Compatibilidade de gênios: a música de Aldir Blanc e João Bosco

Gustavo Conde, músico e linguista, relata a trajetória de dois gênios da música brasileira: Aldir Blanc e João Bosco, homenageados em seu pocket show na TV 247; "Destino, sobrenatural, peças, imponderável, o fato é que não há muito o que explique qual foi a felicidade perdida que uniu dois compositores tão nascidos um para o outro. Nem vou pesquisar porque eu não quero saber. Prefiro pensar que a dupla veio pronta e que o protocolo celestial despachou “por engano” um para cada lugar, só de troça. “Deixa eles pensarem que foi acaso do destino”, teria dito um anjo coçando uma asa com sua garrafa de cerveja divina", escreve 

Compatibilidade de gênios: a música de Aldir Blanc e João Bosco
Compatibilidade de gênios: a música de Aldir Blanc e João Bosco

Por Gustavo Conde – Muitos dizem que o destino prega peças. Outros dizem que isso é bobagem. A entidade que zelaria de fato pelo imponderável é aquele senhor que costumava ser visto circulando pela geral do Maracanã nos anos 50, o Sobrenatural de Almeida. Há quem diga ainda que o Sobrenatural é quem prega as peças. Pura discussão boba de botequim.

Destino, sobrenatural, peças, imponderável, o fato é que não há muito o que explique qual foi a felicidade perdida que uniu dois compositores tão nascidos um para o outro. Nem vou pesquisar porque eu não quero saber. Prefiro pensar que a dupla veio pronta e que o protocolo celestial despachou “por engano” um para cada lugar, só de troça. “Deixa eles pensarem que foi acaso do destino”, teria dito um anjo coçando uma asa com sua garrafa de cerveja divina.

Bosco e Blanc, Blanc e Bosco. Aldir e João. Goiabada com queijo, banana com paçoca. Café com leite, arroz e feijão, lenço e documento, língua e fala, significante e significado. Valha-me Deus, para de frescura e escreve logo esse ensaio, porra. Ah, se não fosse esse superego devoto de Oxum para dar um jeito nesse id metido à besta. O meu eu nem vai discutir.

A definição

Falar de Aldir Blanc e João Bosco é como cortejar a mulher amada depois da décima briga. Enseja cuidado. Trava. A gente precisa introduzir com carinho. Ôpa! O assunto, o assunto... A desculpa! Para falar de João e Aldir é preso pedir desculpa antes. Mas não uma desculpa qualquer. É aquela desculpa cheia de si que o tenista pede depois de aplicar um forehand perfeito. É uma desculpa retórica, plena de orgulho mas, igualmente, plena de carinho e reverência.

Desculpa Tom, desculpa Chico, desculpa Noel, desculpa Pixinguinha, desculpa Ary, desculpa Villa. Mas na travessia desse ensaio de parcos 16 mil toques, o navio Blanc-Bosco será soberano e ostentará a bandeira brasileira no topo do mastro.

Primeiro, às (re) apresentações. Quem é Aldir? Um letrista singular, virtuoso sem afetação, com extremo domínio poético (ourives do palavreado, como diria Dorival Caymmi) e dotado de um talento único para violar e gerenciar os sentidos e expressões consagrados pela história.

Guimarães Rosa talvez gostasse de ouvir o singelo vaticínio desse escriba: Aldir Blanc é o sujeito menos assujeitado que eu conheço. Aldir transborda originalidade. Aldir é uma aula ambulante de história do Brasil. Aldir é resistência à força bruta. Aldir é olho no olho e dente no dente (a franqueza e o sorriso). Aldir é infinitivo: eu aldirei, tu aldirás, ele irá aldir. É o verbo irregular, a transparência, a delicadeza, o futebol, o Brasil, o mar, o Rio de Janeiro, o povo brasileiro, o cotidiano transposto em versos sem autocomplacência.

 Quem é João? Um melodista percussivo ou, se se quiser, um percussista melódico. Uma escola de samba inteira no violão, um território em cordas que estabelece novas rotinas de sons e timbres, autodidata mais rigoroso que maestros-doutores, emanação popular, violador de convenções, criador de línguas, profanador da mesmice.

João é o aparato vocal em toda a sua extensão, a colocatura camaleônica, o falsete verdadeiro, a glote-sanfona, expansão e compressão, irreverência encarnada, técnicas múltiplas e apuradas. João é o substrato da melodia vocal popular em toda sua tessitura passional que projeta, por sua vez, nossa percepção a experiências únicas de passionalidade. 

