Pobres e negros têm mais risco de morrer de Covid-19 e devem ser priorizados na vacinação

Estudo aponta que pobres e negros estão em maior risco para a covid-19 por condições socioeconômicas e prioridade na vacinação salvaria mais vidas

(Foto: © Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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Rodrigo Gomes, da RBA - Estudo publicado no Jornal Britânico de Medicina (BMJ, na sigla em inglês), aponta que priorizar a vacinação de pobres e negros contra a covid-19 tem maior potencial para salvar vidas, devido ao maior risco dessas populações em apresentar quadros graves e mortes por infecção do novo coronavírus. 

“Grupos socialmente desfavorecidos são desproporcionalmente mais propensos a ser hospitalizados e morrer de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Os resultados de saúde diferenciais podem ser explicados por injustiças estruturais ligadas à incidência de comorbidades e às condições socioeconômicas. Tais fatores limitam a capacidade das populações de baixa renda e não brancas de se isolar e reduzem seu acesso a serviços de saúde de qualidade”, diz a publicação.

Os pesquisadores analisaram dados de contaminações, internações e mortes em decorrência de covid-19 no estado de São Paulo, entre março e agosto de 2020, comparando esses índices por regiões ricas e pobres, por condições socioeconômicas e etnia. Moradores de áreas de baixa renda tinham 8% mais chance de acabar hospitalizados ao serem contaminados pela covid-19. Quando observados especificamente pretos e pardos, esse índice era 41% maior. Os dados mostram, portanto, que o risco individual de hospitalização e morte varia de acordo com a raça, nível socioeconômico e tipo de hospital a que a pessoa recorreu.

De forma geral, dentre as pessoas hospitalizadas, os pacientes negros tinham 14% mais chance de morrer de covid-19 do que os pacientes brancos. Quando os dados diferem as condições socioeconômicos, a discrepância aumenta. Os pacientes que viviam em áreas mais pobres tinham 60% mais probabilidade de morrer de SRAG em comparação com os pacientes dos setores mais ricos. Aqueles tratados em hospitais públicos também tinham maior probabilidade de morrer do que os pacientes tratados em hospitais privados durante a epidemia: 40%.

Além da diferença na qualidade do atendimento prestado pela unidade de saúde, os pesquisadores também identificaram que os grupos populacionais em risco de morte por SRAG também eram mais propensos a ter comorbidades conhecidas por agravar o quadro da covid-19. Indivíduos com ensino fundamental ou inferior têm 36% mais chance de ter uma ou mais comorbidades do que aqueles com ensino superior. E negros também eram 29% mais propensos a ter uma ou mais comorbidades do que indivíduos brancos.

O estudo também apontou que as condições socioeconômicas foram determinantes na capacidade de isolamento social da população de São Paulo. Antes da determinação das primeiras medidas de isolamento social, em 13 de março de 2020, os níveis de mobilidade eram semelhantes em todos os grupos socioeconômicos. Mas, 14 dias depois, os níveis de isolamento eram 8,2% maiores em áreas cuja população é predominantemente branca, em comparação com áreas de maioria negra. Passados 27 dias, essa diferença já era de 11,2%. Com o afrouxamento da quarentena no passar dos meses, essa diferença caiu para 4,4%, mas ainda se mostrou favorável à população branca.

Home office para poucos

Essa menor adesão ao isolamento se explica pelas diferentes condições de trabalho conforme as condições socioeconômicas e a etnia. Mesmo com as medidas de isolamento, os trabalhadores em empregos de baixa qualificação ou serviços essenciais eram mais propensos a continuar trabalhando pessoalmente do que os trabalhadores em posições profissionais ou gerenciais, que puderam aderir com maior facilidade ao home office. Para os pesquisadores, essas condições deveriam embasar a prioridade de pobres e negros na vacinação contra a covid-19.

“Garantir que grupos desfavorecidos, especialmente aqueles que têm ocupações presenciais e vivem em áreas aglomeradas e carentes, recebam a vacinação, ajudará a prevenir e retardar a transmissão na comunidade. Embora a raça não seja um fator de risco em si, é fundamental considerar as desigualdades sistêmicas que levam as comunidades negras a serem super-representadas entre os grupos socioeconômicos baixos, a ter taxas mais altas de infecção grave por covid-19 e comorbidades que exacerbam seu risco de morte. Portanto, incluir populações desfavorecidas entre os grupos prioritários para vacinação poderia ajudar a reduzir as iniquidades em saúde, em vez de agravá-las”, defendem.

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