'Zero mortes': especialista explica o segredo do Vietnã em lidar com pandemia da Covid-19

O Vietnã registra 268 casos de contágio por Covid-19 e nenhuma fatalidade. Com estes números, o Vietnã marca surpreendente distância dos EUA, China, Japão, Coreia do Sul e vários outros países do Sudeste Asiático, e ainda mais relativamente à maioria dos países europeus

Vietnã
Vietnã (Foto: Reuters)
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Sputnik News - O cientista Maksim Syunnerberg aponta a tradição "histórico-militar do país" e a "atitude extremamente responsável do público" como fatores para a fraca propagação do coronavírus no país asiático.

Vietnã regista 268 casos de contágio por SARS-CoV-2 e nenhuma fatalidade nesta quinta-feira (23). Com estes números, o Vietnã difere favoravelmente dos EUA, China, Japão, Coreia do Sul e vários outros países do Sudeste Asiático, e ainda mais relativamente à maioria dos países europeus.

Também o Brasil registra 46.348 casos e está vendo seus números aumentar. As medidas contraditórias, pouco resolutas e tendencialmente hostis à quarentena da administração de Bolsonaro têm levado os governadores locais a assumir a maior parte das decisões de confinamento ao longo das semanas.

O cientista Maksim Syunnerberg, especialista em assuntos vietnamitas, realizou um estudo, cujos resultados contou à Sputnik Vietnã em uma entrevista e que é dedicada ao coronavírus no país.

O baixo número de infecções se deve em grande parte à rapidez de ação das autoridades. Assim, logo no dia seguinte à primeira infecção, em 24 de janeiro, por despacho do Ministro da Saúde em exercício foi criado o Centro de Emergência de Combate à Infecção. Em 1º de fevereiro, o premiê Nguyen Xuan Phuc declarou estado de epidemia em três províncias, quando ainda só havia 6 casos de infecção.

Em fevereiro, o Ministério da Educação e Formação do país suspendeu todas as atividades escolares até o final de março e depois prorrogou a medida até novo aviso.

Moradores usam máscaras faciais protetoras, enquanto viajam de moto em uma rua, depois que o governo aliviou o autoisolamento nacional do coronavírus, em Hanói, Vietnã, 23 de abril de 2020

No dia 4 de março foi realizado um exercício militar sem precedentes para treinar o combate a diferentes cenários de desenvolvimento da pandemia no país. A partir de meados de março, o Vietnã cancelou as ligações aéreas com países afetados pela COVID-19 e introduziu restrições à emissão de vistos para estrangeiros.

A partir de 16 de março, o uso de máscaras em locais públicos passou a ser obrigatório. Em 1º de abril, o primeiro-ministro emitiu um decreto declarando estado de epidemia em todo o país. Foi introduzido o regime de autoisolamento em todo o Vietnã. A partir desse dia só seria permitido à população sair de casa para comprar alimentos e se deslocar a estabelecimentos de saúde e farmácias.

Medidas econômicas

No início de março, foram anunciadas medidas para apoiar a economia do país no valor de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,56 bilhões). De acordo com a previsão do Banco Asiático de Desenvolvimento, o PIB do Vietnã crescerá 4,8% neste ano. Assim, o país manterá um bom ritmo de desenvolvimento econômico, embora seja inferior ao inicialmente planejado para este ano.

"A mídia vietnamita iniciou imediatamente a cobertura mais ativa e detalhada da situação do coronavírus, tanto no mundo quanto, sobretudo, no próprio país", disse o especialista.

"Não apenas os sites médicos especializados, mas também os sites de notícias gerais mais populares contêm informações detalhadas sobre cada caso específico da doença: são indicados os dados da pessoa infectada, todo o seu movimento. Assim, cada caso se torna o mais identificado e conhecido possível, tanto pela população como pela comunidade médica, o que facilita muito seu trabalho."

Público vietnamita

Syunnerberg opina também que a "atitude extremamente responsável do público em relação à epidemia" é um fator não menos importante do que a pronta atuação das autoridades.

"Isto é especialmente evidente quando se visualizam comentários em sites de notícias e fóruns na Internet. As pessoas ligadas às artes também reagiram rapidamente à epidemia, o que se refletiu em inúmeras canções, clipes, etc. dedicados ao vírus, e essas canções se tornaram muito populares no país", relata.

Ciência ao serviço do combate à pandemia

Maksim Syunnerberg acredita que os cientistas vietnamitas deram uma contribuição importante, pois o Vietnã foi um dos primeiros quatro países do mundo onde o vírus foi cultivado e isolado. Os testes rápidos foram desenvolvidos muito rapidamente no país, o que permitiu abranger a população em geral.

Mulher usa máscara facial de proteção enquanto caminha ao redor do lago Hoan Kiem, depois que o governo aliviou o autoisolamento nacional do coronavírus, em Hanói, Vietnã, 23 de abril de 2020

Com cerca de 133.000 testes realizados até quarta-feira (22), o Vietnã é o líder entre todos os países do Sudeste Asiático. A Malásia foi o único outro país na região que fez mais de 100.000 testes, enquanto Mianmar realizou menos de 5.000.

Estes testes, e recentemente outros equipamentos médicos, têm sido amplamente exportados pelo Vietnã para países europeus e para os EUA. O Instituto Vietnamita de Tecnologia (VinIT, na sigla em inglês) desenvolveu sob direção de Shi Nguyen-Kuok, professor do Instituto de Energia de Moscou, um método de destruição do vírus usando plasma frio.

O método pode ser aplicado eficazmente para desinfectar produtos e superfícies, em vez das tradicionais soluções que contêm álcool e outras soluções antissépticas.

Panorama geral

Tudo somado, o especialista nota que o governo vietnamita é dos que maior confiança da população tem no mundo relativamente ao combate à pandemia da COVID-19, devido a saber aproveitar a "retórica histórico-militar do país", existente há séculos, para mobilizar a população.

"A população entende o próprio vírus, e ele é assim caracterizado pelo primeiro-ministro, como um 'inimigo', para o qual o Estado e a sociedade devem mobilizar todas as forças."

"Essa consolidação das autoridades e da sociedade permite esperar que a escala da epidemia no país seja das mais baixas do mundo, e que o próprio país saia dela sem as piores consequências negativas", comenta Maksim Syunnerberg.

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