Bacurau é uma lição de resistência para os tempos atuais

Cuidado, pois, senhores mandatários! Vocês podem ter suas cabeças cortadas – mais uma de tantas referências icônicas do filme – em curiosa inversão histórica: não serão as forças da ordem a fazê-lo, mas o seu contrário, as da “desordem”, aponta Frederico de Holanda em sua crítica sobre o grande filme de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

Por Frederico de Holanda – Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho começaram a escrever Bacurau há mais de dez anos. Mas decerto a escritura acompanhou o desenrolar dos acontecimentos recentes no Brasil – ou o filme é ainda mais visionário do que parece.

A violência gráfica lembra Tarantino, mas a julgar pelo péssimo Era uma vez em... Hollywood (e olha que adoro outros filmes dele, inclusive o anterior, Os oito odiados), Juliano e Kleber dão uma surra no eventual inspirador de muitas de suas cenas. Como em Tarantino, a violência gráfica finda risível, de tão sarcástica.

Nas críticas – li poucas – não vi referência a Westworld, o parentesco que mais me chamou a atenção. Na série norte-americana, a catarse para uma vida sem sentido (a dos turistas de férias no mundo ficcional) é a chacina de androides. Em Bacurau, igualmente há uma catarse de gringos, mas com uma diferença crucial: eles estão aqui para “fazer pontos” matando humanos. São pequenas dicas que homeopaticamente o filme distribui sobre as ideias que o presidem. Há poucas informações sobre os estrangeiros – quem são, como chegaram, o que pretendem – que se comunicam por satélite mediante pequenos fones de embutir na orelha com o que seria a “administração” da empreitada – ajudados por um drone high-tech, estranho e engraçado à vez. Mas há pílulas preciosas que contribuem para a construção da metáfora perversa: o diálogo com os motoqueiros, alvos como a neve, sobre serem ou não “brancos”: não o seriam, porque são antes “latinos”... Os motoqueiros são intermediários entre os “turistas” e os “locais” – assim como o prefeito. Sondam o terreno, a verificar se ele está livre para a matança.

Mas ai deles! Em outra alusão à classe dominante vira-lata brasileira, apenas intermediária e porta-voz da destruição em marcha do país, os ingênuos bailiffs da barbárie são descartados assim que cumprem seu desprezível papel – noutra cena gráfica memorável.

Em Bacurau o choque se dá entre o primeiro mundo que fala inglês (com atores estrangeiros e legendas, para manter a integridade dos personagens) e a vila perdida no meio do nada, que, jocosa e misteriosamente, de repente “some do mapa”, como o Brasil está a sumir do planeta como nação soberana. Fazer pontos para os turistas é matar nativos que nem mais existiam cartograficamente. A destruição de Bacurau é correlata à de um país por gente completamente desprovida de humanidade – ou quase, uma vez que perversidade é desde sempre um de nossos traços distintivos.

O filme de Juliano e Kleber tem muitas camadas. A erosão do respeito à alteridade é talvez a mais importante delas, e a que mais traz o filme para a contemporaneidade brasileira. Contudo, mesmo aqui, isso não é desprovido de nuanças: se os nativos não são “gente”, pois podem ser mortos como baratas, há ainda pruridos quanto a crianças – seriam tão não-gente quanto? Da mesma forma, há a complexidade da personagem de Sônia Braga, Domingas (como nada é gratuito no filme, seu nome importa), médica a ajudar a comunidade, mas também alcoólatra, que, quando surta, desanca deus e o mundo – difícil mesmo enfrentar a vida em Bacurau.

E a metáfora do país de hoje segue, forte, na cena da caçamba do caminhão (de lixo?) despejando no chão empoeirado da rua a “biblioteca” nova da escola. Nada mais claro quanto ao (des)respeito aqui e agora dedicado à cultura e à ciência.

Como Tarantino, Juliano e Kleber se divertem em cenas hilárias, como a do casal de velhinhos, pelados, nada charmosos (outra metáfora de uma cultura em extinção?), em casa perdida no meio do mato, líricos e gentis, a cuidarem carinhosa e delicadamente de plantinhas, naquele inferno de secura e de calor. Até que... Mal sabem os turistas que em breve suas cabeças serão estouradas por uma escopeta escondida em algum recanto da casa. Os velhinhos nudistas-naturalistas não são tão carinhosos e delicados e líricos e gentis assim – tampouco abestados...

