“Miúcha queria ser cantora, mas casamento foi ponto de virada”, diz autora de filme sobre a artista

"Miúcha, a voz da Bossa Nova” é uma produção franco-brasileira que conta a saga da cantora e “anti-musa da Bossa Nova”

www.brasil247.com - Cantora Miúcha
Cantora Miúcha (Foto: TV Brasil)


Maria Paula Carvalho, da RFI - Mulher de João Gilberto, aluna de Vinícius de Moraes, irmã de Chico Buarque, companheira de Tom Jobim. A cantora Miúcha conviveu com todos os grandes nomes da música brasileira e sua vida pode ser vista como um testemunho do surgimento da Bossa Nova. Mais do que isso, retrata a luta de uma mulher para conquistar o sonho de ser artista e que precisa enfrentar os obstáculos de uma sociedade machista.

Esse é o enredo do documentário assinado pelos diretores Liliane Mutti e Daniel Zarvos, que deram entrevista à RFI Brasil em Paris, onde moram. “Miúcha, a voz da Bossa Nova” é uma produção franco-brasileira que conta a saga da cantora e “anti-musa da Bossa Nova”, como definem os autores. Com cenas que se passam entre Nova York, Paris, México e Rio de Janeiro, este “road movie” costura imagens de arquivo, cartas, diários e fitas cassete para contar os percalços de Miúcha, apelido de Heloísa Maria Buarque de Hollanda, uma mulher latino americana, para se firmar no showbiz internacional.

Miúcha tinha 24 anos quando embarcou para Paris de navio, cidade onde frequentou a cena efervescente do boêmio Quartier Latin. “Ela veio para Paris com o sonho de ser cantora, mas o amor e o casamento foram um ponto de virada”, diz Liliane Mutti. “Ela começa cantando na rua, era uma mulher irreverente”, completa. “A Miúcha era uma garota que veio a Paris estudar história da arte, mas também foi uma forma de se libertar de uma família que, apesar de seu envolvimento político, social e cultural, tinha características conservadoras”, explica Liliane.

“A Miúcha era a mais velha de uma família de sete irmãos, ela é irmã do Chico Buarque, mas de outros artistas, como a cantora Ana de Hollanda. A mãe da Miúcha, a Maria Amélia, costumava dizer para a filha: ‘se você sonha em ser cantora, você tem de ser uma [Edith] Piaff’. Mas a Miúcha queria cantar Bossa Nova, era mais ligada à praia, ao corpo, à alegria e não à dramaticidade”, contextualiza a diretora.

Diário íntimo

Neste primeiro filme autobiográfico da cantora, a história pública e íntima se cruzam. “O encontro com João Gilberto se dá em Paris. Ela cantava num barzinho e os dois foram apresentados por um amigo argentino. Mas, no início, o encontro ‘não deu liga’ nenhuma”, conta Daniel Zarvos.

“O João convida a Miúcha para morar em Nova York. No início ela hesita. Mas quando ela vai para os Estados Unidos, eles se casam, têm a filha Bebel Gilberto, mas ela já era amiga de todos os cantores da Bossa Nova. Todo o repertório escolhido para um disco é visto dentro da casa, a perspectiva feminina, esse grito dela de ser cantora que ficou preso, por isso a voz da Bossa Nova”, explica Mutti, que vai ainda mais longe. “Eu tenho plena convicção de que a gente pode realmente duvidar se existiria o João Gilberto sem a Miúcha”, questiona.  

“Ela tinha um conflito constante entre o seu desejo e o que era esperado dela”, completa Zarvos, acrescentando que o filme levou 10 anos para ser realizado. “São os arquivos dela, o filme do casamento, e de outros artistas que nós recuperamos e fizemos uma colcha de retalhos para contar a história”, acrescenta.

O documentário tem narração da própria Miúcha, intercalada com a voz da sobrinha dela, a atriz Sílvia Buarque. “O filme tem um recorte temporal que se passa entre os anos 1960 e 1970”, conta Liliane Mutti. “A Sílvia lê as cartas e diários da tia, em que Miúcha escreve com o útero”, diz, acrescentando que a cantora brasileira conviveu com a escritora francesa Simone de Beauvoir e “sabia que tinha um papel no feminismo”.

“A Sílvia Buarque tinha mensagens de áudio da Miúcha guardadas no telefone celular e ela as escutou para encontrar o tom da voz da tia”, conta Liliane, que dirigiu a atriz à distância, de Paris, em plena pandemia.

O filme será exibido no festival Internacional de Cinema de Toronto e também será exibido, fora de competição, no Festival do Rio. “Somos o único documentário brasileiro no festival de Toronto, que reúne 20 filmes selecionados de um total de 700 inscritos”, afirma Daniel Zarvos.

Miúcha morreu de parada respiratória, em 27 de dezembro de 2018, no Rio de Janeiro. “A ideia é manter a Miúcha viva e, através dela, cada mulher que sonhou em ser artista pode se reconhecer, pois o lugar da mulher na sociedade ainda hoje não é o mesmo lugar de privilégio dos homens”, conclui a diretora do filme.

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