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Cultura

Amor à venda

Ame. De qualquer jeito, ame. Ame pela internet, na troca de olhares da festa, no toque das pernas no ônibus, no enviar de bilhetes em guardanapos no bar

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Dizia o grão-mestre socialista: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Seus antagonistas contradizem, e hoje até o mais inefável e abstrato dos sentimentos fora materializado. 12 de Junho, Dia dos Namorados. Acreditem, tudo é passível de ser produto para presentear a pessoa amada – adornos, cheiros, paladares, viagens, apetrechos sexuais, símbolos, necessidades e até frases prontas. Ao mesmo Capital que foi capaz de transformar Che em artigo juvenil, falta uma faceta: colocar o próprio amor à venda.

Imaginem o quão simples seria: iríamos ao Google e pesquisaríamos as melhores lojas para encontrar um amor. Compararíamos preços, pegaríamos filipetas promocionais, correríamos atrás de liquidações, barganharíamos descontos pra lá de Bagdá, checaríamos pacotes que incluem 500 reais de bônus. Faríamos um cartão com crediário a perder de vista – e, assim, seríamos ainda mais classe média: com a soberba exibida em notas promissórias. Alguns de nós até, por desespero ou libertarianismo, se disporiam a fazer uma compra coletiva. Quiçá uma procura no Mercado Livre por algum produto usado, mas em bom estado. Depois disso tudo, caso os valores ainda não namorassem os bolsos do consumidor, não haveria duradoura hesitação em correr atrás da pirataria. Agora... um cuidado necessário: os produtos poderiam vir com defeito de fabricação. Mas, em caso de reclamação, seria só fazer o favor de procurar o atendimento ao cliente: qualquer programa à tarde sob o comando de Márcia Goldschmidt ou congênere.

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O problema, meus queridos, é que existem infinitas formas de amor e, tão por isso, olhar de relance para a vitrine seria insuficiente e a dúvida tornaria-se inesgotável. Haveria a necessidade de experimentar no provador para dar o veredito sobre qual amor melhor caberia em nossas métricas – e rimas, pobres ou ricas.

Existe o amor em cooperativa, onde os investimentos e lucros são divididos, como em Jules e Jim de Truffaut. O amor desbravador, rebelde e sem sobrenome de Romeu e Julieta. Amor sem esquecimento até para uma mente sem lembranças. Amor edipiano e psicótico de Norman Bates para com a póstuma face da mamãezinha. Amor com o choro do violino. Amor com conversas de botas batidas, quando nem a vida é capaz de separar corações, sepulcrando o irrelutável “Amém”.

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Nos bastidores da publicidade, as maiores agências do mundo se digladiariam para disputar nossos corações. Pelos comerciais no horário nobre e outdoors na avenida principal, um slogan soberano sussurraria em entrelinhas o seguinte imperativo: AME!

Ame. De qualquer jeito, ame. Ame pela internet, na troca de olhares da festa, no toque das pernas no ônibus, no enviar de bilhetes em guardanapos no bar. Ame fazendo conchinha, recitando Neruda ao pé do ouvido ou numa serenata no embalar de “Dueto”, do Chico. Ame com algodão doce na praça, com mão inquieta na cintura, ame embrenhado numa rede balançando à brisa do mar ou com receio de apresentar à família aquele que aparece toda noite no portão. Ame mesmo com o risco diário do fim, mas não desista da chance de amar pelo fato do amor poder acabar, uma vez que saber que a morte chegará não é desculpa para não viver. Faça amor com jeito de virada até o sol reaparecer.

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E eu digo mais a você – é você mesmo: subverta a onipresença da propriedade e ame uma puta. Esvazie a caderneta de poupança e tire ela dessa dura vida fácil. Crie laço até com aquilo que deveria ser um mero objeto de curvas e mamilo.

Façamos do amor uma economia de subsistência: apenas para que possamos amar mais e mais e manter-nos de pé. Que seja a Dádiva dos melanésios: uma relação onde o que se ganha só tem valor na troca por uma coisa igual – ou seja, uma troca anti-utilitarista. Contra os fatos interesseiros e pessimistas, façamos poesia!

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Não permitamos que nosso quê de Bentinho, o infante Dom Casmurro, seja vitorioso. Ao observar com suspeita o suposto olhar oblíquo e dissimulado de nossas respectivas Capitu, façamos a maior de todas as trocas: vejamos o mundo sob suas perspectivas. Não sejamos do outro, mas com o outro.

Aos que não querem um namoro: amem a família, os amigos, uma atividade, uma causa. Enamorem-se por algo.

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Aos mega-empresários, um conselho: o macete são os cadarços. Para não tropeçarmos em nós mesmos, desajeitados que somos, é preciso criar nós. Afinal, não é possível ser feliz sozinho.

Ao meu amor, ofereço minhas palavras a fim de enfatizar que todas as coisas que te darei hoje, amanhã ou daqui a 73 longos anos - quando estivermos deitados e prestes a ter nossa conversa de botas batidas – jamais serão capazes de traduzir materialmente a edificante e precisa frase que é meu maior presente diário: Eu te amo.

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