Milton Hatoum toma posse na ABL e diz que 'não vivemos apenas no real, mas também no imaginário'
O escritor sucede o jornalista Cícero Sandroni e tornou-se o primeiro representante do Amazonas na instituição
247 - O ingresso de Milton Hatoum na Academia Brasileira de Letras (ABL) marcou um momento simbólico para a literatura nacional, com a valorização da imaginação e do papel da arte na sociedade. A cerimônia ocorreu nesta sexta-feira (24), no Rio de Janeiro. Os relatos foram publicados pelo jornal O Globo.
O escritor sucede o jornalista Cícero Sandroni, que morreu em junho do ano passado. Hatoum assumiu a cadeira 6 da ABL, tornando-se o primeiro representante do Amazonas na instituição. Durante a solenidade, Hatoum agradeceu o reconhecimento e destacou a importância de quem acompanha sua obra.
“Fico muito grato a todos da Academia que me elegeram. É uma homenagem sobretudo aos meus leitores e leitoras, aos professores e professoras, não só da Amazônia, mas de todo o Brasil. São pessoas que trabalharam e trabalham com meus livros”, afirmou.
Trajetória literária consolidada
Hatoum construiu uma carreira com nove livros de ficção, além de coletâneas de contos e crônicas. Entre suas obras mais conhecidas estão "Relato de um certo Oriente", "Cinzas do Norte" e "Dois irmãos". Seus livros já ultrapassaram 500 mil exemplares vendidos em 17 países.
Em 2025, o autor concluiu a trilogia "O lugar mais sombrio", formada pelos títulos "A noite da espera", "Pontos de fuga" e "Dança de enganos". As obras abordam conflitos familiares ligados ao período da ditadura militar brasileira, entre as décadas de 1960 e 1980.
Discurso destaca literatura e imaginação
Em seu discurso de posse, Hatoum refletiu sobre o papel da literatura na experiência humana. "Enquanto houver a vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas, lidas e ouvidas", afirmou. Ele também ressaltou a importância do imaginário. “Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva. Na experiência mística. Vivemos também no devaneio”.
O escritor acrescentou reflexões sobre a relação entre leitores e obras literárias. “a humanidade não pode suportar tanta realidade como diz o famoso poema de Eliot”. “Um dos meus devaneios é imaginar um punhado de leitores anotando os mesmos trechos de um livro. Isso acontece nas manhãs nada inspiradas, em que busco alguns livros, frases sublinhadas, imagino leitores sublimando as mesmas passagens do romance ‘A hora da estrela’, os mesmos versos de um poema de João Cabral, com esta frase de um conto de Guimarães Rosa: ‘Só sabemos de nós os mesmos com muita confusão’".
A posse reforça a presença de vozes diversas na Academia e destaca a relevância da literatura brasileira no cenário cultural contemporâneo.


