Um heroi esquecido

Abdias do Nascimento merecia mais linhas e manchetes do que a mal-(in)formada imprensa tradicional lhe deu

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Um heroi: Abdias ou Lacraia?

Informar é o principal papel da imprensa. Extra-oficialmente, no entanto, a responsabilidade dos jornalistas é bem maior. Por meio da informação, a mídia forma a opinião pública. Cria herois, demoniza “vilões”, constroi o imaginário sociocultural de um país. A seleção do que – e quem – é importante orienta a hierarquia das manchetes em um telejornal ou num site de notícias. Dito isso, impressiona-me a visibilidade comprometida da morte de um dos maiores brasileiros do século 20 no noticiário desta terça-feira. Refiro-me a Abdias do Nascimento, ator, político e ativista dos direitos humanos, indicado ao Prêmio Nobel da Paz no ano passado.

Apesar do currículo, o destaque à perda de Abdias foi tímido na página principal dos sites do jornalismo mainstream. Parece-me que a cobertura da morte da dançarina de funk Lacraia, no começo deste mês, foi bem mais badalada – com direito a quiz e vídeos especiais. Ora, pode-se argumentar que os meios de comunicação só estão refletindo o interesse da sociedade brasileira. Afinal, quem aqui não se lembra da coreografia da “Eguinha Pocotó”? Mas, se o público não sabe quem é Abdias do Nascimento, é missão da imprensa informar e, portanto, educá-lo.

De fato, Abdias não foi a programas de auditório requebrar ao lado de MCs. Mas foi ele o responsável por abrir portas e oferecer palco para artistas negros mostrarem o talento. Na década de 40, ele fundou o Teatro Experimental do Negro – um brado político a favor da igualdade. Ele selecionava atores entre domésticas e analfabetos. Sabe qual é a dimensão dessa iniciativa? Antes que você recorra ao lugar-comum “isso é racismo às avessas”, uma digressão histórica é necessária.

Quando a Lei Áurea foi assinada, em 1888, centenas de milhares de pretos e pardos ficaram sem eira nem beira. O Império “libertou os escravos”, mas não adotou nenhuma política social para o grupo. A omissão do Estado em relação aos negros persistiu durante a República Velha. Uma das únicas opções de “inclusão” foi o serviço doméstico para as mulheres. O caminho natural da maioria dos negros foi a marginalização, a exclusão. Coincide com o início do século 20 a formação das principais favelas no Rio de Janeiro. Nessa época (e talvez até hoje), pobreza tinha cor no Brasil.

Abdias sentiu na pele a discriminação. Era obrigado a entrar em alguns lugares pela porta dos fundos porque era negro. E, olha, não estamos falando dos Estados Unidos, e sim do nosso Brasil cordial! Mas Abdias não se curvou ao racismo e decidiu confrontá-lo. Recorreu ao teatro para buscar igualdade de oportunidades para negros como ele, alijados de direitos básicos. Entre eles, o direito de poder construir o próprio futuro. Afinal, quais eram as chances de êxito de um negro, nos anos 40, em uma sociedade racista travestida da freyriana e romântica “democracia racial”?

Graças ao ativista, centenas de domésticas, analfabetos e desempregados encontraram espaço para expressar voz e dom. Não fosse o Teatro Experimental do Negro, eles teriam ficado, como de praxe, nos bastidores, fazendo cafezinho. Ou até fora do teatro. Por causa da cor. Por causa do preconceito. Na tentativa de debelar o racismo, Abdias foi um dos expoentes da criação do Movimento Negro Unificado e atuou como parlamentar na década de 80.

Esse elenco de ações é uma amostra bem limitada da biografia de um grande homem. Um brasileiro que dedicou a vida (pessoal e pública) para o outro, para o crescimento da sociedade, do País. Foi uma trajetória marcada pela luta por justiça social e pelo fomento da diversidade de cores e talentos. Abdias do Nascimento é um heroi nacional e, como tal, merecia mais linhas e manchetes do que a mal-(in)formada imprensa tradicional lhe deu.

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