A conjução

O que dizer da união dessas duas forças da natureza? A quem agradecer? Tome-se, apenas, algumas dicotomias saborosas e complementares : Blanc é o infinito, Bosco é conjugação. Blanc é a pletora de violações desassujeitadas, Bosco é a reorganização sonora. Blanc é a história, bosco é o narrador. Blanc é o bastidor, Bosco é o batedor. Blanc é o povo, João é mais povo. Blanc é o escultor de sentidos, Bosco é o restaurador de aliterações rítmicas. Blanc é o curso, Bosco é a navegação. Blanc é o conceito, Bosco, o grito 

Desculpe, mundo, mas essa dupla não é uma dupla: essa dupla finge ser uma dupla. Eles sequer são gente. São galos de briga, são guerreiros, são afetos, são sentidos ambulantes que nos são impostos pelo destino, esse pregador de peças cheio de graça.

Cortemos um pouco para as vicissitudes técnicas nesse mar revolto das celebrações reverenciais - justas, advirto. Blanc tem características interessantes como letrista. Segue uma tradição narrativa que poderia ser associada a Noel Rosa: o povo, o carioca, a urbanidade, o relato, as cifras jornalísticas e de crítica social, a densidade política, a conjugalidade, o amor não facilitado dos romantismos baratos e, ainda, o romantismo puro, revestido de imensa irreverência que acaba por tomar um sentido inverso, de passionalidade avassaladora (Dois Pra Lá, Dois Pra Cá).

Mergulhar no mar de Aldir exige. Tão logo se mergulhe, no entanto, a profusão de sensações devasta. Musicalidade é uma coisa, esculturas de sentido, outra. Aldir esculpe em delicada madeira histórica. Usa também sobrepostos, elementos adicionais que dão uma forma mais peculiar ainda ao seu tecido narrativo-cancional

Dois Pra Lá, Dois Pra Cá

‘Dois Pra Lá, Dois Pra Cá’ é um exemplo desse faber. Ali se estabelece um enunciador inseguro e apaixonado – que não sabe dançar. A voz da mulher desejada, didática e carinhosa, ecoa por toda a canção: “são dois pra la, dois pra cá”.

Ali, o coração do eu cancional é “traiçoeiro” e “bate mais que um bongô”. Essa é a violação virtuosística de Blanc: o bongô do Bolero invade seu coração e a dança metafórica faz o atento contemplador da canção viajar nos sentidos e nos caminhos dos sentidos. A gente entra em um mundo denso, em que a dicção do cancioneiro se impõe com muita contundência e assertividade: Blanc está de posse do passeio lírico-semântico que nos invade a alma, ele é o timoneiro.

Não bastasse o bongô, há as “maracas”. Tudo se dirige para uma descompensação subjetiva - motor narrativo de toda e qualquer canção lírica - que, surpreendentemente é materializada aqui de maneira quase literal: o coração está “descompassado de amor”. A beleza semiótica da letra se estabelece de maneira quase trapaceira, tão imensa que é.

A cabeça do eu cancional “roda, mais que os casais”. O “perfume gardênia” invade a letra e abre mais uma janela de sentido, em sinestesia generalizada. Somos violentamente lançados no salão através do sentido que nos é mais imemorial: o olfato. 

A canção se reorganiza, ainda, em outro plano perceptual. A “mão no pescoço”, “as costas macias” se apresentam e amplificam o percurso passional da vertigem que toma o eu lírico. Eis que, nesse instante, surge a “assinatura” de Aldir Blanc: “o falso brilhante e os brincos iguais ao colar”.

São delicadezas e traços do plano mais humilde das relações sociais e das tradições supostamente vulgares do mundo da sedução popular. Esses elementos linguísticos irrompem na percepção, provocando a surpresa e a reacomodação dos sentidos num processo cognitivo que deixa marcas de fruição e beleza.

O apelo popular é imenso e a mobilização inconsciente, idem, porque “o falso brilhante e os brincos iguais ao colar” não representam um valor pura e simplesmente pleno de positividade, mas uma “verdade” estética que nos é interditada pelas convenções etiquetais de pretensão classista. 

Com esse ‘pulo do gato’ retórico, Blanc não deixa saída para o co-enunciador da canção (o ouvinte): este está completamente fisgado pela tensão narrativa do eu cancional, que sofre, contempla, lembra, antecipa, suspira e fica tonto no salão de dança, diante de uma mulher delirantemente fatal que exala seu “perfume gardênia”, tem “as costas macias” e - como se não bastasse - ainda leva “a mão no pescoço” do felizardo-infeliz, o que costuma fazer derreter as mais impermeáveis rochas de indiferença.

