“Machado de Assis não é nosso contemporâneo, é nosso póstero”, diz João Cezar

“Eu estou bastante convencido de que, na cultura brasileira, nós nunca aprendemos a lição Machado de Assis, porque nós não queremos aprendê-la”. É com essa frase que o professor de literatura comparada da UERJ João Cezar de Castro Rocha introduz-nos à lição principal que o grande Machado de Assis deixou para a posteridade

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Por Victor Castanho, 247 - Em um bate-papo no vídeo “Machado de Assis: uma lição”, realizado em 15 de abril no canal TV 247, conversei com o professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), João Cezar de Castro Rocha, a respeito de suas acepções do conjunto da obra de Machado de Assis.

O professor diz que “Machado não é nosso contemporâneo: Machado é nosso póstero. Nós ainda não estamos à altura do Machado, precisamos trabalhar muito para ser, de Machado, contemporâneos”.

João Cezar de Castro Rocha é um dos maiores críticos e entendedores da obra machadiana no Brasil, tendo recebido, em 2014, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras de Ensaio Crítica e História Literária por sua obra “Machado de Assis: por uma poética da emulação”. Logo, sua visão a respeito da obra machadiana vem acompanhada de anos de estudo e rigor metodológico, tornando-a ímpar na crítica literária do país.

Na discussão, é revelado um dos aspectos surpreendentes da universalidade da obra machadiana: Machado não era pretensioso no uso da língua, muito menos o era preciosista e parnasiano. Embora isso fique claro a quem o lê, João Cezar desenvolve essa ideia ao dizer que Machado “é o mais coloquial [autor] do século XIX e, ainda hoje, Machado é um dos autores mais coloquiais da língua brasileira”.

Continuando sua explicação, o professor acrescenta que “o autor usa a língua corrente sem nenhuma pretensão de fazer ‘literatura’” e a sua grandeza está no fato de, nas palavras de João Cezar, “[Machado], com recursos mínimos, [produzir] explosões”, como se realmente fosse o “inventor do minimalismo avant la lettre”. Já havia dito Ezra Pound, em seu célebre “How to Read”, que grande literatura nada mais é do que linguagem carregada de significado até o máximo grau possível. Se tomarmos as palavras de Pound e de João Cezar combinadas, é claro que a habilidade de Machado de Assis de utilizar gotas gramaticais para produzir oceanos semânticos torna-o um gigante da literatura universal.

Soma-se a esse carregamento de cada palavra com significado máximo em estruturas gramaticais corriqueiras o fato de Machado de Assis estar em constante diálogo com grandes autores, como o maior dramaturgo de língua inglesa, William Shakespeare. “Não apenas Machado reescreve Shakespeare, mas a partir da leitura de Machado nós compreendemos Shakespeare ainda melhor do que se não tivéssemos lido Machado”, diz o professor. Para ilustrar essa fala, ele compara o conto “A Teoria do Medalhão” de Machado de Assis a uma passagem de “Hamlet” de William Shakespeare.

O conto “A Teoria do Medalhão” é uma obra em que um pai dá conselhos a seu filho, Janjão, que está prestes a entrar na maioridade. O pai orienta Janjão a se tornar um medalhão, homem que não pensa nem faz nada, porém é reconhecido por todos, vivendo apenas da ilusão de grandeza. Sendo medalhão, ou seja, um demagogo charlatão, o pai acredita que Janjão terá as melhores oportunidades na vida. “A ‘Teoria do Medalhão’ é uma reescrita machadiana de uma célebre passagem do Shakespeare”, diz João Cezar, ao que acrescenta que “no ‘Hamlet’, quando Laertes [...] sai para estudar no exterior, seu pai, Polônio, [...] resolve dar conselhos ao filho”. Polônio, porém, aconselha Laertes a se orientar na vida buscando moderação, sem transgressões absurdas como as que o pai de Janjão sugere. Com isso em mente, o professor demonstra que a obra de Machado é uma sátira da obra de Shakespeare, trocando o conselho pelo anti-conselho. “É assim que um grande autor lê a outro grande autor: eles se fecundam mutuamente”, diz João Cezar se referindo a esse fenômeno da intertextualidade.

Não fugindo às polêmicas que cercam a obra Machadiana, porém, o professor também comenta, entre outras coisas, sua visão diante da fala de Felipe Neto a respeito de Machado de Assis, sobre a dinâmica genial desenvolvida por Machado em Dom Casmurro e sobre sua visão diante da suposta traição de Capitu e até sobre o conto “Uma Senhora” e a vaidade humana. O ponto alto, no entanto, é a discussão sobre a lição que Machado de Assis nos deixou em relação ao que significa para sua vida deixar uma obra para a posteridade.

João Cezar nos introduz à lição Machado de Assis dizendo: “eu estou bastante convencido de que, na cultura brasileira, nós nunca aprendemos a lição Machado de Assis, porque nós não queremos aprendê-la. Porque a lição Machado de Assis é bem o oposto do que nós valorizamos no Brasil ainda hoje”. Mas o que é isso que nós valorizamos? A isso João Cezar diz: “Nós valorizamos, no Brasil, o improviso, o brilho fácil, a genialidade, o dom, o caráter espontâneo do que fazemos. Nós consideramos menos importante a disciplina, o rigor, o estudo continuado, o caráter metódico de uma vocação. Nós somos quase levados a pensar que a vocação é mesmo este dom inato que surge sem grande esforço”.

Machado, no entanto, não nasceu gênio: “Machado publica seu primeiro texto na imprensa em 1855, é o poema “Ela”. O primeiro conto virá aos 18-19 anos, “Três Tesouros”. Em nenhuma das produções literárias machadianas percebe-se o gênio no qual ele se tornou”, diz o professor. Então como Machadinho se tornou Machado de Assis? “A lição Machado de Assis é passar a vida inteira trabalhando”, diz, e acrescenta que “na verdade, um artista, um intelectual, um escritor só se tornam relevantes se passarem a vida inteira lutando contra o próprio talento. É preciso lutar contra o talento, porque o talento de fato é um dom, é algo que nos permite realizar alguma coisa com uma facilidade que outras pessoas de fato não possuem. Mas o artista de verdade, o escritor, que deseja de fato contribuir com alguma obra, precisa lutar contra o próprio talento e em lugar de apostar no talento, apostar na disciplina”.

O professor diz que “o talento sem trabalho se repete, se torna repetitivo, se gasta. É por isso que não é incomum, no Brasil, o escritor de um primeiro romance brilhante que não mais se realiza, o compositor de duas músicas notáveis, mas que faltou com a terceira” e acrescenta que “o talento se torna uma mímica de si mesmo, uma paródia do que poderia ser”. Não há uma cultura de disciplina nos estudos no Brasil e isso nos limita na transformação de obras de arte medíocres em obras universais.

O que Machado nos ensina é o rigor, é o ato de estar constantemente lendo e aprendendo para de fato ilustrar a sociedade de forma clara. Depender somente do talento nos torna escravos do que escrevemos e não mestres que fogem ao lugar-comum. Por isso é tão importante a fala de João Cezar quando diz que se “você não entende a lição Machado de Assis, você não entende porque esse país nunca virou nação”. O trabalhar a que João se refere transcende uma lógica burguesa de capital: é um trabalhar focado na produção artística e no entendimento da realidade; é um rigor metódico capaz de levar à especialização criativa que transgride a caixa do talento. De fato, essa é uma lição valiosa de Machado e João Cezar a todos nós.

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