Historiador ataca '1808' e Laurentino Gomes

O português Arthur de Lacerda classifica a obra do jornalista brasileiro sobre a colonização do Brasil como "um mau livro, pela sua inclinação, pelo seu apelo comercial e pelo amadorismo com que foi concebido"; e diz ainda que o texto projeta imagem negativa de Portugal; leia sua crítica

O português Arthur de Lacerda classifica a obra do jornalista brasileiro sobre a colonização do Brasil como "um mau livro, pela sua inclinação, pelo seu apelo comercial e pelo amadorismo com que foi concebido"; e diz ainda que o texto projeta imagem negativa de Portugal; leia sua crítica
O português Arthur de Lacerda classifica a obra do jornalista brasileiro sobre a colonização do Brasil como "um mau livro, pela sua inclinação, pelo seu apelo comercial e pelo amadorismo com que foi concebido"; e diz ainda que o texto projeta imagem negativa de Portugal; leia sua crítica (Foto: Gisele Federicce)

1808: Um péssimo livro

Por Arthur de Lacerda, historiador português, para o História Lecionada

Da autoria de Laurentino Gomes, "1808″ (editora Planeta, 2008) é um mau livro, pela sua inclinação, pelo seu apelo comercial e pelo amadorismo com que foi concebido. A sua inclinação é negativista, detratora de Portugal e fomentadora da muito famigerada lusofobia, desprezo e ódio de muitos brasileiros pelo nosso passado colonial e pela nossa origem portuguesa.

Todo historiador é livre nos seus juízos, com que avalia personagens, considera-lhes a atuação, julga-lhes o papel, descreve conjunturas, enfatiza aspectos. Diante da massa de informações de que dispôs, na farta bibliografia relativa ao Brasil colonial, a D. João VI e o seu tempo, o autor selecionou aspectos que enfatizam negatividades, em uma maledicência que se observa, por exemplo, na descrição de Salvador colonial (cidade suja, decadente, tipicamente portuguesa na sua falta de planejamento, com casas repugnantemente sujas, em que o vice-rei dançava na igreja de modo indigno, em que os senhores faziam de cafetões das suas escravas. Páginas114 a116); ao descrever o Rio de Janeiro de então (em cujas casas havia sujeira e preguiça; cuja limpeza cabia aos urubus e era infestada de ratos. Página 157); ao apodar a corte de ociosa, corrupta, perdulária, voraz e cara (páginas 150 e 189), que veio acompanhada por aventureiros sem princípios (página 188) e cujos integrantes ambicionavam enriquecer à custa do Estado mais do que servir ao bem comum (página 189); ao caracterizar D. João VI, como despreparado para reinar, tímido, supersticioso, feio, temeroso de caranguejos e trovoadas (página 32).

Assinala-se, neste livro, um empenho pela difamação ou, quando menos, uma animadversão anti-lusitana que se intensificam nos capítulos 11, "Uma carta", e 21, "Os viajantes".

O capítulo vigésimo primeiro contém uma série de excertos de relatos de viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil colonial ou já elevado a Reino Unido. Dentre as dezenas de narrativas, Laurentino Gomes ateve-se às de Maria Graham, de Koster, Mawe, Henderson, Burchell e Saint-Hilaire, de que excertou observações tais como: pena o Brasil não haver sido colonizado por uma nação ativa e inteligente (página 263), os nordestinos são desonestos (página 267), a colônia é preguiçosa e descuidada, sem vocação para o trabalho, de povo analfabeto, inculto e desinstruído (página 268);em São Pauloabundava a sujeira e a prostituição (página 270).

A história deve-se escrever com verdades, custe o que custar observá-las e admití-las (no caso de informes porventura desconfortáveis à sensibilidade do leitor, ao patriotismo ou a outros valores quaisquer), ao mesmo tempo em que os depoimentos de época devem submeter-se à análise crítica, de que resulte a determinação do seu valor como expressão da realidade. Abonadores ou depreciativos, valem como informações localizadas, porventura parciais, a que se pode e deve associar outras, de outras fontes, e sobretudo as que resultem de investigações profundas: foi o de que se absteve Laurentino Gomes, que admitiu a palavra dos viajantes sem mais critério do que o seu conteúdo desabonador.

