Morre Noca da Portela, ícone do samba, aos 93 anos
Compositor de mais de 500 canções estava internado no Rio de Janeiro para tratamento de um tumor de próstata
247 - O compositor Noca da Portela morreu neste domingo (17), aos 93 anos. O sambista estava internado havia uma semana no Hospital Memorial São Cristóvão, no Rio de Janeiro, onde realizava tratamento contra um tumor de próstata.
Reconhecido como um dos grandes nomes do samba carioca, Noca da Portela construiu uma trajetória marcada pela composição de clássicos do samba e pela forte ligação com a Portela. Ao longo da carreira, escreveu mais de 500 canções e se consolidou como um dos baluartes da música popular brasileira.
Entre seus sucessos mais conhecidos está “É Preciso Muito Amor”, composição que ajudou a projetá-lo nacionalmente e ampliou seu reconhecimento para além das rodas de samba e das comunidades cariocas. A música se tornou uma das marcas de sua carreira e atravessou gerações de admiradores do samba.
Antes da confirmação da morte, a família havia informado nas redes sociais do artista que ele seguia hospitalizado e recebendo acompanhamento médico. “Seu quadro é estável e ele segue assistido por uma equipe profissional dedicada”, dizia a nota publicada nos perfis oficiais do sambista.
Além da atuação na música, Noca também teve passagem pela vida pública. Em março de 2006, foi nomeado secretário estadual de Cultura do Rio de Janeiro pela então governadora Rosinha Garotinho, permanecendo no cargo até janeiro de 2007.
Nascido e criado no universo do samba, Noca da Portela deixa um legado profundamente ligado à cultura popular brasileira. Ele teve quatro filhos e foi casado por mais de 50 anos com Dona Conceição, figura frequentemente lembrada por amigos próximos do compositor.
Trajetória e militância
Em entrevista à CartaCapital, sambista relembrou sua trajetória na Portela, critica os “escritórios” do carnaval e celebrou reconhecimento após mais de sete décadas dedicadas ao samba.
Nascido em Leopoldina, Minas Gerais, Noca mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro e construiu sua trajetória artística entre os morros e rodas de samba da capital fluminense.
Ao recordar sua chegada à Portela, nos anos 1960, o sambista contou que precisou provar seu talento antes de ser aceito na ala de compositores da escola de Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio.
“Para concorrer com samba-enredo, naquela época, o sambista tinha que saber fazer samba de terreiro para provar que era compositor”, afirmou.
Durante a entrevista, Noca lamentou o enfraquecimento da tradição dos sambas de terreiro — posteriormente chamados de sambas de quadra — e criticou o modelo atual das disputas de samba-enredo, marcado pela presença dos chamados “escritórios”, grupos que financiam e organizam candidaturas em várias escolas.
“Hoje, todo mundo ia ser reprovado. Samba-enredo acabou a tradição. É uma coisa horrorosa. O cara leva a sinopse do samba-enredo ao escritório e consegue intérprete, torcida, ônibus – o cara entra na parceria e não sabe fazer nada. Se o samba-enredo ganhar divide a grana”, declarou.
Com sete sambas-enredo vencedores na Portela — um recorde na escola —, Noca também teve atuação política ao longo da vida. Foi militante do PCB e compôs músicas de caráter engajado, como “Virada”, eternizada na voz de Beth Carvalho durante o movimento das Diretas Já.
“O samba é a identidade do Brasil no mundo inteiro”, disse. “Não sou produto de mídia. Minha história foi escrita com samba, suor e lágrima”.
