Country Joe McDonald, ícone de Woodstock, morre aos 84 anos
Cantor e líder do Country Joe and the Fish marcou o festival de Woodstock com hino satírico contra a Guerra do Vietnã
247 - O cantor e compositor Country Joe McDonald, figura marcante da contracultura dos anos 1960, morreu no sábado (7), aos 84 anos, em decorrência de complicações da Doença de Parkinson. A informação foi publicada pelo jornal The New York Times. McDonald ficou eternamente associado à sua apresentação no histórico festival Woodstock, quando conduziu uma multidão de cerca de 400 mil pessoas em um coro irreverente antes de cantar seu famoso protesto contra a Guerra do Vietnã.
Naquele momento, imortalizado pelo filme e pela trilha sonora do festival, McDonald substituiu o refrão original de “The Fish Cheer” por um palavrão provocativo e, em seguida, interpretou a canção “I-feel-like-I’m-fixin’-to-die rag”. O episódio ajudou a consolidar sua imagem pública como um dos artistas mais abertamente críticos da guerra e das instituições da época. Anos depois, ele comentou o impacto daquele momento em entrevista ao jornal britânico The Independent: “Desde o momento em que eu gritei ‘Give us an F …’, aquilo virou um momento folk de protesto”. E acrescentou: “Havia ali uma certa atitude confrontadora, meio Kurt Cobain, que combinava muito bem com o espírito da época.”
Durante o auge da cena psicodélica de São Francisco, McDonald liderou a banda Country Joe and the Fish, uma das primeiras formações do movimento. Seus discos combinavam guitarras distorcidas típicas da época com influências do folk tradicional, do ragtime e até da música de vanguarda, além de letras que mesclavam humor ácido, fantasia e crítica política.
As composições do grupo frequentemente abordavam temas sociais. Em “Superbird”, por exemplo, McDonald imaginava o então presidente Lyndon B. Johnson como um personagem de desenho animado descontrolado. Já em “The Harlem Song”, ironizava o fascínio de parte da sociedade branca pela cultura negra. Em “Fixin’-to-Die”, talvez sua música mais famosa, assumia o papel de um vendedor televisivo que oferece aos pais a “chance” de ver o filho voltar da guerra em um caixão, culminando no refrão irônico: “Whoopee! We’re all gonna die!”
Apesar de dois álbuns do Country Joe and the Fish terem alcançado o Top 40 da Billboard, o grupo nunca atingiu o mesmo nível de sucesso comercial de outras bandas da cena de São Francisco, como Jefferson Airplane e Grateful Dead. Após o fim da formação principal em 1970, McDonald seguiu carreira solo, lançando dezenas de discos ao longo das décadas — embora nenhum tenha entrado na parada principal de álbuns da Billboard.
Joseph Allen McDonald nasceu em 1º de janeiro de 1942, em Washington. Filho de militantes comunistas, recebeu o nome em homenagem ao líder soviético Josef Stalin. Ainda criança, mudou-se para a Califórnia, onde teve contato com a música por meio do violão havaiano de seu pai. Adolescente, viu o pai perder o emprego após ser convocado a depor diante do Comitê de Atividades Antiamericanas durante a Guerra Fria.
Depois de servir na Marinha dos Estados Unidos por pouco mais de três anos, McDonald se mudou para Berkeley durante o Movimento pela Liberdade de Expressão e passou a frequentar o ambiente cultural que daria origem à cena psicodélica de São Francisco. Ali criou a revista underground Rag Baby e, em 1965, formou a primeira versão do Country Joe and the Fish com o guitarrista Barry Melton. O nome artístico “Country Joe” era uma referência irônica ao apelido de Josef Stalin, enquanto “Fish” remetia a uma frase atribuída a Mao Zedong sobre revolucionários que deveriam “mover-se entre o povo como um peixe nada no mar”.
Mesmo após o fim da guerra que inspirou sua canção mais famosa, McDonald continuou abordando o tema em suas composições. Em 1986, lançou o álbum Vietnam Experience, com 12 músicas sobre o conflito. Refletindo sobre o impacto de “Fixin’-to-Die”, ele afirmou à revista Let It Rock: “Você ri da guerra. Você ri de si mesmo e ri da esquerda ao mesmo tempo. Há algo de muito atraente nessa canção.” Em seguida, completou: “Há algo de muito atraente nas drogas também. É basicamente uma canção insana.”