Do acervo pletórico de informes transmitidos pelos viajantes, ele preferiu, sistematicamente, as notas pejorativas, as passagens caracterizadoras de uma realidade sempre lamentável, de um estado de coisas vergonhoso. Constitui o undécimo capítulo verdadeira excrescência: nele se reproduz, por inteiro, a carta de Luiz Marrocos ao seu pai, de 12 de abril de 1811, em que reporta ele, acerca da fragata que levou, de Lisboa ao Rio de Janeiro, uma parte da biblioteca real: a água potável achava-se corrupta e infestada de bichos, a carne salgada e a cordoalha apodreceram, as velas avariaram-se, a medicação é insuficiente, a tripulação não presta. Das 186 cartas conhecidas de Luiz Marrocos (página 80), o autor reproduziu precisamente a que apresenta um quadro deplorável de uma fragata portuguesa, especialmente importante por haver trazido parte da livraria da coroa.

É estranhável instituir-se um capítulo cujo único teor corresponde à reprodução de uma carta em livro que não se ocupa da biografia do missivista, que não lhe estuda o epistolário, que não transcreve nenhuma outra carta. Tal capítulo representa uma anomalia, em face do conjunto do livro. Ele existe, contudo, porque atende ao mesmo fito que animou Laurentino Gomes na seleção das passagens a que me referi: ele serve para difamar Portugal e quanto se lhe refira. Ao manusearem-se livros ilustrados, o leitor dirige-se, quase instintivamente, às gravuras, movido pela curiosidade: as respectivas legendas é o que, tendencialmente, também se lê, em uma vistoria superficial de livro que não se leu.

O que o leitor encontra nas legendas de 1808 são informações, também elas, depreciativas: a prataria e 60.000 livros esquecidos no cais, na correria da partida da corte; a corte fugiu; D. João teria vencido os franceses, "se tivesse coragem" para tal; ele era "tímido, feio, inseguro", "de aparência grotesca"; Carlota Joaquina era "feia, maquiavélica e infeliz"; a corte era "corrupta e perdulária". Há, em "1808″, uma atitude psicológica: a de achincalhar e amesquinhar, o que o transformou, de livro de informação histórica, que deveria ser, em veículo de um dos piores males da psicologia do brasileiro, a lusofobia, desprezo por Portugal, pela colonização do Brasil, pelas nossas origens históricas.

As passagens excertadas contêm a expressão da lusofobia, padrão de entendimento e de sentimento que se instalou no sistema psicológico de muitos brasileiros, que os leva a desmerecer a cultura portuguesa e a acusar a colonização que Portugal desenvolveu no Brasil. Como todo preconceito, ele equivale a uma falsificação da realidade, em desprezo, injusto, do objeto a que se refere.

Este preconceito surgiu ao tempo da independência do Brasil, como reação da população colonial, no seu anseio pela emancipação política, e mantém-se como renegação da origem histórica do brasileiro. Com inverdade e injustiça, propalam-se, mesmo nas escolas, informações vexatórias, que mantêm a lusofobia, como as de que o Brasil teria sido colonizado por degredados e por prostitutas, que a então colônia era depósito de criminosos, que a colonização holandesa teria sido preferível à portuguesa. Nem fomos colonizados pela escória de Portugal, nem o Brasil foi valhacouto de delinqüentes, como, sobretudo, a presença holandesa no nordeste foi, a todos os títulos, detestável. Resultados da lusofobia são a debilitação do sentido de identidade cultural dos brasileiros; o desprezo de muitos deles pelo passado nacional; a vergonha das nossas origens; o complexo de inferioridade do brasileiro face ao estrangeiro e a admiração, muitas vezes ingênua, por este; o desprezo do idioma português; o vezo de ridicularizar o país e o povo de que provimos; a debilitação do patriotismo como amor ao país e esforço pelo melhoramento da vida coletiva.

