Billy Wilder: cruel como um espelho

Finalmente lançado em DVD, A Montanha dos Sete Abutres, um dos filmes mais contundentes do diretor norte-americano, ridiculariza o sadismo humano

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Sofro de insônia hedionda e outro dia, zapeando os canais por assinatura, eis que, lá pelas duas da manhã, me aparece o Kirk Douglas com seu famoso furinho no queixo num deserto qualquer dos Estados Unidos. Em segundos, notei que o filme em questão era o clássico de 1950 A Montanha dos Sete Abutres, do mestre Billy Wilder, uma das fitas mais contundentes já realizadas sobre a hipocrisia humana em Hollywood.

Se você é jornalista e nunca viu o filme A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder, não perca tempo. Finalmente lançado em DVD no Brasil, a obra é daqueles trabalhos que tem um peso considerável na história da sétima arte, como Cidadão Kane, de Orson Welles, ou Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens.

Woody Allen, que entende muito bem do assunto, revelou numa entrevista em 1992 que considera o noir Pacto de Sangue não só o melhor trabalhado de Wilder, mas um dos melhores filmes já realizado até então, mas admite que A Montanha dos Sete Abutres vigore entre as obras mais impactantes que viu nas telonas. Só não sabia dizer por que esse projeto sensacional ainda era tão desconhecido nos Estados Unidos.

Bem, realizado no auge da carreira desse diretor que nasceu na Áustria, em 1906, mas foi embora para os Estados Unidos fugido do fantasma do nazismo nos anos 30, o filme foi o único projeto de Wilder que não se pagou, sendo não apenas um fracasso total, mas quase o aniquilando entre os seus pares.

Antes, ele fizera a glória e adquirira o respeito da comunidade hollywoodiana com trabalhos memoráveis como o já citado Pacto de Sangue e o descarado Crepúsculo dos Deuses, um desconfortável exercício de metalinguagem de 1950 em que, com toda a desfaçatez que era peculiar, tira um sarro das vaidades, veleidades, exageros e excessos daquelas obscuras criaturas que vivem à sombra da Meca do cinema.

Crepúsculo dos Deuses, apesar de ser uma afronta a todos aqueles que davam seu sangue pelo cinema em Hollywood, foi ovacionado unanimemente por seus colegas e, motivado pelo sucesso do projeto, o velho Billy começou a se debruçar sobre um de seus trabalhos mais devastadores.

Baseado num episódio real que acontecera no Kentucky, em 1925, A Montanha dos Sete Abutres gira em torno da figura nefasta de Charles “Chuck” Tatum (Kirk Douglas). Um dia ele fora um jornalista de sucesso em jornais de renome em Chicago, Los Angeles e Nova York, mas hoje vive em decadência numa pequena redação de Albuquerque, provinciana cidade do Novo México. Vaidoso, esnobe, mas com um talento infalível para contar histórias, se vê obrigado a cobrir pautas cretinas como um campeonato de caça a cascavéis, enquanto sonha com seu comeback debruçado em cima da máquina de escrever. “Sou um jornalista de mil dólares por dia!”, gaba-se.

Um dia, a sorte lhe sorri quando descobre que um morador local está soterrado numa caverna no meio do nada, dentro da tal montanha do título em português, um lugar amaldiçoado por fantasmas indígenas e devassidão ululante.

Com a cumplicidade de um Xerife corrupto e da mulher do pobre diabo preso nesse buraco, uma autêntica pistoleira, Tatum orquestra um big carnival (um dos títulos originais do filme) em torno do episódio, retardando como pode a retirada do sujeito do local, só para vender mais jornais e se promover profissionalmente. “Notícias ruins vendem mais que notícias boas”, ensina ele ao jovem fotógrafo que o acompanha. “Escrevo o que as pessoas gostam de ler”, emenda.

Num piscar de olhos, da noite para o dia, uma turba de curiosos começa a chegar de várias partes do país ao “buraco dos abutres”, motivada pelas matérias de Tatum. Eles querem ver in loco a grande tragédia que abala a América e, assim, com a espontaneidade de um feixe de luz, um grande circo da mídia nasce sob o escaldante Sol do Novo México. “É certamente um filme sobre o jornalismo sensacionalista. Mas é mais ainda um filme sobre o público que torna possível o jornalismo sensacionalista”, explicaria anos mais tarde Wilder.

E ele tinha razão. À frente de seu tempo, Wilder desenvolve aqui um intricado ensaio sobre a sordidez humana, onde elementos inerentes ao nosso caráter como o egoísmo, o sadismo, a vaidade e, sobretudo, a ganância, dão o tom de uma narrativa absurdamente desconcertante e amoral. É só prestar atenção, todos no filme competem entre si quando o assunto é a falta de escrúpulos. “Eu não costumo rezar, meu caro. Ajoelhar rasga as minhas meias”, avisa Jan Sterling, na pele da mulher do soterrado Leo. “Há três pessoas enterradas aqui: Leo, eu e você. Todos querem sair e vamos conseguir, mas eu sairei em grande estilo”, devolve Tatum, metaforizando a situação de todos, nesse drama pungente.

Ninguém quer vê a si mesmo como um canalha. E foi o que Billy Wilder fez, imbecilizando o sadismo humano com seu espelho da verdade em A Montanha dos Sete Abutres. Quando ele queria, sabia ser cruel como um espelho.

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