Mostra periférica reúne artistas na Fundação Julita, em São Paulo
Evento gratuito nos dias 27 e 28 de fevereiro apresenta obras inéditas de residentes da Zona Sul e reforça o acesso à arte e à cultura no território
247 - A Fundação Julita recebe, nos dias 27 e 28 de fevereiro, a Mostra Artística Periférica (MAP), evento gratuito que apresenta ao público os trabalhos desenvolvidos por Mariane Nunes, Leandro Celestino e Armr’Ore Erormray durante o Programa de Residências Artísticas Periféricas. A iniciativa integra o projeto Formações Artísticas Periféricas, realizado pelo Instituto Arte na Escola, com apoio institucional da Fundação Julita.
O projeto tem como objetivo fortalecer a produção artística na periferia da Zona Sul de São Paulo, ampliando o acesso à arte, à cultura e à educação de qualidade. Segundo Pedro Ermel, supervisor da iniciativa, a proposta reconhece e valoriza a potência criativa do território. “O projeto é uma iniciativa que reconhece a potência criativa das periferias e cria condições concretas para que artistas desenvolvam seus processos com tempo, acompanhamento e recursos. O impacto social do projeto está justamente em fortalecer vínculos com o território e ampliar o acesso da comunidade à produção artística”, afirma.
Os três artistas foram selecionados por meio de uma convocatória que reuniu mais de 100 inscrições de criadores da região. Entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, participaram de processos formativos voltados ao aprofundamento de pesquisas, à experimentação de linguagens e ao desenvolvimento de novas obras. Cada residente apresenta na mostra um trabalho inédito, concebido especialmente para o projeto.
Além das obras principais, a programação inclui apresentações de DJ, shows e oficinas ao longo dos dois dias. O evento é aberto ao público e busca envolver crianças, jovens e adultos da região e de outros bairros da cidade. Todos os artistas participantes — tanto residentes quanto convidados — são da Zona Sul de São Paulo, reforçando a valorização da produção cultural local.
Entre os destaques está a performance de Armr’Ore Erormray, ator, arte-educador e DJ, que apresenta uma criação cênica em dupla, com sonoplastia de Alexys Agosto. A obra dialoga com dança e instalação, investigando o corpo como território de metamorfose e abordando questões como gênero, transgeneridade e transição. “Tive a oportunidade de dialogar com outros artistas, criar e me desenvolver artisticamente. Todo o apoio oferecido tornou possível a realização de um sonho, que era dar vida a essa performance”, afirma. O artista também ressalta os desafios técnicos enfrentados, como a elaboração de cenografia com bioplástico, e compartilha a expectativa para a apresentação: “Espero que seja um espaço de troca, que gere reflexões, sentimentos positivos e força nas pessoas”.
No campo das artes visuais, Leandro Celestino apresenta uma instalação que combina pintura e escultura a partir de miniaturas aplicadas sobre suportes em MDF. Desenvolvida especialmente para o espaço da Fundação Julita, a obra propõe reflexões sobre a desigualdade social como realidade histórica e estrutural vivida nas periferias. “Essa foi minha primeira residência artística e tem sido uma experiência de ampliação de repertório e intensa experimentação”, explica. Ele destaca ainda o desafio de pensar a escala da instalação em um ambiente amplo sem comprometer o silêncio necessário à contemplação. “A maior conquista foi ver o projeto concretizado em um ambiente que dialoga com a proposta e com o território. Espero que a mostra provoque algum incômodo e permaneça na memória das pessoas. A indiferença é a pior reação”, completa.
Já a cineasta e artista visual Mariane Nunes apresenta “Mandingas do Cotidiano”, série fotográfica experimental que investiga a relação da população negra com identidade e ancestralidade, utilizando fotografia analógica e processos como a fitotipia. “Encontrar um espaço que valoriza a formação, a experimentação e que está no meu território foi fundamental, trouxe uma forte sensação de pertencimento”, afirma. A artista destaca que a residência permitiu mudanças significativas no projeto inicial e aprofundamento nas práticas analógicas. “O imprevisto, o risco do erro e a falta de controle absoluto fazem parte do trabalho. Cada falha e cada textura criam imagens únicas”, observa.
A parceria entre o Instituto Arte na Escola e a Fundação Julita reforça o reconhecimento da força criadora e educativa das periferias paulistanas, valorizando artistas, educadores e agentes culturais que atuam em seus territórios por meio da arte. O projeto conta com patrocínio de VR, Cyrela e Instituto Cyrela, e é viabilizado pelo PROMAC – Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e do Governo do Estado de São Paulo.