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Cultura

A traição do cabeleireiro

No chão, fragmentos de mim: meus cabelos. No espelho, um novo corte, uma nova auto-imagem

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Olhar para o espelho todo dia e encontrar a mesma cara é algo que me irrita. E pior: quase que diariamente. Sei lá por qual motivo eu tenho que suportar o fardo de ser eu mesmo pelo resto da minha vida. Mas é assim, só pode ser assim e assim sempre será. Para facilitar que nós suportemos o tal reflexo, criamos um quinquizilhão de maneiras de travestirmo-nos e, assim, buscamos contínuas reinvenções. Pois então: criamos as artes cênicas e suas máscaras, as religiões e seus deuses – estranhamente à nossa semelhança – e separamos o tempo em anos, a fim de que o súbito passar de páginas de um calendário glorifique a possibilidade de sermos algo que não éramos antes. O curioso é que funciona, funciona mesmo. No meu caso, um dos jeitos d'eu ser sempre o novo foi o corte de cabelo.

Lembro-me bem a primeira vez em que estranhei minha imagem, mesmo com o quanto dela já tinha olhado. Era ainda muito moleque e morava em Maricá, interior do Rio de Janeiro, quando fui sozinho num rio próximo à casa que era cuidada por Seu Sebastião, muito negro, muito gente, caiçara daquelas terras. Obviamente, minha pequena expedição aconteceu à revelia das orientações de meus pais, mas criança não liga pra negativas e lá estava eu. Pulei na água de roupa e tudo, e saí tão logo meus pés entenderam que o solo era feito de lodo. Como já era hora de voltar ao vilarejo, haja visto que não houve hora para sair de lá, um dos pés do chinelo foi puxado por algo. Não era um terrível e esperado monstro, uma insossa pedra ou o desencantador lodo, mas sim o próprio rio. Tive de abaixar e lutar contra sei lá o quê que me impedia de pegar a sandália, até que mirei a mim mesmo no reflexo daquela água um tanto turva. Meu cabelo meio despenteado e pra trás, bem diferente da típica cuia que assola literalmente a cabeça dos moleques, chamou-me a atenção. Quis ser aquele... mas Seu Sebastião apareceu de rompante aos berros oferecendo umas goiabas com bicho dentro. O susto me deu impulso e dei a correr tanto na areia grossa que se misturava ao barro local, que sequer percebi a falta do chinelo.

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Corri, corri, corri e agora cá estou – de sapatos. Fui cortar o cabelo, situação que já me traz um sentimento ambíguo. Gosto, gosto mesmo de cortar o cabelo. Saio outra pessoa: haribô, rockstar, Johnny Depp, aquele jogador, um qualquer. Entretanto, ao mesmo passo, observo um clima de desconforto, pois parece que a competitividade tem ali um de seus templos. E dessa vez foi pior, bem pior.

Morei em várias cidades, em tantas casas que nem lembro mais. Apesar do visual ora cinzento e sem graça, ora rural e nada bucólico, não tenho a mínima vergonha de dizer que, dentre as mudanças, o lugar que mais perdurei foi São Gonçalo, onde os nativos são chamados – veja só – de papa-goiabas. Mesmo hoje morador de Niterói, ainda é lá que vou cortar o cabelo. Tornou-se uma certa tradição contar as semanas na espera de completar o mês e ir ao determinado salão. O problema – que você pode chamar de viadice – é que recebi a informação de que o rapaz que corta meu cabelo já não estava mais lá, pois havia sido transferido para uma filial na mesma cidade. Minucioso e desconfiado – ou seja, chato pra caralho -, fui ao local dando um tiro no escuro, porque a menina da recepção era nova e parecia não saber muito bem de quem tratava-se, poderia ter dado informação errada. No novo salão, olhei de relance e constatei o esperado - não encontrei o cara:

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 Recepcionista filha da puta, não sabia, não dizia nada. Eu cortava lá mesmo e pronto, porra.

 Oi, senhor? Algum problema com nosso atendimento?

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 É... não, não, tava falando sozinho aqui. Mas diz uma coisa... tem alguém disponível aí pra cortar meu cabelo?

 Tem sim, senhor. Vou chamar no microfone.

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Inconsolável pelo azar e fatigado de caminhar tanto apenas para cortar o cabelo, aceitei. Afinal, era só um corte de cabelo. Tão por isso, aceitei e fui cortar ali mesmo, com uma gordinha. Chamou-me para lavar o cabelo. Titubeei, mas fui. Escolhi a água morna, como a do rio, e senti suas mãos leves quase me ninarem. Bem falante, contou-me de desventuras amorosas e até mostrou suas tatuagens. Eu também tenho em meu corpo alguns destes rabiscos eternos e expus de relance um deles. Tínhamos várias coisas em comum, diferentemente do Irineu, com quem eu cortava já há seis anos. Com ele, praticamente não havia papo, só meia dúzia de palavras protocolares e agradecimentos póstumos do cabelo deitado ao chão.

Eu e a gordinha vivíamos um momento de felicidade, até sermos interrompidos por um reflexo no espelho. Era Irineu que chegara ao salão. Olhou-me com ares de decepção – suspeito até de uma lágrima resistente no canto do olho direito. Pensei: “Eu posso explicar, não é isso que você está pensando, eu achei que...”. Não adiantaria, em seu olhos moravam um martelo que sentenciaram o fim. Ele devia estar pensando o que fez para merecer essa apunhalada pelas costas. Era hora de mudar mais uma vez.

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Enquanto isso, uma senhora de cabelo moicano e pintado, tão diferente daquelas que eu via à época de garoto, quando resolvi largar a asa-delta, trocava de canais em uma das infinitas televisões de plasma que tomam lugar das de tubo. Eu, que já não via aquela programação há tempos, assisti pela primeira vez um Domingo Legal sem Gugu. Ao mesmo tempo feliz e decepcionado, revi o camisa 10 do Flamengo ser o Ronaldinho (que não era mais aquele Ronaldinho), que não é de um time, que não é mais da seleção e tampouco é flamenguista.

No chão, fragmentos de mim: meus cabelos. No espelho, um novo corte, uma nova auto-imagem. Os catedráticos confirmariam, ecoando Heráclito, que o mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio, pois homem e rio estão em eterno devir – portanto, que já sou outro. Mas ainda sou o mesmo garoto que se viu no rio e desejou ser outro. Tal como o cabelo, nossa transição é marcada por cortes, numa eterna mudança, mas dentro daquilo que podemos ser. Não por outro motivo, não sou uma subtração do antes, mas uma adição do agora – um cabelo que se vai, mas que cresce. Por isso, sou Seu Sebastião, Gugu, Ronaldinho e sua resposta ao ler. Eu pus os meus pés naquele riacho e acho que nunca os tirei.

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