As oito Amys

A cantora inglesa assumiu ao osso a imagem que a mídia fez dela. E essa imagem a venceu

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Por um desses acasos com os quais o destino eventualmente se compraz, Amy Winehouse morreu aos 27 anos de idade e empolgou a fantasia da mídia naquele instrutivo fenômeno de tentar ligar lé com cré. Impossível imaginar reações diferentes: a mídia é inflexivelmente determinista.

Já se papagueiam, aqui e ali, vívidas projeções, cativantemente mentirosas: porque carameladas, de última hora, das teorias que cada um encontrou para fugir de seu desamparo cultural. É necessário, portanto, tecer uma taxonomia, um dicionário de probabilidades, nos quais você possa tecer a sua tese personalíssima sobre a morte da pop star.

Lembre-se que você pode sancionar moralmente o seu artigo embrulhando a sua teoria com bandagens intrinsecamente inúteis, mas que podem te conferir um ar de respeitabilidade. Seguem-se oito teorias em que você pode enquadrar a vida e a morte de Amy Winehouse, nascida a 14 de setembro – dia mundial do frevo, dia mundial do jiu-jitsu, e feriado na cidade de Tabuleiro, Minas Gerais, porque é o dia do padroeiro Bom Jesus da Cana Verde.

Clube dos 27

Vá até o Google e digite “famous pop stars who died at 27”. A resposta vai ser uma Wikipedia chamada “O Clube dos 27”. De posse dela, você pode dar de barato que dispõe de uma cultura pop invejável e pode fugir do chavão que é dizer, aliás como todo mundo tem dito, que Amy morreu com a mesma idade de Jimi Hendrix, Brian Jones, etc.

http://en.wikipedia.org/wiki/27_Club

Teoria do decandentismo

Uma maneira bem esperta de justificar teoricamente a morte de Amy depositando-lhe uma couronne de perles bastante válida é conectá-la a uma das mais altas eminências que a cultura inglesa produziu, e que até hoje nos intriga vagamente: o decandentismo. Você pode dizer o seguinte: Amy Winehouse é caudatária de um artigo publicado por Arthur Symons, no Harper’s, intitulado “O movimento decadentista”, a que, aliás, Oscar Wilde, aderiu à ferro e à fogo. Wilde, afinal, em 1880, havia fundado um clube a que chamou “Os hedonistas cansados”, que usavam rosas murchas em suas botoeiras, preferiam os cravos tingidos de verde aos naturais, zombavam da moral e dos costumes e cultuavam aquilo que Wilde chamava de “o mandrião” (uma criatura que passa a noite cometendo excessos, só aparece nas ruas depois das cinco da tarde e que costuma se definir como “lagarto preguiçoso”). Você terá aí elementos suficientes para construir uma tese bem papo-cabeça aliando Amy Winehouse às “Flores do Mal”, de Baudelaire, à obre de Paul Verlaine, ao romance “À rebours”, de Huysmans, e à “Stephen Hero”, de James Joyce, para quem o esteticismo começa bem mas termina nas piores abominações. Cai bem a teoria aliando a vida de Amy ao decadentismo e suas artimanhas e credulidades tão vibrantes de entusiasmo com o qual tanto se comprazem os hedonistas. Diga que ela viveu e morreu por e pelo estilo.

Uma Amy só sua

Tentando fugir do academicismo, você pode bolar um selinho só seu para colá-lo à descrição da figura de Amy. Uma dica é: leia o “Livro dos seres imaginários”, lançado em 1957 pelo bruxo da calle Maipú, Jorge Luis Borges sob o nome de “Manual de zoologia fantástica”. Dê uma olhadinha nos 120 seres míticos criados por Borges e dali depreenda uma Amy Frankenstein – construída ao teu bel-prazer. Vale lembrar que demorou anos para que as pessoas entendessem que a obra do Borges era um desbunde, uma tiração de sarro da capacidade humana de criar catalogações. Mas a obra pode te servir de guia para uma Amy Winehouse corta-e-cola. Esculpa livremente uma Amy para chamar de sua: o leitor aplaudirá.

