Amor, rejeição, paixão e sacrifício em Casablanca

Escritor faz uma homenagem aos 30 anos da morte de  Ingrid Bergman no filme Casablanca

Amor, rejeição, paixão e sacrifício em Casablanca
Amor, rejeição, paixão e sacrifício em Casablanca (Foto: Divulgação)
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Luiz Roberto da Costa Júnior* - O caso de paixão e sacrifício envolve Rick Blaine e Ilsa Lund, após ele rejeitar Yvonne no início do filme e pagar o tributo ao amor (casal búlgaro ajudado na roleta com o número 22, duas vezes seguidas para fornecer dinheiro suficiente para os dois vistos de saída).

Há abordagens diferentes já realizadas anteriormente e que merecem registro como, por exemplo: William Donelley em seu livro Love and Death in Casablanca enfoca o relacionamento de Rick Blaine com o pianista Sam e posteriormente com o capitão Renault para mostrar a repressão à homossexualidade. Sam recusa proposta de ganhar o dobro para trabalhar para o Signor Ferrari do Blue Parrot (Papagaio Azul) enquanto Renault declara seu ciúme por Ilsa Lund ao dizer-lhe que se fosse mulher, ele se apaixonaria por Rick Blaine . Enquanto isso, Harvey Greenberg apresenta uma leitura Freudiana em seu livro The Movies on Your Mind, no qual considera que as transgressões que impedem Rick Blaine de retornar aos EUA constituem o complexo de Édipo e que ele identifica a figura do pai em Victor Laszlo. Sidney Rosenzweig considera, em seu livro Casablanca and Other Major Films of Michael Curtiz, que ambas as análises são reducionistas, pois o aspecto mais importante é a ambigüidade da personalidade de Rick Blaine.

O dono do Rick's Café Américain rejeita Yvonne no início do filme, num claro indício de reconhecimento de que ele não quer iniciar uma nova relação. Ao ser questionado onde esteve na noite anterior, ele responde que não se lembra. Perguntado o que faria naquela noite, ele responde que não faz planos com antecedência. Yvonne pede mais bebida para esquecer a desilusão amorosa, mas Rick Blaine pede que o barman Sascha acompanhe Yvonne até em casa.

Yvonne retorna na noite seguinte acompanhada de um oficial alemão numa clara atitude provocativa em relação a Rick Blaine. Um oficial francês decide tomar satisfação provocando uma discussão com o oficial alemão e forçando Rick Blaine a interromper o conflito entre os dois oficiais.
A relação mais marcante do filme sem dúvida é entre Rick Blaine (Humphrey Bogart) e Ilsa Lund (Ingrid Bergman). A expressão do rosto da atriz Ingrid Bergman durante a música As Time Goes By é tão marcante e cheia de significados que quando a atriz ia jantar em restaurantes e havia um pianista, invariavelmente o maitre avisava para que a música As Time Goes By fosse tocada para ela, tal o impacto que o filme permaneceu ao longo dos anos . Algo interessante é que no filme nunca foi dito: Play it again, Sam. A confusão surgiu porque na verdade este é o título do filme estrelado por Woody Allen, em 1972, em que ele homenageou Casablanca.

O semblante de Ilsa Lund revela a emoção interior da relação vivida por ela enquanto a cena do flashback do ponto de vista de Rick Blaine revela a emoção visível da relação . Ao guardar segredo do ocorrido e não contar nada para o marido, Ilsa Lund age não só para preservar o casamento como também para não demonstrar a importância e impacto que isso teve em sua vida (sozinha em Paris e pensando que ficara viúva). Sair da rotina diária de uma relação com um líder da resistência sempre em risco de ser preso e morto para viver uma grande paixão em Paris reverberou com grande intensidade na audiência feminina em relação ao filme.

Victor Laszlo não consegue obter as cartas de trânsito e, ao perguntar o motivo da insistência de Rick Blaine em não vender mesmo que por um milhão de francos, é confrontado com a realidade da frase: I said, ask your wife. Diante de uma situação extrema e sem outra opção, só restava a Victor Laszlo mostrar publicamente os motivos e razões porque ele a amava tanto quanto à causa que defendia. O duelo dos hinos é não só a resolução de um conflito externo de lutar por uma causa como a resolução de um conflito interno de lutar pelo amor da esposa.

Ilsa Lund tenta obter as cartas de trânsito numa conversa com Rick Blaine em que ela está disposta a matar ou amar a fim de obtê-las. A determinação de ambos impressiona Rick Blaine que termina por sacrificar a paixão que sentia por ela a fim de preservar o amor do casal.
A imagem de Ilsa Lund refletida no espelho – quando o garçom Carl é instruído a levá-la de volta ao hotel enquanto Rick Blaine desce para conversar com Victor Laszlo – mostra uma mulher dividida.

A porta que se abre revela a dualidade de sentimentos no interior da personagem. Ao longo do filme a personagem Ilsa Lund utiliza quase uma dezena de figurinos que é acompanhada ora por um lenço na cabeça, ora por um chapéu diferente, ora por um broche, ora por uma pequena bolsa ou por um par de luvas nas mãos. Entretanto, apesar do filme ser em preto&branco, o vestido azul mencionado no primeiro diálogo quando Rick Blaine e Ilsa Lund reencontram-se em Casablanca, possui uma conotação importante (um homem lembrar com que roupa uma mulher estava em Paris). Ilsa Lund afirma neste diálogo que só voltaria a usá-lo quando os alemães marchassem de lá. Ao estar com o vestido azul na cena final, ela se mostra pronta no plano interior para partir com Rick Blaine enquanto no plano exterior confiante na causa da resistência. O azul, cor do céu e do mar, traz paz de espírito, segurança, tranqüilidade e harmonia. Algo que Rick Blaine e Victor Laszlo precisavam contemplar para seguir em frente, na luta que agora tratavam em comum, na certeza de que desta vez seriam vencedores.

Luiz Roberto Da Costa Jr. é autor do livro Casablanca: Política, História e Semiótica no Cinema e autor de um blog sobre o tema

 

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