“É preciso disputar o futuro”: José Geraldo de Sousa Junior e Boaventura de Sousa Santos debatem o impasse da civilização

O jurista José Geraldo de Sousa Junior e sociólogo Boaventura de Sousa Santos afirmam, em debate promovido pela TV 247, que é preciso disputar o futuro em meio ao impasse da civilização. Para os debatedores, houve um retrocesso inédito nos parâmetros civilizatórios mas, ao mesmo tempo, há uma chance inédita para ‘reajustar’ os sentidos de ‘democracia’ e ‘humanidade’

Boaventura de Sousa Santos e José Geraldo de Sousa Junior
Boaventura de Sousa Santos e José Geraldo de Sousa Junior (Foto: Reprodução)
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247 - Dois dos maiores debatedores públicos do tempo presente, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos e o jurista José Geraldo de Sousa Junior, ex-reitor da UnB, travaram singular debate sobre o impasse da civilização em live transmitida pela TV 247 e mediada pelo jornalista Gustavo Conde.  

Para ambos, a sequência inédita de crises - a financeira de 2008 e a sanitária de 2020 - faz com que tenhamos uma tensão adicional nas angústias sociais, atravessadas por insegurança, desidentificação e uma espécie de ‘desgarramento’ dos protocolos humanitários estabelecidos no pós-guerra.  

O desafio, portanto, para os debatedores, seria, em primeiro lugar, formular ou reformular as perguntas possíveis para o impasse histórico, organizar o ‘tabuleiro’, codificar os desafios de posse de todo acúmulo de conhecimento possível, usando a ciência e as experiências bem sucedidas de governança e implementação de políticas públicas.  

A proposta inicial para o debate, postulada pelo jornalista Gustavo Conde, que também é linguista, baseou-se em premissas já conhecidas subscritas no impasse civilizatório: “o mundo chegou a um impasse: o (falso) dilema entre garantir a vida,a dignidade e os direitos humanos de todos os cidadãos e a corrida desenfreada pelo lucro e pelas formas de dominação clássicas subscritas nas práticas capitalistas. O dilema é falso porque não poderíamos ter dúvidas com relação a esta questão. Ocorre que os modos clássicos de produção de sentido via linguagem humana estão em crise neste momento histórico - para não dizer, em colapso.” 

Para Conde, ainda na função de ‘forrar’ a discussão e esboçar perguntas preliminares, “as formas de controle do sentido se intensificaram com o advento das redes sociais e do imaginário digital, o que estabelece uma nova rodada de desafios técnicos do ponto de vista do combate político-filosófico.”  

No bojo destes questionamentos, Boaventura destaca, de bate-pronto, a distopia. Ele diz que os governos de direita que negam a gravidade da pandemia caracterizam um cenário distópico e que esse comportamento tende a gerar muita violência e insegurança.  

Para o sociólogo português, trata-se ainda de uma espécie de ‘gattopardismo’ (conceito extraído da novela “Il Gattopardo”, do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa), em que “tudo muda para que tudo fique na mesma.” 

Boaventura ainda propõe algumas perguntas básicas para o enquadramento do fenômeno de estilhaçamento das subjetividades proporcionado pela ganância capitalista e pelas crises correlatas e diretamente decorrentes de suas formas de opressão.  

Para ele, o chamado “empreendedorismo”, essa ideia de que temos de ser empresários de nós mesmos, é um sintoma e um corolário dos sistemas de poder atracados a engrenagens neoliberais. Diz Boaventura que a geração dos “millennials” (a geração Y, que nasceu nos anos de 1980) atravessou duas grandes crises - a de 2008, crise financeira e, agora, a crise da pandemia - pelas quais seus pais não passaram.  

Para Boaventura, essa experiência histórica em meio a construção das identidades no mundo do trabalho faz toda a diferença e, por assim dizer, ‘desconecta’ e ‘desacredita’ o vínculo cidadão-Estado como elo provedor de organização social.  

