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Galinho de Brasília celebra 34 anos de frevo e aposta no futebol em ano de Copa

Bloco tradicional leva orquestras às ruas da capital e reforça raízes pernambucanas ao unir a energia do carnaval com a paixão nacional pelo esporte

Bloco Galinho de Brasília (Foto: Agência Brasil )

247 - O Galinho de Brasília, um dos blocos mais tradicionais do carnaval de rua do Distrito Federal, voltou a ocupar as ruas da capital em 2026 reafirmando sua missão: manter viva a tradição do frevo pernambucano e fortalecer a identidade cultural nordestina em Brasília. Com 34 anos de história, o bloco levou música, dança e memória afetiva para foliões que encontram na festa um elo direto com Pernambuco.

A celebração foi registrada em reportagem da Agência Brasil, que acompanhou o desfile realizado nesta segunda-feira (16). Neste ano, o Galinho escolheu um tema que une duas paixões brasileiras: “Galinho na Copa: Frevando rumo ao Hexa”, em referência ao ano de Copa do Mundo, resgatando a ligação histórica entre carnaval e futebol.O cortejo foi embalado pela Orquestra Marafreboi, sob regência do maestro Fabiano Medeiros, e também pela Orquestra do Galinho, conduzida pelo maestro Ronald Albuquerque. A proposta foi manter o frevo como centro da festa, preservando a complexidade musical do ritmo e a força cultural que ele representa.A servidora pública Damísia Lima, pernambucana de Olinda e moradora de Brasília há 21 anos, destacou a riqueza técnica do frevo e a exigência que o gênero impõe aos músicos.

“São muitos os tipos de frevo inventados em Pernambuco. É um ritmo tão rico que não é possível ser tocado por qualquer bandinha. São muitos instrumentos e naipes de metal ricos em contratempos. Só bons músicos dão conta de tocar esse ritmo que tanto orgulho causa ao povo de pernambuco”, afirmou.

Identidade pernambucana 

Para Damísia, o Galinho representa mais do que um bloco carnavalesco: é uma forma de manter o vínculo com suas origens. Ela contou que, ao se mudar para Brasília, temia perder traços da própria identidade cultural.

“Nós pernambucanos temos muito orgulho de nossa cultura e de nossa música. Meu maior medo era perder meu sotaque. Graças a Deus o mantenho até hoje. Não perco nunca o Galinho de Brasília, porque ele é meu refúgio para aguentar passar o ano longe do Recife”, disse.

A fala reforça o papel do bloco como espaço simbólico de pertencimento, sobretudo para quem vive longe do Nordeste e encontra na folia uma forma de manter vivas tradições que atravessam gerações.

Essência do carnaval

A direção do bloco afirma que o objetivo é preservar a autenticidade do carnaval pernambucano em meio à diversidade crescente de estilos musicais presentes nas festas de rua. O diretor administrativo do Galinho, Sérgio Brasiel, ressaltou que o evento busca manter a identidade do frevo mesmo diante de influências externas.

“Hoje vemos diversos outros estilos musicais influenciando o carnaval. Até rock tem. Nossa proposta aqui é a de resgatar a essência do carnaval de Pernambuco. E, como 2026 é ano de Copa do Mundo, aproveitamos para trazer de volta a paixão antiga que o brasileiro tem pelo futebol”, explicou.

Brasiel também apontou as dificuldades enfrentadas para colocar o bloco na rua, citando entraves burocráticos que reduziram drasticamente o tempo de preparação.

“O ideal era termos de três a quatro meses para nos dedicar à organização, mas acabamos fazendo isso em apenas 15 dias por conta dessa burocracia. Mas o bom é que deu certo e, depois de toda essa trabalheira, ficamos felizes ao ver a alegria dos nossos foliões”, acrescentou.

Carnaval e futebol 

Entre os foliões, a professora Célia Varejão chamou atenção ao desfilar com uma camiseta histórica do Galinho, da edição de 1995, além de carregar a bandeira de Pernambuco. Ela também aproveitou o momento para expressar a paixão pelo Flamengo e defender o caráter popular do futebol e do carnaval.

“Adoro as coisas populares, tanto no carnaval como no futebol. São duas coisas que, se deixam de ser populares, perdem sua essência. Por isso fico indignada com os preços cobrados nos estádios, como fizeram aqui, na final da Supercopa”, afirmou.

Clima familiar 

A tranquilidade do carnaval brasiliense foi um dos pontos mais mencionados pelos participantes. Damísia comparou a experiência da capital federal com o tradicional Galo da Madrugada, em Pernambuco, e disse preferir a estrutura de Brasília por permitir aproveitar mais a festa.

“Em Pernambuco é gente demais. Acho que, por ter menos gente, o Galinho de Brasília me possibilita curtir mais a festa. Canso menos e, por isso, consigo ficar mais tempo na festa. A verdade é que minha fase de festas grandes já passou. Prefiro festas como a de Brasília. Até porque o frevo daqui é legítimo”, declarou.

O servidor público Benedito Cruz Gomes, que acompanhava o desfile com a esposa e as duas filhas, reforçou a ideia de que o bloco se consolidou como espaço de convivência familiar.

“Carnaval é coisa de família; um espaço livre para brincadeiras”, disse.

Ele também recordou sua relação antiga com o evento.

“Há 30 anos eu já frequentava o Galinho de Brasília”, afirmou.

Fantasiado com uma combinação inusitada de Chapolin Colorado e He Man, Benedito ressaltou a continuidade da tradição dentro da própria casa.

“Esse bloco sempre esteve presente na minha vida porque eu moro aqui perto. Agora, está presente também na vida das minhas filhas”, completou.

Foliões de fora voltam ao Galinho

Mesmo morando em Viçosa (MG), o produtor de café Guilherme Fontes disse ter participado das primeiras edições do bloco e afirmou que sempre sente vontade de retornar ao carnaval de Brasília.

“Vim em um dos primeiros Galinho de Brasília, e sempre tenho vontade de voltar, até porque tenho amigos aqui”, contou.

Ele também destacou o ambiente acolhedor.

“Para mim, carnaval é sinônimo de brincadeira”, disse, enquanto participava de batalhas de espuma com amigos e familiares.

Evolução do bloco 

O engenheiro Alex França, natural de Caruaru (PE) e frequentador assíduo do Galinho, observou mudanças na estrutura do evento ao longo do tempo e afirmou que a melhoria na segurança tem incentivado a presença de mais foliões.

“Lembro que, há alguns anos, a estrutura do Galinho de Brasília era mais precária e com menos policiamento. Hoje temos mais segurança por aqui, o que motiva cada vez mais pessoas a frequentarem o bloco”, afirmou.

Símbolo cultural

O Galinho de Brasília foi criado em 1992, por pernambucanos que viviam no Distrito Federal e buscavam uma alternativa para quem não conseguiu viajar ao Recife e participar do tradicional Galo da Madrugada. Segundo os organizadores, o primeiro desfile ocorreu em um cenário econômico difícil, marcado pelo confisco das poupanças, o que impediu muitos nordestinos de retornarem a Pernambuco para o carnaval.A mobilização cresceu e, após a experiência inicial, os foliões fundaram o Grêmio Recreativo da Expressão Nordestina (GREN), com o objetivo de preservar e difundir manifestações culturais do Nordeste em Brasília.

Ao completar 34 anos, o Galinho segue reunindo tradição, música e memória, reforçando o frevo como patrimônio vivo e renovando sua identidade ao conectar o carnaval com a paixão brasileira pelo futebol em pleno ano de Copa.