‘A neblina do passado’, um "romance mais que policial"

Para o ex-deputado João Paulo Cunha, obra do escritor e jornalista cubano Leonardo Padura "tem cara de policial (crime, investigação, tramas), mas é mais do que isso. É uma obra que trata de política, amor e desilusão"; segundo Cunha, Padura "nos mostra a vida dura e difícil que os cubanos vivem" e faz o leitor refletir sobre uma Cuba pré-revolução

Para o ex-deputado João Paulo Cunha, obra do escritor e jornalista cubano Leonardo Padura "tem cara de policial (crime, investigação, tramas), mas é mais do que isso. É uma obra que trata de política, amor e desilusão"; segundo Cunha, Padura "nos mostra a vida dura e difícil que os cubanos vivem" e faz o leitor refletir sobre uma Cuba pré-revolução
Para o ex-deputado João Paulo Cunha, obra do escritor e jornalista cubano Leonardo Padura "tem cara de policial (crime, investigação, tramas), mas é mais do que isso. É uma obra que trata de política, amor e desilusão"; segundo Cunha, Padura "nos mostra a vida dura e difícil que os cubanos vivem" e faz o leitor refletir sobre uma Cuba pré-revolução (Foto: Gisele Federicce)

247 – "Mais do que" um romance policial, "A neblina do passado", do cubano Leonardo Padura, "é uma obra que trata de política, amor e desilusão", escreve o ex-deputado João Paulo Cunha, em nova resenha publicada em seu blog. Através de Mario Conde, que deixa a carreira militar (investigador criminal), Padura faz o leitor refletir sobre uma Cuba pré-revolução. "Leonardo Padura nos mostra a vida dura e difícil que os cubanos vivem. Contudo, tem claro que não quer voltar".

Leia abaixo a íntegra da resenha:

Resenha: "A neblina do passado"

O passado tem neblina. Às vezes queremos descortiná-la para enxergar melhor à frente. Outras vezes ela fica lá e vamos assimilando e vivendo. Como nossas circunstâncias têm uma parte grande do desconhecido e do inesperado, de repente nos deparamos com um nevoeiro que exige de nós um mergulho. Leonardo Padura, em seu livro "A neblina do passado", da Editora Benvirá, designa o ex-policial Mario Conde para tentar romper brumas que o incomodam no tempo passado. O romance tem cara de policial (crime, investigação, tramas), mas é mais do que isso. É uma obra que trata de política, amor e desilusão.

Depois de deixar a carreira militar (investigador criminal), Mario Conde resolve se arranjar vendendo livros usados. Descobre um manancial de bons livros jogados em uma biblioteca desgrenhada que jazia num cômodo de um casarão, dos tempos áureos de Cuba. Mario Conde e seu parceiro Yoyi, o Pombo ("um peito levemente inflado"), começam a sonhar com a prosperidade e já gastam por conta disso. Entretanto, ao folhear um livro destinado à venda, depara com uma página de uma revista antiga que noticia que Violeta Del Rio, a Dama da noite, decidiu retirar-se da cena, abandonando sua carreira de cantora.

Mario Conde consegue um disco da artista. Ao ouvir Violeta Del Rio cantar e olhando bem sua foto descobre uma voz "que mais falava que cantava, uma súplica, voz grave, quente, que se esforçava por falar ao ouvido..." e uma imagem de mulher de "olhos escuros, seios eriçados...pernas vigorosas...quadris maciços, cabelos negros, levemente ondulados...boca carnuda, provocadora" que bafejavam no vidro da vida pretérita. Com os olhos turvados, o ex-policial resolve desembaçar aquele vidro e vai atrás das razões que motivaram aquela formosura de mulher, que no esplendor do sucesso e na fase mais aguda de sua beleza decidiu abandonar tudo.

Uma boa música na voz de uma grande cantora entra pelos poros, alcança a alma e às vezes nunca mais sai. Habitará ali para sempre. E Mario Conde foi abduzido assim para o túnel do tempo pretérito.

Leonardo Padura, através de Mario Conde, faz a gente refletir sobre uma Cuba pré-revolução, aparentemente mais animada, mas muito desigual e opressiva. Porém, quando a revolução alcança décadas e a miséria e as dificuldades se tornam visíveis e frequentes nos lares do país, algo de errado aconteceu. E aí, com a energia de um crente no socialismo e seus valores, mas crítico da situação de Cuba (principalmente na década de 90), Leonardo Padura nos mostra a vida dura e difícil que os cubanos vivem. Contudo, tem claro que não quer voltar.

Quando Mario Conde sai a procurar aquela voz forte e aquela mulher fascinante que contagiou muita gente entoando belas canções não estará ele querendo reencontrar a revolução? As mulheres lindas, animadas, felizes e formosas da década de 50 não existem mais. Ou podem estar velhas, abandonadas e tristes. Guardará alguma correspondência com a revolução?

Junto com a música, quase como uma parábola, Padura nos mostra o abandono das bibliotecas e dos livros. Evidente que o socialismo não é o paraíso, mas de forma meio torta vale a expressão de Jorge Luís Borges ao afirmar que "sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca". Como admitir que a revolução não conseguiu sequer guardar os livros e suas bibliotecas? Talvez por isso Padura coloque um sonho nos ombros da mulher de Mario Conde: ser escritora.

O intrépido Mario Conde, depois de carregar seus leitores ao submundo de Havana, e fazê-los sofrer com as porradas levadas, mas também alegrá-los com os encontros entre os amigos regados a rum, charutos, músicas e boas comidas (reforçando o valor da amizade mesmo que na penúria) nos deixa cada vez mais pertos da Cuba real através de suas conversas que vão ocorrendo e vão desvendando os mistérios que ceifaram a vida de Violeta Del Rio em pleno auge. Dos personagens que vão desfilando e que Padura lhes põem vida, uma em particular e escondida comove e dá ao livro um sentido humano e amoroso pelas cartas que ela escreve.

Esse livro é do tipo que você começa a ler e não quer parar. E quando chega ao final dá uma certa tristeza. Violeta Del Rio foi assassinada, mas sua música e sua voz continuam embalando muita gente. A revolução, ferida pela realidade, agoniza.

Quando Violeta del Rio suplica "serei em tua vida o melhor/da neblina do passado/quando por fim me esqueceres...Afasta-te de mim" ela pede paz, para viver a eternidade na memória de alguém. E Cuba, quando ainda pelos últimos gemidos de Violeta Del Rio escuta "...Que na planície de minha pátria ardente/nascem do sol em seu sorriso, e crescem..." imagina um futuro melhor.

João Paulo Cunha – Março/2014

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