Ícone do teatro, Amir Haddad diz que vida cultural do país está sendo esvaziada

Em entrevista à TV 247, o ator e diretor de teatro Amir Haddad, que participou em São Paulo da criação do Teatro Oficina, com Zé Celso, e no Rio fundou o Tá na Rua em 1965, uma das mais importantes companhias de teatro de resistência, conversou sobre sua carreira, resistência e mandou uma mensagem a todos os artistas do país; "Mantenham o tempo de vida de vocês maior do que seja possível, é importante sobreviver", pediu; assista

Ícone do teatro, Amir Haddad diz que vida cultural do país está sendo esvaziada
Ícone do teatro, Amir Haddad diz que vida cultural do país está sendo esvaziada

247 - Ícone do teatro, o ator e diretor Amir Haddad concedeu uma longa e inspiradora entrevista à jornalista Regina Zappa, âncora do programa Estação Sabiá, transmitido pela TV 247 em seu novo estúdio no Rio de Janeiro. Ele conversou sobre a situação da cultura no Brasil e relatou ser tomado pelo pânico ao ver as dificuldades que o setor passa nos tempos atuais.

Um dos fundadores do Teatro Oficina em São Paulo, com Zé Celso, e fundador do Tá na Rua em 1965, uma das mais importantes companhias de teatro de resistência, acredita que o teatro seja um foco de resistência e esperança. "Eu tendo vivido tudo isso ao longo dos meus 60 anos de teatro e vivendo o teatro dessa maneira, você pode imaginar o medo, o pânico, que se apodera de mim quando eu vejo a vida cultural do país sendo esvaziada. No momento, nós somos um foco de resistência, é um lugar de resistência, de manutenção de alguma possibilidade e de alguma esperança, mas a ameaça é muito grande".

Para o diretor, os ataques contra a a arte são, na verdade, ataques contra o povo. "É a nação brasileira que acaba sendo atacada. Costumo dizer que os militares fazem a pátria, os políticos fazem o país, olha o país que estão fazendo, e os artistas fazem a nação. A nação é o afeto do país, é a identidade, identidade afetiva, amorosa e cultural, é tudo, são os artistas que fazem isso".

O artista também conversou sobre fascismo e relatou que seus trabalhos ao longo da vida sempre combateram esta ideologia. "Tudo que eu faço é o antifascismo. Fascismo para mim é uma única verdade, é ser uma verdade só se impondo às outras e destruindo todas, isso é o fascismo. Isso é o contrário do meu trabalho, eu trabalho com uma infinidade de possibilidades humanas, de verdades humanas, administro todas e sobrevivo com elas. Nosso trabalho é uma vitória permanente sobre o fascismo, é uma luta permanente e é uma coisa muito importante. Não poderia sobreviver em uma realidade onde não houvesse possibilidade de manifestações de verdades diferentes uma das outras e capazes de entre elas. O meu trabalho é a prova mais evidente de que isso é possível, desejável e saudável. Esse é o caminho, essa é a resistência".

Ele fez referência a um texto do filósofo Friedrich Nietzsche que afirma que o ser humano matou Deus. Para o diretor, o ser humano fez a mesma coisa com o teatro. "O ser humano matou o teatro e nós continuamos agindo como se o teatro estivesse vivo. É preciso acertar a morte do teatro para saber o que é isso, para ter o renascimento do teatro".

Amir Haddad concluiu mandando uma mensagem a todos os artistas do país. "Acho essencial que cada um de nós tome consciência da sua necessidade de sobrevivência, como artista, como cidadão, como ser humano. Sobreviver é uma questão política, a morte interessa demais aos inimigos e nós não podemos nos entregar a nenhum tipo de morte. O que eu posso falar para os meus amigos da vida cultural é: sobrevivam, sobrevivam. Mantenham o tempo de vida de vocês maior do que seja possível, é importante sobreviver. Não há coisa mais importante para a gente nesse momento do que a nossa sobrevida, um momento em que a morte nos ronda por todos os lados. Então, uma cultura viva, uma postura viva, um comportamento vivo, um estar atento, não se recolher para canto nenhum, não se entregar ao chamado de deitar e dormir que o tempo todo está sendo feito para a gente. Nenhuma depressão, nenhuma tristeza, nenhuma desilusão, nenhuma descrença. Nós somos os responsáveis por mantermos a vida nesse país".

Inscreva-se na TV 247  e assista à entrevista na íntegra:

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