A lusofobia, infelizmente, existe e mantém-se: "1808″ mantém-na e a veicula.

Da leitura do quadro de misérias, cuidadosamente constituído por Laurentino Gomes, não haverá brasileiro que não se sinta entristecido, quiçá revoltado e, certamente, envergonhado das nossas origens e de parte do nosso passado. Felizmente há, no Brasil, livros recomendáveis de autores respeitáveis: Oliveira Lima, Pedro Calmon, o Visconde de Porto Seguro, Rocha Pombo, David Carneiro, Mário Neme, Afonso de Taunay, Capistrano de Abreu e tantos outros.

"1808″ é um livro de leitura fácil, na sua redação intencionalmente singela, vocacionada ao acesso do grande público. É altamente louvável que se redatem livros deste tipo, como forma de se difundir conhecimento e de favorecer o gosto pela leitura, aspecto em que merece todo o louvor. Fácil ou difícil, nada compensa, todavia, o seu maniqueísmo maledicente, a sua parcialidade no critério de seleção das informações e a perniciosidade dos efeitos psicológicos que provocará em muitos leitores. É um livro também ruim pelo seu apelo comercial, visível no seu sub-título, estampado na capa: "Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil".

Na adjetivação patenteia-se, indisfarçavelmente, a lusofobia do autor; o tom bombástico destina-se a suscitar a curiosidade por meio do seu apelo sensacionalista, semelhantemente a uma cartaz comercial ou a um anúncio de telenovela do tipo "Amor e morte; intriga e paixão na novela das 20:00 h.". Um livro a sério não necessita de semelhantes mesquinharias; aliás, um livro a sério repele-as. Amador na área dos estudos históricos, o seu autor qualifica-o, estranhamente, de "investigação jornalística" e jacta-se de haver lido mais de 150 livros que lhe serviram de fontes: com bem menos, outros autores produziram obras que enriqueceram honrosamente o acervo bibliográfico brasileiro.

Recebeu o prêmio Jabuti de 2008, para desprimor do prêmio e para ilusão do público que se deixe impressionar por ele[1]. Contudo, assim como me repugnou o livro, repugnou a outros leitores, que o analisaram com senso crítico. Foi o caso, em Portugal, de Isabel A. Ferreira, Mendo Castro Henriques e João Gomes. Dada a publicação de "1808", Isabel Ferreira reagiu, no mesmo ano (2008) com o seu livreto "Contestação", voltada a refutá-lo e cuja publicação no Brasil corresponde a uma verdadeira premência de saúde pública cultural. Prefaciado por Mendo Castro Henriques e por João Gomes, asserem eles: "O livro de Laurentino Gomes é interessantíssimo do ponto de vista hermenêutico porque acumula quase todos os erros possíveis ao interpretar figuras históricas: falta de contextualização, acumulação de informação não tratada, confusão nos critérios de relevância, teoria explicativa deficiente etc.,etc."

Quem desejar informar-se, a sério, sobre o reinado de D. João VI, a transferência da corte para o Brasil e sua estada cá, lerá, de Patrick Wilckens, "Império à deriva", e "D. João VI", de Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, ambos publicados no Brasil.

[1] O prêmio Jabuti é conferido pelas editoras. Imagine o leitor se, porventura, não haverá, nas atribuições, algum interesse de alguma delas, em promover os livros que publicam...Ninguém será ingênuo ao ponto de julgar que não. Não foi, demais, a primeira vez que aquele galardão distinguiu uma nulidade: foi o caso de "Sociologia Comteana", de Lelita Benoit, que trilhou o mesmo caminho do preconceito e da distorção, com idêntico intuito, o de enxovalhar o tema de que se ocupou, o Positivismo de Augusto Comte. Também foi premiado "JK. O artista do impossível", de Cláudio Bojunga, apreciável biografia do ex-presidente Juscelino de Oliveira, que, todavia, se assinala por um defeito grave, o das abundantes vulgaridades idiomáticas com que pretendeu tornar o seu texto legível pelo vulgo e que o envileceram. Juscelino merecia texto melhor; o Brasil não merece "1808″.

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