A beleza da derrota

Jogos olímpicos são um rascunho da necessidade de super heróis

Cada época tem o Kurt Cobain que merece. No final do século 19, o grunge da vez era Paul Lafargue. Nasceu em Santiago de Cuba. Casou-se com a segunda filha de Karl Marx, Laura.  Aos 69 anos de idade ele e Laura morreram juntos em um pacto de suicídio. Lafargue ficou famoso pela obra O Direito à Preguiça, publicada no jornal socialista L'Égalité. O italiano parlapatão Domenico di Masi dedica-lhe a sua tão vendida obra, também dedicada ao ócio.

Tecnicamente, Lafargue era um inimigo dos esportes. Via neles uma extensão do darwinismo, um carbono, um rascunho, do toma-lá-dá-cá das espertezas requeridas pelo mercado. Em Lafargue, o esporte vinha sempre mascarado de bem-estar: mas predicava, antes de  mais nada, a sagração da primavera dos eternos vencedores. Lafargue era o profeta dos derrotados, da preguiça. Louvava em Oscar Wilde axiomas como aquele que o irlandês chamava lindíssima “a beleza dos fracassos”.

Também pudera: o pai de Laura Marx era um apaixonado contumaz da obra de Darwin. Karl Marx tentou por duas vezes achegar-se a um então morigerado Darwin. Em 1872, Marx remeteu ao naturalista inglês um exemplar da segunda edição alemã de O Capital, em que lhe devota a dedicatória “To Charles Darwin. On the part of his sincere admirer”. Oito anos mais tarde, Karl Marx tenta novamente uma aproximação com Darwin. Escreve-lhe pedindo que reveja os capítulos XII e XIII da edição inglesa de O Capital. Os dois capítulos se basearam na Origem das Espécies. Darwin repudia, escrevendo cousas como “preferia que o tomo não me fosse dedicado...porque isso implicaria de certo modo a minha aprovação de sua obra, sobre qual nada sei...”.

Mas o espírito de época, desde Darwin, passou a ser o da louvação ao vencedor como uma lei natural do universo.  Não foi prá menos que Marx predicou o “social darwinismo”. Não espanta que a Inglaterra detenha o recorde de ter recebido três Olimpíadas.

Todos os postulados nazistas sobre a vitória e a força foram extraídos deste espírito de época nascido em Darwin.

E, acredite você, retirados da obra de um judeu húngaro, o jornalista Max Nordau. Uma espécie de Paulo Coelho da época, Nordau vendia que nem água sua obra Entartung, ou Degeneração. Acreditava que não praticar esportes geraria hordas e hordas de degenerados. Louvou a vitória, o vencedor, a força. Nordau foi o pai espiritual da Tour de France, as corridas de bicicletas na Europa, do futebol na Inglaterra, beisebol nos EUA. Euclydes da Cunha, cuja obra mais famosa abre com “o sertanejo é antes de tudo um forte”, era leitor de Nordau. E figuras como o superhomem e a besta loura, tipos vitais, vencedores, brotaram também de Nordau.

Cem anos depois, aqueles tipinhos “vagabundos”, os hippies, quiseram dizer não à vitória. E ao corpo. E ao sucesso. Foram derrotados: mas era justamente isso o que eles tanto almejavam. Acabou o culto à derrota.

O preceptor de Nietzsche, o suíço Jacob Burckhardt, tinha medo das locomotivas: pelo fato de representarem um culto à vitória da civilização. Jacob perdeu: mas era isso justamente que ele queria.

Muitos perderam a batalha do culto à derrota e suas belezas, tão conjeturado por Wilde. Mas perder sobre a defesa da derrota era algo que eles também almejavam: porque tudo o que queriam era perder o jogo. E serem esquecidos.

 

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