CPI: Mandetta confirma que Presidência elaborou decreto que mudava bula da cloroquina para uso contra Covid-19

Em depoimento no Senado, ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse que alertou Bolsonaro sobre número de mortes previstos na pandemia e que o Planalto quis modificar, junto à Anvisa, a bula da cloroquina para incluir recomendação contra a Covid

(Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)
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247 - Em depoimento na CPI da Covid no Senado, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que a ordem referente ao uso de hidroxicloroquina no tratamento precoce contra a Covid-19 não partiu da pasta. Sobre o uso do medicamento, ele disse que prescrevê-lo seria contra o juramento de Hipócrates por conta da série de reações adversas que ele causa. Ele confirmou que recebeu, numa reunião no Planato, um decreto elaborado pela Presidência de República que mudava a bula da cloroquina inserindo recomendação do uso do medicamento contra Covid-19 -apesar de o remédio ser ineficaz contra a doença. Segundo o relator da CPI, Renan Calheiros,  "é relevante a informação de que Mandetta viu um decreto para mudar a bula e recomendar a cloroquina".

O ex-ministro, demitido em 16 de abril de 2020, narrou ter sido chamado às pressas para uma reunião no terceiro andar do Palácio do Planalto, onde fica o gabinete presidencial, na qual outros integrantes da equipe e médicos convidados discutiam mudar a bula por meio de decreto.

A recomendação do ministro contra a mudança da bula foi ignorada pelo Planalto, que, segundo ele, buscou alterar, junto à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a bula do medicamento para incluir recomendação contra a Covid-19. "Havia um papel não timbrado com informações sugerindo que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa e o próprio presidente Barra Torres que disse ‘isso não’. Alguém botou aquilo em formato de decreto", disse.

Carta ignorada

Ele revelou ainda que, no dia 28 de março, entregou uma carta a Jair Bolsonaro levantando pontos técnicos sobre o enfrentamento da pandemia e contrária ao "isolamento vertical". A leitura do documento, que foi entregue à CPI, foi impedida pelo relator, Renan Calheiros (MDB-AL).

O ex-ministro disse que a carta para o presidente continha modelos de previsão de mortes até o fim de 2020, com 30 mil em caso de "disciplina oriental" a 180 mil com medidas ineficazes (foram 195 mil). Ele disse ainda que Bolsonaro dizia ter outras fontes, mas não citou nomes.

Aconselhamento paralelo

Mandetta afirmou que Jair Bolsonaro tomou decisões sobre o enfrentamento da pandemia com base nas recomendações de seus filhos. Após ser questionado sobre uma entrevista onde revelou que o presidente recebia conselhos de pessoas externas ao Ministério da Saúde, Mandetta citou especificamente o o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos).

"Várias vezes na reunião do Ministério, o filho do presidente, que é vereador no Rio de Janeiro, estava sentado atrás, tomando as notas na reunião. Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da presidência", disse.

"Guerra de narrativa"

O ex-ministro procurou se defender das críticas de que a pasta apenas recomendou que infectados pela Covid-19 fossem ao hospital após apresentarem sintomas severos, apontando uma suposta de "guerra de narrativas".

"É uma guerra de narrativa. Orientações foram para dar entrada pelo sistema de saúde. Transmissão comunitária só foi verificada em 24/3. Em janeiro e fevereiro havia um caso no país, e pessoas em pânico", disse Mandetta.

Saída do cargo

Questionado sobre a sua saída do cargo, ele disse que "nunca pediria exoneração do cargo, mas Jair Bolsonaro achou melhor um outro ministro, com melhor afinidade em suas ações". "No entanto, eu não poderia negociar a minha formação", acrescentou.

Para a tarde desta terça-feira (4), está marcado o depoimento de outro ex-ministro da Saúde, Nelson Teich.

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