Fim do papo

Fliperama sinistro vem sabotando até o jogo amoroso nos bares das cidades

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Pequenas decisões podem resultar em grandes conquistas urbanas e humanas. Ninguém imagina hoje carros estacionando nos dois lados da rua Augusta. Nem ônibus elétricos, de dimensões transatlânticas, circulando a O km por hora na rua que se tornou de novo xodó dos paulistanos.

Não estou dizendo que o trânsito ali não continue sendo uma maldição, mas alguém com bom senso decidiu outro dia proibir o estacionamento e tirar de circulação os elétricos. Bastou um jamegão num papelucho oficial, não houve licitação, não houve qualquer obra, e a rua ganhou novo alento.

Esse alguém deve ter o mesmo espírito daquele que proibiu o uso de celulares nos bancos mais recentemente. Pude constatar o benefício da medida ao vivo e em cores. A elegante moça que me atendia no caixa do Itaú, no Conjunto Nacional, pediu-me licença por um segundo. Discretamente, levantou-se e, aumentando um pouco o tom da voz, cortou a alegre conversa de uma cliente na fila, que se ocupava em digressões no celular sobre a melhor maneira de curar um furúnculo.

– Por favor, é proibido.

O apoio silencioso da plateia demonstra que proibir às vezes pode ser muito bom para a saúde mental do cidadão civilizado. Mas você já deve estar pensando que esta é uma batalha inglória, que está tudo dominado. Os aviões, por exemplo, liberaram geral o celular. Em terra não é diferente. Uma viagem para São Paulo pela Via Dutra, nesses confortáveis ônibus de dois andares, outrora delícia das delícias de Salomão e a Rainha de Sabá, virou Inferno de Dante: todo o mundo conta tudo durante todo o percurso bem no seu ouvido. Você fica na situação de decidir se parte para o confronto ou engole o sapo Rio-São Paulo.

E pior: agora, os tagarelas dispõem não apenas de celular para levar o papo furado às últimas consequências. Usam mísseis balísticos intercontinentais, com mil utilidades e aplicativos, para varrer o silêncio da face da terra e invadir todos os sentidos. Como as tecnologias mudam de seis em seis meses, não vou nomeá-los para não permitir que interfiram ao menos aqui no nosso papo, onde penso que ainda disponho de algum poder. Só lamento que as tecnologias progridam com rapidez mas não proporcionem o mesmo avanço nos modos de quem as usa.

Soube que um dono de boteco em San Francisco, na Califórnia, proibiu uso de celular no seu estabelecimento quando viu dois caras conversando a curta distância boa parte da noite, cada qual com o seu, em cada extremidade do balcão. Acalento que idêntica medida saneadora pode ser tomada um dia nos botecos que frequento. Não funciona com os fumantes?

Mas como impedir alguém de trabalhar? É essa a postura dos invasores. Simulam uma mímica do trabalho em mesa de bar. Levam um escritório para o boteco. Dali tuitam, faceiam, navegam, pesquisam, repassam as fotos da noitada anterior, e de vez em quando até fotografam a turma para enfim lembrar quem estava ali, mas só na noite seguinte. Seriam eles os novos bárbaros?

Com uma dessas engenhocas, qualquer vagau assume ares de profunda concentração enquanto maneja na sua frente um dos 448.629.413 aplicativos do seu aparelho. O interlocutor – no caso eu, que passo ao largo de qualquer um deles – sou mera paisagem. Quem sou eu para interromper seu profundo e iridescente caso de amor com le dernier cri?

Que os amigos venham perdendo importância, tudo bem. Mas, nos bares e restaurantes, o próprio jogo amoroso está perdendo de goleada para esse fliperama sinistro. Daqui a pouco não se olha mais um rabo de saia. Ninguém corteja mais ninguém, nem a cara-metade do próximo. Todos de olho, no máximo, na engenhoca dele ou dela, se perguntando:

– O que ela tem que a minha não tem?

Imagine o triste destino de grandes conversadores neste patético mundo digital. Gente que já bateu as botas, como o jornalista Tarso de Castro e José Lewgoy. Gente que continua por aí dando cursos intensivos de jogar conversa fora, o único sentido de qualquer conversa, como o humorista Jaguar e o compositor Abel Silva. Este cunhou a frase que serve de epígrafe Confesso que Bebi, um dos impagáveis livros daquele:

“O bar é o descanso do lar.”

Associação livre de puras idéias, formulação de algumas das melhores teorias da humanidade e do progresso dos povos para uso instantâneo, delírios verbais, histórias alucinantes, piadas antológicas, cantadas célebres, mentiras deslumbrantes – tudo isso acontecia quando esse pessoal juntava as 15 mesinhas no andar de baixo do Florentino, na rua San Martin, no final do Leblon, no Rio. Se algumas ainda estavam ocupadas pela legião estrangeira, o diligente jornalista Edson Afonso se encarregava de espantá-la. Abria a porta de blindex do restaurante e gritava:

– Não adianta, pessoal! Hoje o Chico Buarque não vem!

O Florentino acabou. Temo que o papo tenha o mesmo fim. Diria o cineasta Claude Chabrol que a estupidez é mais fascinante que a inteligência, pois esta tem limites, mas a estupidez não. Também temo que ele tenha razão.

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