A teoria octagenária

No “Jornal Nacional”, desse sábado, o octagenário nato Nelson Motta desfiou um rosário a envolver uma espécie de afronta à inteligência. Motta estabeleceu uma credulidade estranhamente distorcida na idéia de que Amy Winehouse, premeditadamente, teria querido entrar para “o clube dos imortais” (sic) ao ter, pusilânime, tartufista (e talvez cheia de risadinhas abafadas), se matado justamente aos 27 anos. Essa teoria retira Amy, automaticamente, da teoria anterior, a do decadentismo, e dá a ela uma incivilizada militância em algo a que podemos chamar de “niilismo de resultados”. Escreve algo como “ela se matou para poder viver”.

Retorno de Saturno

Os astrólogos de plantão já começaram a vomitar aqui e ali, lenta e progressivamente, aquele ramerrão que desliza para o voduismo e trivialidades afins – como, por exemplo, o retorno de Saturno. A teoria vindica que Saturno leva 29,4 anos para tecer a sua órbita ao redor do Sol. E que, portanto, tal potência astral influenciaria a vida de cada um de nós mortais entre os 27 e 29 anos de idade, entre os 57 e 58 e entre os 86 e os 88 – a nos envolver na crença ilógica de que estamos passando por um renascimento, tutelado pelas inextricáveis gradações do cosmo, e demais comoventes belezas do Incognoscível. Você pode também tentar estabelecer elos a partir daquela que é tida e havida como a maior astróloga do mundo, Susan Miller. Veja o que ela escreveu para uma virginiana como Amy no seguinte endereço:

http://www.astrologyzone.com/forecasts/monthly/virgo_full.php

Freudismo básico

Outra teoria bem interessantinha é tentar conectar a morte de Amy às vulgatas freudianas. Comece lendo “O mundo como vontade e representação”, de Schopenhauer. Depreenda dali, o que aliás é comumente mitigado por aí, que o Freud como o conhecemos nasceu dessa obra. A saber: Schopenhauer referia que somos comandados por uma vontade, segundo ele um querer cego e racional. Só conseguiríamos nos desviar dessa vontade por meio da contemplação artística, sobretudo a partir da música – de resto, a mais pura das artes a nos fazer desviar do eterno sofrer que é a vida. Nosso nirvana está na música e ponto final. Abrevie essa escalada, e, de chofre (numa atitude grave), postule que a vontade de Schopenhauer virou a pulsão de Freud. Coloque que temos duas pulsões litigantes, e Eros e Tanatos. Teça considerações de que há de se travar uma luta armagedônica contra as pulsões de morte. Cozinhe Schopenhauer e Freud ao ponto, coloque pitadas de Lacan e oferte um delicioso cozido vindicando que Tanatos venceu a pobre Amy, que ela tentou obter o seu nirvana na arte e nas drogas, etc – mas acabou encontrando mesmo a sua paz na supressão do viver.

A teoria midiática

Para confeccionar a teoria midiática é necessário atribuir-se à pobre Amy uma altamente desfavorável fixidez em sua imagem pública. Você pode citar vastamente a teoria da produção de consenso, que Noam Chomsky atribui à mídia; pode enveredar pela teoria da ação comunicativa, de Habermas – ou ainda fazer uma releitura de “História e consciência de classe”, publicado em 1923 pelo húngaro Gyorgy Lukacs Ah, já ia me esquecendo: poderá também citar pedacinhos de “The brass check”, de Upton Sinclair, tida e havida como a mais demolidora crítica de mídia de todos os tempos. O cozido desses ingredientes deve ser feito assim: escreva que a pobre Amy começou a copiar a imagem que a imprensa fez dela. Depois, sustente que o fato dela morrer aos 27 era mais do que esperado, graças à consciência, sabidamente auto-destrutiva, que é a de uma roqueira braquicéfala, bretã, e que se nutre dos adjetivos que a imprensa lhe atribui. Deixe claro que Amy foi uma vítima do sistema e que a máquina midiática lhe sugou a alma pela carótida.

O Duplo

Essa tradição de ver duplos é antiga: o duplo foi lançado em 1796 por Jean-Paul Richter, sob a designação alemã de doppelganger, que pode ser traduzido como "aquele que tenho de lado" ou ainda "companheiro de estrada". Virou moda, em literatura: mas já estava no Plauto de Os menecmas (206 A.C.), no Shakespeare de Comédia de erros (1592), e veio para o Retrato de Dorian Gray, de Wilde (1891), e para o conto O outro, de Jorge Luís Borges (1975). A saber: vindique, conectado à teoria midiática, que a pobre Amy passou a viver seu “duplo”, ou melhor: que ela assumiu ao osso a imagem que a mídia fez dela, e que essa imagem a venceu.

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