'É um desastre o que está acontecendo no Brasil', diz Sebastião Salgado

Ao receber prêmio na Feira do Livro de Frankfurt, fotógrafo brasileiro diz ter esperança de que governo Bolsonaro não chegue ao fim. "Estamos destruindo instituições que levaram anos para ser construídas", afirmou, referindo-se a órgãos como a Funai e o Ibama

(Foto: Heike Lyding)

DW Brasil - Em meio aos corredores e estandes coloridos da Feira do Livro de Frankfurt, principal evento mundial do mercado editorial, imagens em preto e branco de Sebastião Salgado se destacam. Laureado com o prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão deste ano, uma das mais renomadas distinções literárias da Alemanha, o fotógrafo brasileiro falou com jornalistas nesta sexta-feira (18) sobre seu trabalho e a situação do Brasil sob Jair Bolsonaro.

A organização do prêmio ressaltou que a homenagem a Salgado deve-se não só a seu trabalho com imagens do cotidiano de pessoas menos favorecidas —como imigrantes, refugiados e moradores de regiões em que o ambiente está ameaçado, caso dos povos indígenas na Amazônia–, mas também pelo fato de ele tomar ações práticas, caso das iniciativas de seu Instituto Terra.

Pelo instituto, Salgado e sua mulher, Lélia, já fizeram o plantio de mais de 2,5 milhões de mudas de árvores em uma área de cerca de 700 hectares que pertencia aos pais dele, na região do Vale do Rio Doce, entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Salgado receberá o prêmio numa cerimônia na igreja Paulskirche, em Frankfurt, neste domingo (20), quando termina a feira.

"Para mim, foi uma grande surpresa. É muito especial. Estou orgulhoso, porque o prêmio leva 'paz' em seu nome. E precisamos de paz. A situação no meu país está tão difícil. Tão difícil para os indígenas", disse Salgado, em inglês.

Ao anunciar o prêmio, a Federação do Comércio Livreiro afirmou que, com suas fotografias, Salgado promove a "justiça e paz sociais" e confere urgência ao "debate mundial sobre a proteção da natureza e do clima".

Seu mais recente projeto chama-se Amazônia. Com imagens de povo indígenas e animais da região, o projeto deve ser lançado em livros e exposições no Brasil e no exterior a partir de 2021.

"É um desastre o que está acontecendo no Brasil, não apenas nas florestas, mas sim em toda a sociedade. Governos de direita e de esquerda respeitam as instituições. Mas quando há o extremo, como a extrema-direita, isso não é respeitado. Estamos destruindo instituições que levaram anos para ser construídas", afirmou o fotógrafo, referindo-se a órgãos como a Funai e o Ibama.

Em seguida, ele criticou o projeto de flexibilização para o porte de armas de fogo no país, uma das principais políticas defendidas por Jair Bolsonaro, e também a redução dos incentivos à cultura.

"O Brasil se tornou um país violento. Se cada um tiver uma arma na mão, vai ficar ainda pior", disse. "A cultura também tem sido um desastre. Investimentos têm sido cortados. Esse governo é um desastre, mas, ao mesmo tempo, vem perdendo poder. Temos esperança de que ele não chegue ao fim [do mandato]. No entanto, se chegar, temos que lutar para que não seja reeleito", disse.

Questionado sobre o que poderia ser feito para apaziguar o conflito envolvendo terras indígenas e o agronegócio, Salgado foi direto. "Pressionar. Temos que pressionar o máximo possível. E pedir ajuda, inclusive da Alemanha. Temos que fazer essa pressão, e isso pode funcionar", completou.

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