Um desastre anunciado

Mais cedo ou mais tarde ia acontecer: um bombeiro recebe 950 reais por mês no Rio

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A agitação militar na madrugada e manhã de hoje, no quartel do Comando-Geral do Corpo de Bombeiros, no Centro do Rio de Janeiro, era um conflito que estava desenhado pelo menos há seis meses. Desde o início do ano a corporação está rebelada, e a partir de abril saiu às ruas, realizando manifestações e protestos.

Outros incidentes graves já vinham ocorrendo, como a punição de um oficial que mandou um torpedo a um secretário estadual. O capitão Lauro Botto foi punido com 12 dias de prisão administrativa por quebra da hierarquia e da disciplina militar. A mensagem de SMS foi enviada ao secretário da Saúde e da Defesa Civil do Rio, Sérgio Cortês. O Rio é o único estado do país em que a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros são subordinados à Secretaria da Saúde. No torpedo o oficial reclamava dos baixos salários.

E a questão salarial é o querosene que mantém aceso os protestos. No Rio, um soldado dos bombeiros recebe, no contra cheque, minguados 950 reais. A categoria vinha reclamando aumento. Colocou na mesa a sua proposta: aumento do salário para 2 mil reais. “Nós temos o pior salário da categoria no país. Estamos há dois meses tentando negociar com o governo, mas até agora não obtivemos resposta”, resume o cabo Benevenuto Daciolo, porta voz do movimento.

Ninguém deu a mínima para as reclamações dos militares, nem os deputados fluminenses nem o governador do Rio. Um problema político-administrativo acabou em quebra de hierarquia e disciplina militar e esteve bem perto de um conflito militar entre duas corporações. O governador foi obrigado a chamar a Tropa de Choque da PM e o Batalhão de Operações Especiais para por fim à invasão.

O cerco ao quartel começou por volta das 2h da manha. O clima ficou tenso dentro do comando, na praça da República. A invasão pelo Bope ocorreu por volta das 6h deste sábado. Para entrar no local, a PM usou bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. Pouco antes, foram ouvidos barulho de disparos de armas de fogo. Até agora não se tem notícia de mortes.

O governador Sérgio Cabral deu entrevista agora à tarde quando chamou os manifestantes de “um grupo de vândalos”. Anunciou a troca de comando, colocando o coronel Sérgio Simões no lugar do coronel Pedro Machado, e informou que 439 bombeiros foram presos e que estes vão responder pelo crime de invasão de prédio público e violação do regulamento militar.

No início da manhã soldados do Bope invadiram o quartel pelos fundos, usando uma escada. Os agentes também jogaram bombas de efeito moral contra os cerca de 2 mil manifestantes, de vários batalhões da cidade, que ocuparam o local na noite de sexta-feira (3), alguns acompanhados por familiares e até por crianças. As famílias serviram como escudo para retardar a invasão.

Houve muita confusão. A polícia convocou homens da tropa de elite da corporação, da cavalaria e helicópteros. A PM retirou os rebelados em ônibus e os levou para o Batalhão de Choque e parte deles começou a ser transferida para a Corregedoria da corporação, que fica em São Gonçalo.

O episódio desta manhã retoma os protestos que começaram em abril e se prolongaram em maio. Centenas de bombeiros tomaram as ruas, paralisando o trânsito. Depois, uma parte dos manifestantes acampou na frente da sede da Assembleia Legislativa do Rio. Os deputados prometeram que o governo negociaria com a categoria. O protesto culminou com uma greve dos guarda-vidas. Cerca de 70% destes profissionais paralisaram os serviços nos postos de salvamento, nas praias cariocas.

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