A palavra não pode ser outra: é avassalador. Mas, ainda há mais. Há a cereja do bolo. Aldir lança a matéria adicional a sua madeira narrativa: “band-aid no calcanhar”. Um elemento que acelera a função disruptiva da letra e que também postula o sofrimento e a profunda conexão passional da mulher, que conduz o eu cancional, inseguro e inábil, com a arte da dança. O band-aid é “torturante” e comove a mente acelerada do aprendiz que narra sua saga valseada.

Aldir é infinito. Toda essa massa cancional, complexa e de extrema beleza modalizante, tem o seu desenlace narrativo no esplendor da coesão cancional: o “uísque com guaraná” acelera mais um pouco o sentido caudaloso que se afunila - e precisa “desaguar” - e a letra se conclui com a distensão épica-passional do eu cancional ouvindo a voz “murmurante” dessa mulher absolutamente admirável: “são dois pra lá, dois pra cá”.

Em suma, todo o delírio passional-mental do enunciador da canção é instituído e finalizado com essa frase que nomeia a canção e que sinaliza para a doação sublime, generosa e assertiva de uma mulher possuída pelo desejo de dançar. Repito, sem ligar para a repetição: é esteticamente avassalador.

A topografia melódica de Joao Bosco

Na dança da parceria em “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”, João Bosco é generoso como a mulher que ensina o alter ego de Aldir a dançar: ele faz um bolero em compasso 4 por 4 com pausas estratégicas nos blocos cancionais que marcam a hesitação provisória do sujeito que não sabe dançar.

O crescente melódico é também tradicional. A canção sobe os tons na medida em que a letra vai subindo a tensão passional interna. A “ponta de um torturante band-aid no calcanhar” e o fecho “são dois pra lá, dois pra cá”, estão no topo da linha melódica, delimitando o clímax da canção e o respectivo preparo para seu reinício, rumo ao infinito.

Não importa se a letra veio antes ou depois da melodia. A complementaridade é tal que o produto final se impõe à sua fabricação - daí, a assombrosa conjunção de recursos cancionais que esse dois compositores são capazes de materializar.

Desse grau zero da canção bosco-blanquiana, emerge todo seu cancioneiro, com as variações de praxe. O “joãobosquês”, nesse sentido, é um prolongamento do virtuosismo linguístico de Blanc. Blanc estica o arco e Bosco se lança como a flecha que, ao sabor do vento, vai rasgando o ar e o som, “desorganizando” sílabas, timbres e vocalizações. O grito de João saúda o sentido de Aldir. Ih! Uh! Oh! Uh bé bi lon. Bu za bã dã, bu, zã, bã, dã. Fricativas, bilabiais, lábio-dentais, plosivas e toda a conjunção épica dos sons que a voz humana é capaz de produzir.

João prolonga o discurso de Aldir, de maneira a constituir um tecido cancional absolutamente único e coeso, dotado da mais profunda originalidade. Para além das singularidades e do talento assombroso de cada um, o produto estético que emerge daquela conjunção demarca o território sagrado do sobrenatural. 

As sutilezas de algumas canções

Destaque-se os sentidos amplos e globais que caracterizam o letra de Aldir: o Brasil, o mar, o Rio de Janeiro e o povo brasileiro. Esses quatro elementos são chaves permanentes para seu discurso, estabelecendo regimes metafóricos muito consolidados. O mar em “Mestre-Sala dos Mares” e “Corsário”, o Brasil em “Nação” e “Rancho da Goiabada” e o Rio de Janeiro e o povo em “De Frente Pro Crime” e “Kid Cavaquinho”.

Há outros padrões temáticos que são também importantes. A conjugalidade está muto presente em Aldir “Siameses” e “Incompatibilidade de Gênios”. O puro virtuosismo linguístico em “Preta-Porter de Tafetá” e “Linha de Passe” e, é claro, o profundo sentido de democracia com a canção mais importante do período da ditadura militar “O Bêbado e a Equilibrista”.

Em “Corsário”, o eu cancional é o pirata em busca de seu amor que pode ser a mulher amada ou o próprio mar. O mar é o caminho dessa busca, mas a explosão de sentidos metaforizados o transforma em ator dotado de desejo: “Me arrastar até o mar procurar o mar”, “buscar a mão do mar”.

