Hans Dohmann explica por que o SUS do futuro deve passar menos pelo hospital e mais pelo território
A atenção primária forte, cuidado contínuo e atuação territorial são essenciais para tornar o SUS financeiramente sustentável.
O Sistema Único de Saúde (SUS) atende atualmente cerca de 76% da população brasileira, o que corresponde a mais de 160 milhões de pessoas com acesso direto e gratuito à assistência em saúde. O volume de atendimentos ultrapassa 2,8 bilhões por ano, distribuídos entre imunizações, consultas, exames e tratamentos diversos, com a atenção primária ocupando papel central na trajetória de cuidados.
Para Hans Dohmann, médico e especialista em gestão de saúde, esse cenário reforça que o SUS do futuro precisa depender cada vez menos do modelo hospitalar tradicional e cada vez mais de cuidados baseados no território, com foco na prevenção, na atenção primária e no cuidado contínuo das pessoas.
“O SUS precisa reorganizar sua lógica de cuidado. O território, onde as pessoas vivem, trabalham e se relacionam, deve ser o centro das ações de saúde, com menos deslocamentos aos hospitais e mais resolutividade no território”, afirma.
Nesse contexto, o uso estratégico de tecnologias digitais surge como um elemento-chave para ampliar a capacidade de cuidado no território. Ferramentas como prontuários eletrônicos integrados, telemonitoramento, uso de dados populacionais e plataformas de coordenação do cuidado permitem acompanhar pacientes de forma contínua, identificar riscos precocemente e apoiar decisões clínicas sem que o hospital seja o ponto central da assistência.
Saúde da Família completa 30 anos
Uma das principais bases para a atuação territorial do SUS é a Estratégia Saúde da Família (ESF), criada em 1994 e que completa 30 anos como prioritária para a atenção primária. O número de equipes de Saúde da Família cresceu quase 18% entre 2022 e março de 2024, alcançando mais de 61 mil equipes distribuídas em mais de 47 mil unidades básicas de saúde em todo o país.
A cobertura da atenção primária por meio da ESF está atualmente em quase 80% da população brasileira, segundo dados oficiais.
A ESF tem impacto direto na saúde da população e na redução de desigualdades de acesso, pois suas equipes estão inseridas nos territórios, próximas às comunidades, o que favorece a produção de vínculo com os usuários e permite ações contínuas de promoção, prevenção, diagnóstico e cuidado integral da saúde.
Menos hospital e mais cuidado contínuo
Dados de pesquisas epidemiológicas e de políticas públicas indicam que a expansão da atenção primária está associada à redução das internações por condições sensíveis à atenção primária aquelas que poderiam ser evitadas ou resolvidas com cuidados precoces e contínuos, como diabetes, asma e complicações circulatórias.
Estudo da OCDE aponta que a Estratégia Saúde da Família esteve associada à queda de cerca de 45% nas taxas padronizadas de internação por 10.000 habitantes entre 2001 e 2016, sobretudo por condições que a atenção primária bem estruturada poderia evitar.
Esse tipo de internação representa custos elevados ao SUS. “A lógica do cuidado territorial busca antecipar riscos de saúde no âmbito domiciliar e comunitário, retendo pessoas no território e reduzindo a necessidade de atendimento hospitalar de urgência e de alta complexidade, o que por sua vez promove economia de recursos e melhora da experiência do paciente”, explica o médico e gestor.
Território, vínculo e integralidade
A atenção primária territorializada envolve equipes multiprofissionais que atuam no cotidiano das comunidades, médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e outros profissionais, capazes de implementar planos de cuidado adaptados às necessidades locais. Essa presença contínua favorece a detecção precoce de agravos, o acompanhamento de doenças crônicas e o monitoramento de fatores de risco, reduzindo as chances de descompensações que demandariam internação hospitalar.
Segundo Hans Dohmann, sistemas com atenção primária forte não só obtêm melhores resultados em indicadores de saúde, como também demonstram maior eficiência técnica e menores custos operacionais ao longo do tempo, comparados a modelos centrados predominantemente em hospitais e serviços de alta complexidade.
Sustentabilidade e cuidados centrados na comunidade
Dohmann destaca ainda que, para tornar o SUS financeiramente sustentável e socialmente mais eficaz, é necessário consolidar um modelo de cuidado que considere as condições de vida e os determinantes sociais de saúde presentes nos territórios.
“O SUS do futuro demanda integração de tecnologias digitais com práticas de cuidado que realmente estejam enraizadas na vida das pessoas, reduzindo a dependência de hospitais e fortalecendo a atenção primária e comunitária”, observa.
A ampliação do cuidado territorial, de acordo com analistas de políticas de saúde, exige não apenas investimentos em infraestrutura das unidades básicas de saúde, mas também capacitação profissional, integração de dados populacionais e promoção de ações intersetoriais que atuem sobre determinantes como habitação, educação e trabalho, que influenciam diretamente os resultados em saúde.
Sobre Hans Dohmann

Dohmann é médico, mestre em Cardiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desenvolveu pesquisa em células-tronco em parceria com o Texas Heart Institute, foi secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014 e hoje atua nas áreas de gestão populacional e saúde digital no setor privado, sendo diretor médico da Stone, onde responde pelo Hospital Virtual Verde.