um Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês).

Diante do cenário internacional, Lula disse que vem intensificando o diálogo com líderes de diferentes regiões do mundo para tentar conter o avanço do unilateralismo. Entre os chefes de Estado e de governo citados por ele estão o presidente da China, Xi Jinping; o presidente da Rússia, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e a presidenta do México, Claudia Sheinbaum.

“Estou conversando para fazer com que seja possível a gente encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado para o chão e que predomine a força da arma, da intolerância de qualquer país do mundo”, declarou.

No discurso, o presidente brasileiro voltou a criticar a atuação dos Estados Unidos na Venezuela, classificando como inaceitável a violação da soberania e da integridade territorial do país vizinho. Lula mencionou o episódio que resultou no sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da deputada e primeira-dama, Cilia Flores.

“Eu fico toda a noite indignado com o que aconteceu na Venezuela. Não consigo acreditar. O Maduro sabia que tinha 15 mil soldados americanos no mar do Caribe, ele sabia que todo dia tinha ameaça. Os caras entraram na Venezuela, entraram no forte e levaram o Maduro embora e ninguém soube que o Maduro foi embora. Como é possível a falta de respeito à integridade territorial de um país? Não existe isso na América no Sul. A América do sul é um território de paz, a gente não tem bomba atômica”, disse.

Ao citar países como Estados Unidos, Cuba, Rússia e China, Lula ressaltou que o Brasil não adota preferência exclusiva em suas relações internacionais, mas deixou claro que o país não aceitará qualquer forma de submissão. Segundo ele, a política externa brasileira deve ser guiada pela soberania, pelo diálogo e pela cooperação.

O presidente também criticou a postura de Donald Trump no cenário global, afirmando que o norte-americano costuma exaltar o poderio militar de seu país. Lula afirmou que sua opção é pela diplomacia e pela política baseada no convencimento, e não na imposição pela força.

“Eu não quero fazer guerra armada com os Estados Unidos, não quero fazer guerra armada com a Rússia, nem com o Uruguai, nem com a Bolívia. Quero fazer guerra com o poder do convencimento, com argumento, com narrativas, mostrando que a democracia é imbatível; que a gente não quer se impor aos outros, mas compartilhar aquilo que a gente tem de bom”, defendeu. “Não queremos mais Guerra Fria, não queremos mais Gaza”, completou.

Encontro do MST

O 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra foi encerrado com um ato político que marcou os 42 anos do MST, celebrados no dia 22 de janeiro. A atividade contou com a presença de autoridades, parlamentares, representantes de movimentos sociais e sindicais, além de apoiadores do movimento.

Iniciado na segunda-feira (19), o encontro reuniu delegações de todas as regiões do país, com mais de 3 mil trabalhadores e trabalhadoras sem terra. Ao longo de cinco dias, os participantes debateram temas como reforma agrária, produção de alimentos saudáveis, agroecologia, agricultura familiar, a conjuntura política nacional e internacional, além dos desafios e do papel do movimento no atual contexto.

Ao final do evento, uma carta política do MST foi entregue ao presidente da República. No documento, o movimento critica tentativas de frear o multilateralismo e denuncia ações de caráter imperialista no continente, citando a invasão da Venezuela e os ataques à soberania dos povos.

O texto alerta ainda que iniciativas desse tipo têm como pano de fundo o “saque” de bens comuns da natureza, como petróleo, minérios, terras raras, água e florestas. A carta reafirma os princípios históricos do MST, entre eles a luta pela reforma agrária e pelo socialismo, a crítica ao modelo do agronegócio e da exploração mineral e energética, o anti-imperialismo, o internacionalismo e a solidariedade a países como Venezuela, Palestina, Haiti e Cuba.

“Assim convocamos toda a sociedade brasileira para: - lutar por melhores condições de vida e trabalho e em defesa da paz e da soberania contra as guerras e as bases militares; avançar na luta em defesa da natureza e contra os agrotóxicos. Contamos com a participação de todos e todas que nos apoiam e à classe trabalhadora a se somarem na luta pela Reforma Agrária Popular, rumo à construção de outro projeto de país”, finaliza o documento.