‘Covid vira gripinha’: Entenda o que significa a eficácia de 50,4% da CoronaVac

O Instituto Butantan divulgou nesta terça-feira (12) os estudos de eficácia global da vacina desenvolvida na China contra a Covid-19, mas muita gente ficou confusa. Leia a explicação do médico Márcio Sommer Bittencourt, especialista em epidemiologia

Profissional de saúde segura caixa de potencial vacina contra Covid-19 da chinesa Sinovac durante testes em Porto Alegre
Profissional de saúde segura caixa de potencial vacina contra Covid-19 da chinesa Sinovac durante testes em Porto Alegre (Foto: REUTERS/Diego Vara)
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247 - O governo de São Paulo divulgou nesta terça-feira (12) os resultados dos testes globais de eficácia da CoronaVac, vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo laboratório chinês SinoVac e trazida para o Brasil por uma parceria com o Instituto Butantan.

A eficácia geral é de 50,38% nos testes no Brasil, índice considerado adequado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para conter infecções, anunciou a entidade. Mas muita gente ficou confusa, achou que o índice poderia ser baixo e não compreendeu o que significam os 100% de eficácia para casos graves, 78% para casos leves e 50,4% para assintomáticos. Afinal, qual a diferença? E como foi feito o estudo?

O especialista em epidemiologia Márcio Sommer Bittencourt, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein e pesquisador da Clínica Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, traz uma explicação bastante clara no Twitter. Em resumo, ele diz que, com a vacina, “a Covid vira uma gripinha na maior parte dos casos”.

“Para uma vacina desenvolvida em um ano, que pode ser produzida em larga escala localmente, distribuída facilmente sem problemas, acho um espetáculo”, opinou Bittencourt, que tem chamado atenção nas redes sociais por suas análises sobre a pandemia. Confira abaixo a sequência de seus posts no Twitter:

** NOTA URGENTE**

Vamos arrumar o que a brilhante comunicação do governo de SP esta estragando.

OS RESULTADOS DA CORONAVAC SÃO MUITO BONS!

- Eles têm impactos na estratégia de uso, eles tem limitações, mas eles são bons mesmo. Muito melhores que a pataquada da comunicação oficial

- De forma simples, uma vacina é feita para ensinar seu corpo a se defender de um inimigo que você nunca viu. Quando o inimigo chegar você vai estar (mais) preparado que se não tivesse sido vacinado. Tem vacina que te ensina tudo, tem vacina que te ensina menos.

- A primeira pergunta é se o corpo aprende (faz anticorpos) e qual dosagem precisa para isso. 

A Coronavac passou na prova, com o melhor esquema sendo 3mcg com 28 dias de intervalo. 

Bem mais de 90% fez anticorpos suficientes e quase todos fizeram algum (bolinhas verdes vs. pretas)

- A próxima pergunta é se é seguro. Coronavac é segura (estudo do butantã nos slides). Detalhes da segurança e anticorpos publicados aqui.

- A próxima pergunta é se o que o corpo aprendeu ajuda a defender do inimigo (estudo fase 3). Pegamos uma população grande (9242), metade treina com vacina, metade não treina (ganha placebo). Soltamos todo mundo e vamos vendo que pega COVID19 e se quem treinou pega menos.

- Esperamos até que um pessoal pegue a COVID19 e ai vemos quem pegou em cada grupo. Começa a confusão, pois vai que alguém pega COVID19 e não sente nada, como não fazemos exames em todo mundo, pode passar um caso batido.

- Além disso, a vacina pode te treinar mais ou menos, você não consegue evitar a entrada do vírus, mas na hora que ele entra você está mais preparado para a batalha, aí seu quadro de COVID19 é mais leve. ISSO IMPORTA MUITO, vou explicar depois. Mas o que deu na Coronavac?

- No grupo placebo 3,6% pegaram COVID19 (167/4599). No grupo vacina 1,8% pegaram COVID19 (85/4653). VOCÊ TEM 50,38% MENOS CHANCES DE PEGAR COVID19. Você tem metade das chances de pegar COVID19, já é bom. Mas tem coisa muito melhor que isso.

- Como já foi dito, muitas vezes COVI19 é só uma gripinha, as vezes ela é uma gripona e as vezes ela mata. Por isso, criamos uma classificação de gravidade em 10 níveis que podem ser agrupados em leve, moderadao e grave. Fonte.

**AGORA A PARTE SENSACIONAL**

No grupo que não treinou (placebo), 0,7% (31/4653) precisou de assistencia médica por COVID19.

O grupo que treinou com vacina estava mais bem preparado, somente 0,15% (7/4599) precisou de assistência médica.

*** 0,15% vs. 0,7% *** Da 78% a menos.

- E os 100% contra casos graves? O problema é estatistico. Não tivemos ainda número suficiente para ter certeza. Com poucos casos pode acontecer por acaso, dizemos que não foi estatisticamente significativo. Mas qual o placar? 7 X 0 (7 casos no placebo, 0 no vacina)

- Resumo, você tem 50% menos chance de pegar COVID19 e uma redução de quase 80% em casos que precisam de médico, talvez mais que isso nos mais graves. Dos vacinados, ai sim, a maioria so teve uma gripinha que não precisa de médico. "COVID19 vira gripinha" na maior parte dos casos

- Nas minhas contas 7 x 0 com o N deveria dar significativo (fazendo com Fisher exato ou assumindo tempos diferentes no logrank), não sei se eles fizeram ajuste post hoc ou outra coisa, na minha conta era para dar significativo até mesmo para hospitalizados.

- O que eu acho? Para uma vacina desenvolvida em um ano, que pode ser produzida em larga escala localmente, distribuída facilmente sem problemas, acho um espetáculo. Sim, tem coisa que na pesquisa foi melhor, mas se você não consegue distribuir não adianta nada.

- Sendo simplista, se vacinar 1 milhão com vacina que reduz 95% o maximo que você protegeu foi 950 mil pessoas. Se vacinar 200 milhões com uma vacina que reduz 50% você protege até 100 milhões de pessoas. E dos que pegam a maioria nem médico precisa.

- A MELHOR VACINA É A VACINA QUE ESTÁ DISPONÍVEL MAIS RÁPIDO. A MELHOR VACINA É A VACINA QUE PODE VACINAR MAIS GENTE. A MELHOR SAIDA DA PANDEMIA É TER ALGUMA VACINA RAZOAVELMENTE EFICAZ E SEGURA. E a Coronavac é.

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