O sociólogo destaca: “nunca houve tanta crise tão seguida”. E lamenta: “eles estão em situação precária. Jovens da arte, da cultura passam fome.” 

A segunda questão postulada por Boaventura trata das desigualdades sociais. Ele diz que a desigualdades foram muito aprofundadas com a pandemia.  

“Podemos criticar muito o presidente Bolsonaro. Mas e o Congresso? O que é que fez o Congresso? O que fez o sistema judiciário? Parece que há uma indiferença. Parece que essas vidas perdidas não têm valor”, diz o professor da Universidade de Coimbra.  

Boaventura ainda propõe que deva se pensar na questão ambiental de maneira técnica. Diz que é preciso entender como desestabilizamos esses habitats de vírus perigosos e se pergunta: “a natureza vai continuar a aguentar esse problema?” 

Por fim, ele propõe que se pense na questão do universo digital. Ele diz que a geração anterior a esta do presente, baseou sua experiência subjetiva na dimensão presencial, mas que agora, o padrão tem sido a experiência digital.  

Boaventura indaga: “não sabemos o futuro da presença. Quando vamos voltar a beijar. Quando vamos a tocar os corpos? Podemos estar à beira de um processo essencialmente digital.” 

O jurista José Geraldo de Sousa Junior, por sua vez, entende que, diante da violência do capital e das formas desenfreadas de busca pelo lucro associadas a crises sanitárias, é preciso “disputar o futuro”. 

O ex-reitor da UnB destaca que chegou a se surpreender com o acolhimento de Boaventura com os termos propostos pela mediação, uma vez que a ideia central, de fato, a ser trabalhada, seja driblar a repetição dos temas que começam a se acumular e a girar em falso na moenda cansada das significações protocolares e da incredulidade geral diante da mais grave catástrofe sanitária, ambiental e política de que se tem notícia.  

Sousa Junior afirma que a tragédia do mundo não deveria nos levar a pensar em “abandonar o mundo”, mas sim “se comprometer com ele”, ou seja - e de forma reiterada: disputar o futuro, ou: “pensamos o mundo como um futuro em que nós possamos realizar.”  

O jurista lembra ainda da encíclica ‘Fratelli Tutti’, divulgada pela papa Francisco no último dia 3 de outubro e da ideia de “fraternidade como mediação para a construção desse mundo em que a solidariedade seja o seu eixo fundamental”.  

Sousa Junior destaca que é curioso que venha justamente da religião uma resposta que deveria ser “do mundo”. Ele evoca fragmentos da encíclica papal: “se nós não sentirmos o cheiro das ovelhas, se nós não nos abraçarmos, se nós não nos entreamarmos, nós não poderemos cumprir o compromisso com o mundo solidário.” 

Para Sousa Junior, o papa Francisco “se soma a essa conjuração de mobilizações que pensam a civilização, não mais sob a perspectiva escatológica, a perspectiva milenarista, a perspectiva apocalíptica, que nos separe do passado para o futuro pela dimensão da redenção do pecado para recuperar em um outro mundo, fora deste, a redenção do paraíso perdido.” 

O jurista conclui seu preâmbulo com um fragmento do poeta português José Régio:  

“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!” 

(José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901).  

Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Director Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça. 

De 2011 a 2016, dirigiu o projecto de investigação ALICE - Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências o mundo, um projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a investigação científica de excelência em espaço europeu. 

José Geraldo de Sousa Junior é professor titular da Universidade de Brasília, onde foi reitor de 2008 a 2012. Possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008).  

Atua na Faculdade de Direito (graduação e pós-graduação) e no CEAM- Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares. Ensina, faz extensão e pesquisa na área de Direito, com ênfase em Teoria do Direito. É coordenador do projeto “O Direito Achado na Rua”, concepção teórica, desenvolvida a partir das ideias de Roberto Lyra Filho, que tem por objetivo pensar o Direito derivado da ação dos movimentos sociais a partir de uma perspectiva que o entende como uma “legítima organização social da liberdade".  

Assista a entrevista: 


 

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