‘Daens - um grito de justiça’ mostra que ainda vivemos como no século XVIII

Filme narra a história do padre belga Adolf Daens, que se transfere para a cidade Aalst no final do século XIX; chegando lá, depara-se com a degradação em que a população era submetida nesse processo agudo de industrialização

Filme narra a história do padre belga Adolf Daens, que se transfere para a cidade Aalst no final do século XIX; chegando lá, depara-se com a degradação em que a população era submetida nesse processo agudo de industrialização
Filme narra a história do padre belga Adolf Daens, que se transfere para a cidade Aalst no final do século XIX; chegando lá, depara-se com a degradação em que a população era submetida nesse processo agudo de industrialização (Foto: Gisele Federicce)

Por Ricardo Flaitt, para o 247 - A segunda metade do século XIX é marcada pela consolidação do sistema de produção capitalista, que teve início significativo 100 anos antes, com a Revolução Industrial.

No século XIX, considerado por historiadores, como a Segunda Revolução Industrial, este período apresentou grande avanço tecnológico e científico. Com isso, naturalmente, o mundo do trabalho também sofrera novas e profundas transformações.

Sob essa nova ordem socioeconômica; homens, mulheres e crianças, para sobreviver, viram-se obrigadas a vender o único bem que lhes restavam: sua força de trabalho.

Como engrenagens do Sistema, as pessoas eram submetidas a desumanas jornadas de trabalho de até 16 horas diárias, em locais insalubres, tendo que repetir incessantemente (divisão do trabalho) o mesmo movimento nas máquinas.

Não existiam leis e garantias trabalhistas, o que dava margem a terríveis abusos patronais como assédios morais e sexuais.

O filme "Daens – Um Grito de Justiça" narra a história do padre belga Adolf Daens, que se transfere para a cidade Aalst, no final do século XIX. Chegando lá, depara-se com a degradação em que a população era submetida nesse processo agudo de industrialização.

Sensível e esclarecido e homem de seu tempo, Daens indigna-se ao se deparar com as constantes mortes por acidentes nas indústrias, pela fome, congeladas pelo frio, e demais causas devido às condições miseráveis em que viviam as famílias operárias.

Em Aalst, Daens instala-se na casa do irmão Peter, dono do jornal local "O Operário". Por meio do instrumento ideológico do irmão, Daens publica o artigo "Chega de Crianças Mortas em Aalst", denunciando a exploração do trabalho infantil nas fábricas.

O artigo remexe com as estruturas da cidade, constituído pelos burgueses (empresários), a Igreja, os políticos, a massa trabalhadora oprimida e as correntes políticas como os socialistas e os radicais (reacionários oriundos da massa).

A partir do instante em que Daens passa a interferir na ordem estabelecida os burgueses/empresários iniciam uma articulação para calar o discurso do padre que buscava justiça social e, evidente, seguia no sentido contrário à lógica do sistema de maximização dos lucros e competitividade, mesmo sob ao custo de vidas humanas.

Sendo Daens parte da instituição Igreja Católica, a ação/pressão burguesa envolve, então, o cerceamento da propagação dos seus ideais recorrendo aos superiores na hierarquia eclesiástica. Na primeira esfera, o bispo convoca-o/intima-o para avaliar o caso, saber se realmente há um número excessivo de mortes de crianças e, sobretudo, para cercear a atuação de Daens.

Nesse ponto é necessário compreender as relações entre a doutrina católica de justiça, a relação com a burguesia e o crescimento dos ideais socialistas/comunistas. A igreja, sob o contexto das relações tinha a missão de apascentar a massa operária para o bom funcionamento do sistema, porém, contraditoriamente, via-se obrigada a seguir suas doutrinas pelo bem-estar social de todos.

A igreja enxergava as atrocidades acometidas nas fábricas, no entanto, compactuava com a burguesia pela soberania das almas em suas paróquias e, consequentemente, frear qualquer propagação dos ideais socialistas, que negavam a fé e doutrina católica.

A atuação de Daens estabeleceu um desafio eclesiástico: como conciliar os interesses burgueses/empresariais sem perder a alma dos operários?

No plano político, o parlamento belga, sob pressão popular, decidia sobre o sufrágio universal, que acabara sendo aprovado aos maiores de 25 anos. Com essa decisão, Daens encontra uma brecha para fugir ao cerceamento, candidatando-se a uma vaga no Parlamento belga.

Se de um lado a burguesia se articulava com a igreja para se manter no centro das decisões políticas, em contrapartida, Daens compunha com as massas operárias, os socialistas e alguns empresários liberais. Composição necessária, uma vez que a massa não possuía outro representante, e tanto burgueses liberais quanto socialistas, não congregavam força suficiente para ocupar uma Cadeira.

Unificados, elegem Daens, que apresenta o quadro de exploração extrema nas fábricas de Aalst no parlamento belga. Assim, Daens passa a incomodar ainda mais.

Porém, a burguesia reagrupa-se, rearticula-se e encontra um novo mecanismo para sufocar o agora parlamentar Daens: levar o caso do padre para ser julgado pelo Papa Leão XIII, no Vaticano.

O bispo tem plena consciência da exploração dos menos abastados nas indústrias e as condições de miséria em que viviam as pessoas. No entanto, como observado, a igreja sendo uma entidade política dentro do sistema social precisava manter os laços estreitos com o poderio político-econômico burguês, com objetivo, dentre outros, de afastar os ideais socialistas na sociedade, que negavam a fé cristã e enfraqueciam sua influência.

Em Roma, Leão XIII determina que Daens deve se ocupar basicamente às atividades católicas ligadas à Igreja, sem qualquer forma de interferência na ordem social, e com a missão apenas de "manter a paz e a ordem social".

Com a proibição vinda do Vaticano, o padre parlamentar Daens retorna à Aalst. Mesmo assim prossegue sua luta em defesa dos menos favorecidos no Sistema.

Acaba sendo suspenso de suas atividades sacerdotais, em 1898, por Antoine Stillmans, bispo de Ghente, mas seu grito por justiça nunca se calou. Elegeu-se para mais um mandato no parlamento, onde se ampliou sua voz em defesa dos oprimidos.

Daens, um grito de justiça, mostra que o pano de fundo da vida se altera, mas, em essência, principalmente no Brasil, país com tantos descaminhos e desigualdades, ainda se luta pelos mesmos direitos que os operários de Aalst. Os moradores dos barracos de Aalst não são diferentes das atuais favelas.

Mesmo diante de ilusões que o novo sistema cria por meio de novas tecnologias, dignidade, respeito e condições dignas de trabalho e de vida ainda são itens básicos que grande parcela da população não tem acesso.

TRAILER: 

 

DAENS – UM GRITO DE JUSTIÇA
(Daens, Bélgica / França / Holanda, 1992).

Diretor: Stijn Coninx.
Roteiro: François Chevallier, Stijn Coninx, Addy Weijers, baseados na novela de Louis Paul Boon.
Elenco: Jan Decleir (Daens), Gerard Desarthe (Charles Wooest), Antje de Boeck (Nette Scholliers), Michael Pas (Jan De Meester), Karel Baetens (Jefke), Julien Schoenaerts (Bispo Stillemans), Wim Meuwissen (Pieter Daens).
Biografia / Drama histórico.
138 minutos.

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