E há a água – ou a falta dela. A proliferação de alusões a problemas atuais quase chega a saturar o filme com referências diversas. Só quase. Pelas barragens secas, pelos canais assoreados e pelo caminhão-pipa, o abandono da transposição do S. Francisco fica claro. Mas as questões ambientais não são... naturais: a água do vilarejo sumiu porque foi “roubada” – imagine-se por quem. Resta à população montar guarda para preservar os pingos que restam, capitaneada por um personagem que tem a cara de um diabo louro enlouquecido, de olho aboticado, o Lunga, vivido por um excelente Silvero Pereira. E para deixar evidente que a população não mais terá acesso a ela, nem um carcomido caminhão pipa se salva de um tiroteio, chegando à vila cravado de balas, fazendo o precioso líquido vazar por tudo que é buraco.

Mas, atenção, mandantes arrogantes, inescrupulosos, insensíveis, vira-latas, truculentos, grosseiros, chulos, ignorantes! “Nunca antes na história deste país” sua escória foi tão bem representada pela capa dirigente da nação – representada, sim, porque, como sempre, essa capa são apenas patas que tiram as castanhas quentes do fogo, ela não manda nada. Como dirigentes, tivemos ditadores e democratas, de esquerda e de direita, diplomados e sem-diploma. Mas nunca tivemos deficientes mentais. Viva a novidade! Contudo, o aplauso a eles cai numa velocidade surpreendente, graças à sua própria performance: o suposto “piso” de 30% de aprovação ruiu como castelo de cartas, a jamanta desgovernada despenca ladeira abaixo, arrastando a  popularidade para 20% e daqui a pouco para 10%.

Rapidamente, desinformados, ingênuos ou pessoas de boa fé, que por ação ou omissão contribuíram para a tragédia, supostamente a evitar um fantasioso “mal maior”, caíram em si e saltaram da jamanta antes do precipício. Quem sobra? De que tamanho é o nicho da sociedade brasileira composto por machistas, misóginos, racistas, homofóbicos et caterva, para quem preto, índio, mulher, nordestino, pobre, gay, esquerdista “não são gente” – portanto não têm direitos humanos? Quantos e por quanto tempo oferecerão o pódio de onde vociferarão os mentecaptos? A esses, reserve-se a nossa compaixão – pois são humanos, embora não nos percebam como tais – mas também o isolamento pelo horror feroz que dirigem ao que “não é espelho”.

Contudo, no filme, a resistência não refere a “classe política”. Esta é representada apenas por um prefeito típico que só aparece em tempos de eleições, distribuindo livros velhos e alimentos com prazo de validade vencido, além de estar fascinado com os “turistas” que vêm prestigiar seu município. Ele, o prefeito, ao fim e ao cabo é talvez condenado a morrer de insolação montado num jumento – outro símbolo em desaparecimento de uma civilização rural que se esvai. Pois bem, o filme não refere a elite, mas o minguante grupelho do pódio, determinados a riscar Bacurau-Brasil da face da terra – e a inesperada e colossal barreira de fogo contra a qual ele se depara.

E então o filme “delira”, na melhor tradição metafórica. Há uma resistência literalmente subterrânea que pode vir à tona se provocada em excesso. (O que é “excesso” hoje no Brasil?) Como Bacurau, o misterioso pássaro que só sai da toca na calada da noite, é a população da pequenina e obscura vila que toma o destino em suas mãos e resgata do subsolo de sua existência uma força que permaneceu por tanto tempo latente (quanto?), e que explode (literalmente, de novo – como o som é importante no filme!), despertada por uma situação limite: não mexer-se é igual a morrer.

Cuidado, pois, senhores mandatários! Vocês podem ter suas cabeças cortadas – mais uma de tantas referências icônicas do filme – em curiosa inversão histórica: não serão as forças da ordem a fazê-lo, mas o seu contrário, as da “desordem”. Se porventura escaparem do cutelo, podem ser condenados ao buraco cavado no seio da vila por quem ressuscitou a resistência, quiçá sepultados vivos por uma força que reaflorou para não mais ser enterrada. Bacurau – a vila –  volta ao mapa. Bacurau – o filme – ganha o planeta azul das imagens iniciais, antecipação visionária de seu sucesso mundial.

(Frederico de Holanda, 7.9.2019)

Frederico de HolandaProfessor Emérito / Emeritus Professor
Pesquisador Colaborador Sênior / Senior Research Fellow
Universidade de Brasília

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