O enunciador quebra geleiras que são o mar congelado e, por associação, destituídos do calor do afeto. O narrador escreve a palavra mar - “a voz vibra e a mão escreve mar” - para iniciar sua saga em busca de um sentimento de conjunção à mulher-mar, que se apresenta esculpida nos mais sutis e delicados sentidos, conduzidos delicadamente, mais uma vez, por João Bosco e sua topografia densa e generosa. 

“O Mestre-Sala dos Mares” - para além de sua homenagem subscrita e consagrada ao marinheiro João Cândido, que desafiou a ditadura militar - estabelece outra ode ao mar. A ideia de um navegante negro que aporta na Baía de Guanabara, soberano, pleno de dignidade, invertendo os papéis históricos com extrema habilidade retórica mais uma vez: o negro como comandante de uma embarcação que chega ao Rio de Janeiro, “saudado pelas polacas e por um batalhão de mulatas”.

 Aldir é resistência democrática e denúncia. Denuncia racismos, preconceitos e misoginias transversas já nos idos de 1970, quando esses discursos mal engatinhavam na cena política.

A beleza épica e única de “Nação”, em que a dupla se agrega à parceria do compositor Paulo Emílio. É uma canção fundadora, que re-estabelece os sentidos históricos de Brasil: o verde-amarelo, a natureza e a própria canção popular.

Blanc, no entanto, não é como Tom Jobim e Villa-Lobos, que postularam um Brasil internacionalizado. Blanc propõe um Brasil sem frescura, repleto de intertextos, seja do hino, do cancioneiro ou da história. No Brasil de Blanc, há a “Boca do Lixo”, há o lamento pelo desenvolvimento que mata a natureza “Sete Queda em chama”, a violência dos bandeirantes, diabos velhos, “a sanha d’Anhanguera”, a presença maciça do candomblé e da cultura indígena, numa profusão infinita de referências e virtuosismo poético-narrativo.

A inacreditável “Siameses”, tão devastadoramente interpretada por Nana Caymmi, representa uma canção que ainda precisa ser devidamente dimensionada como uma das mais importantes da nossa cultura. Blanc relata a conjugalidade como poucos psicanalistas no mundo poderiam sonhar. Seus sintagmas violadores de convenção são iguaria delicada no mercado das letras singulares: “infelizes pra sempre”, “comunhão de males”, “obrigação de amar”.

Blanc se apropria do sentido e do discurso para costurar uma das mais líricas declarações de amor de todos os tempos, na loucura e a vertigem dos sufocamentos sociais da convenção etiquetal e cristã. “Amas em mim a cruel indiferença”, “aspiro em ti a maldade e a doença”. 

O eu cancional, de posse da condição “siamesa” da inseparabilidade, vivencia e revisita sua percepção da travessia que costumamos chamar de “casamento”. Todos os elementos são antirromânticos e anti-ingênuos, mas provocam, paradoxalmente, o mais intenso e poderoso sentido de conjunção espiritual-carnal.

Ama-se a desgraça. Zela-se pelo mau humor. Tripudia-se sobre a infelicidade. Zomba-se do convecionalismo. Arromba-se a porta da hipocrisia conjugal. Ressignifica-se a condição de se estar diante de um ser, cujo significado convencional foi-lhe imposto como o “ser amado”, mas que, na verdade, sempre foi muito mais do que isso: trata-se do ser furiosamente significado e partilhado no espaço domiciliar dos estranhamentos e da existência simbólica, um fatal desdobramento do próprio eu, a dimensão siamesa, subjetiva e desconhecida.

Um brinde a todos os Joões e Aldires

Não é trivial contemplar essa dupla que é muito mais que uma dupla. Buscar a intimidade da canção que emana dessa parceria é um raro prazer e uma aula aplicada das narrativas cancionais. Blanc é generoso. Ele oferece um banquete de sentidos e desdobramentos de sentidos. É rabada com angu, naco de peru, linguiça e paio, bolo de fubá, pirão, marmelada e os mais diferentes sabores e texturas possíveis nesse cardápio monumental que é a canção brasileira.

João e Aldir são patrimônio e humanidade, unha e carne, filé com fritas, significante e significado, língua e fala, sintagma e paradigma. Ouvir suas canções é admitir que a condição humana de busca de sentidos não é assim tão terrível como pode fazer parecer a realidade violenta da manchetes de jornal. 

Enquanto se contempla a humanidade na inteireza singela do ser, o mundo é só um samba de João Bosco e Aldir Blanc. Vida longa a esse mundo. Vida longa ao sentido que transborda e à régua que raspa a tulipa e nos permite beber as canções com o bigode pleno de felicidade. Um brinde a todos os Joões e Aldires.

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