Memória do traço: novo livro de Miguel Paiva é a poesia do traço

Em tempos de linguagens saturadas, de incomunicabilidade, de fascismo extemporâneo, de insegurança política e de péssimos exemplos de conduta ética no exercício do direito (a Vaza Jato), brota no horizonte duas imagens-caminhos alentadores: a caligrafia de Lula e o traço de Miguel Paiva

Por Gustavo Conde, para o 247 - Em tempos de linguagens saturadas, de incomunicabilidade, de fascismo extemporâneo, de insegurança política e de péssimos exemplos de conduta ética no exercício do direito (a Vaza Jato), brota no horizonte duas imagens-caminhos alentadores: a caligrafia de Lula e o traço de Miguel Paiva. 

O fundador do Brasil real, soberano e moderno – esse já saudoso Brasil – nos brinda diariamente com suas cartas manuscritas, que encantam pela humanidade dos sentidos e dos afetos mas também pelo capricho artesanal, um mundo à parte de delicadeza. As cartas manuscritas de Lula são capítulo único de nossa iconografia histórica. Sua dimensão requer os cuidados de uma curadoria zelosa e plena de responsabilidade crítica.

O traço, da escrita ou do desenho, tem esse poder: ele ativa o conjunto dos afetos. É a dimensão correlata do timbre, a impressão digital, o humano, a singularidade. 

Miguel Paiva e sua arte visual subscrita na sutileza crítica de costumes emana poder semelhante em sua profusão de traços. Há o afeto, o zelo, o capricho, a poesia, mas há também a linguagem. 

O criador de Radical Chic criou uma linguagem num tempo em que se criava linguagens – e não se as matava. É essa memória que ele ativa quando retorna à cena editorial com uma publicação repleta de histórias e pequenas delicadezas. 

As linhas sinuosas de Miguel Paiva se confundem com a história de um Brasil que aprendeu a sonhar diante da redemocratização. Elas ativam esse momento como um cheiro ativa uma lembrança. 

É por isso que o traço de Miguel é urgente. É por isso que sua inteligência poética é necessária. É por isso que suas personagens, consagradas no tempo, parecem também chorar e clamar por um país um pouquinho melhor do que este que nos aponta armas e insultos. 

Radical Chic e o Gatão de Meia Idade jamais se curvariam à estética fascista que nos pegou a todos de surpresa mas que, a bem da verdade, não foi surpresa nenhuma, constatada a ganância dos veículos de comunicação que patrocinaram com gosto o recrudescimento do discurso de ódio que nos tem a todos sequestrados, seja pela repulsa, seja pelo medo. 

Miguel é a libertação possível desse momento presente. Sua arte nos remete à memória da luta pela democracia, da luta pela conciliação soberana, da eterna batalha para a construção de um país, de uma identidade, de um projeto, de uma cultura em movimento. 

O lançamento de seu livro ‘Memória do Traço” é um acontecimento. É um mergulho no que há de melhor em nossa cultura, em nossa literatura, em nossa arte pictórica e em nosso desejo resiliente por sentidos estéticos e afetuosos. 

Nunca antes na memória deste país um cartunista foi tão necessário. Salve, Miguel. 

MEMÓRIA DO TRAÇO – MIGUEL PAIVA

Quando Lançamento no 31/7 (quarta), às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon

Preço R$ 79 (336 págs.)

Autor Vitor Paiva

Editora Chiado Books

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