As razões do caos na Covid-19: especialistas explicam como a variante de Manaus alcançou o país inteiro

A disseminação de uma cepa mais transmissível do coronavírus a partir da capital do Amazonas tem como chaves uma van turística que chegou a Araraquara e a transferência de pacientes contaminados para outros estados, de acordo com um grupo de epidemiologistas do Nordeste. Entenda

(Foto: Divulgação)
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Por Paulo Henrique Arantes, para o 247 - A provável razão para o recrudescimento da pandemia de coronavírus em todo o país envolve responsabilidade direta do governo federal, de governos estaduais e de prefeituras. A disseminação de uma cepa mais transmissível do SARS-Cov-2 a partir de Manaus tem como chaves uma van turística e a transferência de pacientes contaminados. 

Vários pesquisadores defendem que o repique devastador da Covid-19 no Amazonas deve-se ao surgimento da nova variante do vírus, resistente aos anticorpos produzidos nas contaminações pela primeira cepa. Mas um grupo de epidemiologistas do Nordeste apresenta a hipótese de que seu espalhamento em ritmo acelerado por todo o Brasil tenha ocorrido por absoluta inépcia do Ministério da Saúde – e também de algumas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde – no controle de um surto viral localizado.

“Teria sido adequado e muito mais seguro, do ponto de vista do controle epidemiológico, isolar Manaus e arredores e mobilizar equipes e equipamentos para instalar lá os leitos específicos e de UTI, de certo modo fazendo como se fez em Wuhan, na China”, explica Naomar de Almeida Filho, titular de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ao isolarem a cidade-epicentro da doença, os chineses frearam a epidemia, bloquearam a transmissão e usaram o lockdown rigoroso como fundamento para uma vigilância epidemiológica intensiva.

No caso brasileiro, a falta de estrutura para atendimento dos doentes na capital, que morriam por carência de oxigênio, fez com que eles fossem transferidos para outros estados. Em um erro mortal, contradizendo princípios básicos de controle epidemiológico, a nova variante do coronavírus foi levada para todo o país.

“Outro agravante é que, devido à falência da assistência em Manaus, possivelmente muitos pacientes que tinham condições financeiras tenham se deslocado por conta própria para procurar tratamento em outros locais, sem informar que estavam viajando infectados”, raciocina Naomar.

Os pacientes manauaras foram transferidos majoritariamente para São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Ceará e Maranhão, justamente estados em que a pandemia recrudesceu com mais força. Muitos parentes os seguiram.

No Estado de São Paulo, a cidade de Araraquara é a que se encontra em pior situação face à pandemia. E sua relação com Manaus é total. Em janeiro, 10 pessoas provenientes da capital do Amazonas em viagem turística numa van aportaram na cidade paulista em busca de atendimento médico para uma delas, uma mulher de 55 anos, com sintomas de Covid-19. Os testes deram positivo para a mulher e para outros seis passageiros da van. 

Nesta quinta-feira, 4 de março, o Instituto de Medicina Tropical da USP divulgou resultados preliminares de um estudo indicando que a variante brasileira do novo coronavírus (P.1) é predominante em Araraquara. A cidade tem 100% de ocupação dos leitos de UTI e registra, desde fevereiro, recordes de novos casos, internações e mortes por Covid-19.

“A introdução da nova variante implica a maior ameaça, inclusive arriscando a reduzir o potencial de controle da pandemia pelas vacinas existentes. O caso de Araraquara comprova isso. Lembremos que Araraquara fez um ótimo trabalho de controle na primeira onda”, alerta o epidemiologista Naomar de Almeida Filho.

Do home-office à transmissão

Como constatado pelo grupo de cientistas do Nordeste que atuam ao lado do professor Naomar, a disseminação do coronavírus vinha se dando pela saída dos mais jovens de seus home-offices e para aproveitar a vida social “roubada” pela pandemia. O excesso de transmissão decorrente desse fato favoreceu mutações e recombinações do vírus. 

As recombinações, explicam os epidemiologistas, podem ocorrer quando cepas diferentes se cruzam em um indivíduo – elas trocam pedaços. No Brasil pode ter ocorrido o que um grupo da Rockefeller University sugere: grande número de pessoas com sorologia positiva levaria o vírus a buscar saídas para se replicar, encontrando uma mutação que permita sua passagem por cima da proteção gerada pelo vírus nos indivíduos. 

Praticamente não há dúvidas quanto à presença de uma quantia significativa de reinfecções em todos os lugares alcançados pela cepa amazônica.

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