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Cultura

Adolescência tardia

Os jovens de hoje em dia consideram muito melhor viver o período da faculdade enchendo a cara e entupindo os pulmões com maconha do que lutando pelo seu próprio futuro

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Já dizia minha avó: “oh Flipi” – a velhinha é portuguesa. “Na minha época os casamentos se davam antes mesmo dos quinze e o trabalho, bem, eu comecei aos nove”. Eita nós, vó.

O tempo passou. De lá pra cá, aumentou-se consideravelmente a expectativa de vida da população e, numa inversão proporcional, o desinteresse pelo início na vida produtiva. Afinal, ora bolas (achei melhor que “macacos me mordam”), se eu vou viver até os setenta, pra que ficar ralando aos vinte? Ainda há muito tempo pela frente, vou é viver tudo que eu tenho pra viver e deixar pra realmente ralar quando for a hora.

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E assim disse Humberto Maizum. (ah, os trocadilhos... Pior que eles, só os parênteses metidos a engraçados)

Fica difícil traçar um grau comparativo levando-se em conta que sou, o próprio, um jovem adulto, mas pegando emprestado o jargão do barbudo: nunca na história desse país se viu uma classe de jovens adultos tão patética, relaxada, acomodada e esperando que a vida siga em frente para, quem sabe, surgir uma oportunidade que os faça crescer. O final da história, obviamente, é previsível.

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Por jovem adulto, traço como a idade compreendida entre os 18 e 25 anos, mas que cada vez mais cresce. Já é normal ver senhores barbados de 28 morando com os pais. Minha reação a isso pode ser expressada numa brilhante inclusão no roteiro do seriado Friends, num episódio lá pelas bandas de 1998, quando a Monica pergunta a um rapaz da exata idade referida acima se ainda morava com os pais, no que escuta: “sim, mas posso voltar a hora que quiser” – sua resposta é uma cara de nojo. Cara de nojo essa que é cada vez mais substituída pela compreensão.

Os jovens de 20 anos de hoje em dia consideram muito melhor viver o período da faculdade enchendo a cara em botecos a luz dos dias de semana e entupindo os pulmões e cérebro com maconha do que efetivamente lutando pelo seu próprio futuro. Enxergam a diversão e o prazer como prioridade absoluta, característica comum da infância e adolescência, retardando cada vez mais suas possibilidades de sucesso. Tornando-se pertencentes a classe dos “mais uns”, sem destaque, sem brilho, terminando quase sempre como escravos do sistema pertencentes a corrida dos ratos, ralando pra sobreviver. Até que, lá pelos trinta e poucos, percebem que são apenas uma sombra do que poderiam ter sido, se tivessem percebido que o amadurecimento deve se dar na fase em que o gás ainda existe no grau máximo.

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Vinte e poucos anos, a idade da energia, a idade em que cada objetivo traçado pode ser atingido, a idade em que podemos errar, bater com a cara na parede e começar novamente, a idade perfeita para se amadurecer e enxergar a vida diferentemente dos amiguinhos idiotas e atrasados intelectualmente, mas que é jogada no lixo por interesses estúpidos, pela infantilidade retardada. Enfim, o comum. Festas, bares, rodinhas de maconha, álcool quase todo dia e o pensamento padrão de: “eu to na fase disso”. Ora, ser tão esperto que poderia ser chamado de quadrúpede tamanhas as vezes em que fica de quatro vomitando na privada, você está “na fase disso” porque quer estar, não porque deveria, olhe para seus conhecidos da mesma faixa de idade que já possuem salários fixos, vida bem encaminhada e dedicação total para entender onde você está errando e o quão ficará pra trás e perceberá que a desculpa de “eu to na fase disso” logo será substituída pelo pensamento de “como eu fui imbecil”.

Não devemos abrir mão da diversão, mas diversão inconsequente e irresponsável é, acima de tudo, apenas um sinal de fraqueza e insignificância. Vai lutar pela sua vida e vê se larga essas bobagens, mulinha.

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“Nossa Felipe, como você é velho” – com muito orgulho, criança. Com muito orgulho.

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