Jerry Adriani foi peça-chave na vida de Raul Seixas

Trecho da biografia de Paulo Coelho, escrita por Fernando Morais, traz um papel revelador do cantor e compositor Jerry Adriani, um dos criadores do movimento musical "Jovem Guarda", no começo dos anos sessenta, que morreu neste domingo 23: o papel que ele teve na carreira de Raul Seixas; confira

Trecho da biografia de Paulo Coelho, escrita por Fernando Morais, traz um papel revelador do cantor e compositor Jerry Adriani, um dos criadores do movimento musical "Jovem Guarda", no começo dos anos sessenta, que morreu neste domingo 23: o papel que ele teve na carreira de Raul Seixas; confira
Trecho da biografia de Paulo Coelho, escrita por Fernando Morais, traz um papel revelador do cantor e compositor Jerry Adriani, um dos criadores do movimento musical "Jovem Guarda", no começo dos anos sessenta, que morreu neste domingo 23: o papel que ele teve na carreira de Raul Seixas; confira (Foto: Gisele Federicce)

Por Fernando Morais, no Nocaute

Morreu Jerry Adriani, peça-chave na vida de Raul Seixas
Morreu hoje no Rio de Janeiro, vítima de câncer, aos 70 anos, o cantor e compositor Jerry Adriani (nome artístico de Jair Alves de Sousa), um dos criadores do movimento musical "Jovem Guarda", no começo dos anos sessenta. Dez anos atrás, quando eu pesquisava para escrever a biografia do Paulo Coelho, Adriani deu um longo depoimento que trazia uma novidade – pelo menos para mim: o papel que ele teve na carreira de Raul Seixas. Da entrevista resultou este trecho do livro

Em outubro de 1967 passava por Salvador o cantor Jerry Adriani, contratado para um show no aristocrático Club Bahiano de Tênis, juntamente com a musa da Bossa Nova, Nara Leão, e com o humorista Chico Anysio. Elevado à condição de estrela nacional pela Jovem Guarda, Adriani era considerado cafona pelos ouvintes mais sofisticados, mas fazia enorme sucesso com o grande público. No dia do espetáculo um funcionário do clube procurou o cantor no hotel com a notícia de que sua participação fora cancelada por uma razão inacreditável:

– A banda que o acompanha tem vários músicos pretos, e no Club Bahiano de Tênis preto não entra.

Era isso mesmo que ele estava ouvindo. Embora desde 1951 estivesse em vigor no Brasil a Lei Afonso Arinos, que qualificava como crime a discriminação racial, "preto não entrava no Bahiano nem pela porta da cozinha", como denunciaria muitos anos depois a canção Tradição, de outro baiano ilustre, o compositor Gilberto Gil. O preconceito adquiria traços ainda mais cruéis por se tratar de um clube instalado na Bahia, um Estado em que mais de 70 por cento da população são negros e pardos. Em vez de chamar a polícia, o empresário encarregado do show preferiu contratar outra banda. A primeira de que se lembrou foi a finada Os Panteras, de Raul Seixas, que nos últimos meses de vida mudara de nome para The Panthers. Localizado em casa durante uma soneca, Raul adorou a ideia de ressuscitar o conjunto e saiu em seguida pela cidade em busca de seus antigos acompanhantes, o baixista Mariano Lanat, o guitarrista Perinho Albuquerque e o baterista Antônio Carlos Castro, o "Carleba", todos brancos. A improvisação acabou dando certo e o The Panthers deixou o palco do clube sob aplausos. No fim do espetáculo Nara Leão cochichou no ouvido de Jerry Adriani:

– Essa banda que te acompanhou é maravilhosa. Por que você não chama esse pessoal pra tocar com você?

Ao ouvir, naquela mesma noite, o convite do cantor para que The Panthers o acompanhasse em uma turnê pelo Norte-Nordeste, a começar na semana seguinte, Raul Seixas ficou eletrizado. Poder excursionar com um artista de projeção nacional, como Jerry Adriani, era uma daquelas bênçãos que o destino não costuma colocar duas vezes no caminho de alguém. Mas ele sabia também que aceitar significava jogar para o alto o casamento com Edith, e isso era uma aposta alta demais. Embora lamentando, teve que recusar o convite:

– Seria uma honra fazer a temporada com você, mas se me ausentar de casa agora, meu casamento acaba na lua-de-mel.

Interessado de verdade na companhia da banda que acabara de conhecer, Jerry Adriani dobrou a parada:

– Se é esse o problema, está resolvido: sua mulher é convidada da produção, leve-a com você na excursão.

Rebatizada pela segunda vez, agora com o nome de Raulzito e os Panteras, a banda saiu pelo Brasil adentro. Além de propiciar ao casal uma viagem divertida e inusitada, a turnê deu resultados tão satisfatórios que no final Jerry Adriani convenceu Raul a mudar-se para o Rio com todo o grupo e se profissionalizar como músico. No começo de 1968 estavam todos instalados em Copacabana para uma aventura que não teria final feliz. Embora tivesse conseguido gravar pela Odeon o LP Raulzito e os Panteras, as dificuldades eram tantas que depois de dois anos o único trabalho que apareceu foi tocar como banda de apoio nos shows do próprio Adriani. Houve momentos em que Raul teve que pedir dinheiro emprestado ao pai para pagar o aluguel da casa em que viviam ele, Edith e os demais componentes da Raulzito e os Panteras. Retornar à Bahia pela porta dos fundos foi um golpe duro para todos e especialmente para Raul, o líder do grupo, mas não havia outra escolha. A contragosto, voltou às aulas de inglês e já dava a carreira de músico como encerrada quando recebeu uma proposta de Evandro Ribeiro, diretor da CBS, para voltar a trabalhar no Rio – não para ser band leader, mas como executivo da área de produção musical. Seu nome tinha sido sugerido à direção da gravadora por Jerry Adriani, interessado que estava em trazer o novo amigo de volta para o eixo Rio-São Paulo, centro da produção musical brasileira. Tentado a acertar as contas com a cidade que o derrotara, Raul não pensou duas vezes. Pediu a Edith que pusesse a mudança num caminhão e dias depois já dava expediente, de paletó e gravata, no poluído centro velho do Rio, onde ficavam os escritórios da CBS. Em poucos meses já era o produtor musical de discos de nomes importantes, a começar do próprio Adriani.

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