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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades: o soneto de Camões que antecipa a crise histórica de Portugal e segue atual

Poema revela desencanto do maior poeta da língua portuguesa diante da decadência do império e da instabilidade do mundo

Retrato de Luis de Camões (Foto: Wikimedia Commons)

247 – O soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, de Luís de Camões, é um dos textos mais emblemáticos da poesia em língua portuguesa e sintetiza, com rara precisão filosófica, o sentimento de impermanência e crise que marcou o século XVI. Escrito na maturidade do poeta, após sua experiência no Oriente e em meio ao desgaste do império português, o poema transcende o lirismo amoroso e assume dimensão histórica, existencial e política.

A composição integra a lírica camoniana e reflete o período em que Portugal, embora ainda ostentasse poder ultramarino, já apresentava sinais evidentes de decadência administrativa, corrupção nas colônias e instabilidade institucional. Poucos anos depois da publicação de Os Lusíadas, em 1572, o país perderia sua independência para a Espanha, em 1580 — o mesmo ano da morte de Camões.

A experiência oriental e o desencanto

Camões passou cerca de 17 anos no Oriente, tendo vivido em Goa, na Índia, e Macau, na China, onde enfrentou prisões, conflitos políticos e dificuldades financeiras. A vivência direta com o aparato imperial revelou-lhe não apenas a grandeza das navegações, mas também a degradação moral que corroía o projeto expansionista português.

É nesse contexto que versos como:

“Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades”

ganham força histórica. O poeta não fala apenas da mutabilidade da vida, mas de uma transformação estrutural do próprio tempo histórico.

O soneto expressa a consciência de que o império que outrora representara glória e expansão começava a revelar suas fragilidades internas.

A filosofia da impermanência

A base conceitual do poema dialoga com a tradição clássica, especialmente com a ideia atribuída a Heráclito de que tudo flui. No entanto, Camões acrescenta uma camada melancólica que aponta para o desgaste da esperança:

“Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança”

Aqui, a novidade não é sinônimo de progresso. Ao contrário, representa frustração. A mudança deixa de ser promessa de renovação e passa a ser experiência de perda.

O segundo quarteto aprofunda esse sentimento:

“Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades”

O parêntese irônico — “se algum houve” — sugere dúvida quanto à existência real do bem, reforçando o tom de desencanto que atravessa o poema.

O tempo como força histórica

Na terceira estrofe, Camões usa a imagem da natureza:

“O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria”

A metáfora sugere ciclos naturais, mas o verso seguinte desloca a reflexão para o plano subjetivo:

“E em mim converte em choro o doce canto”

O “doce canto” pode ser entendido como a juventude, o amor ou até mesmo a própria poesia épica. O poeta que celebrara os feitos heroicos agora reconhece a fragilidade da condição humana diante do tempo.

A ruptura mais profunda

Os versos finais são considerados por estudiosos como o ponto mais sofisticado do soneto:

“Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía”

A afirmação sugere que não é apenas o mundo que muda — a própria natureza da mudança se transformou. Trata-se de uma percepção aguda de ruptura histórica.

A ordem antiga, ainda que imperfeita, dava lugar a um cenário de instabilidade estrutural. A mudança deixa de obedecer a ciclos reconhecíveis e passa a representar desorganização, crise e imprevisibilidade.

Atualidade de um clássico

Mais de quatro séculos depois, o soneto permanece atual. Em um mundo marcado por transformações aceleradas, crises políticas e rupturas institucionais, a reflexão camoniana sobre o tempo e a instabilidade continua ressoando.

Camões, que morreu pobre em Lisboa em 1580, não testemunhou apenas a transição política de Portugal, mas antecipou, em sua lírica, o drama de uma civilização que via sua grandeza se transformar em incerteza.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” não é apenas um poema sobre o amor ou a passagem dos anos. É um retrato da crise histórica e da consciência humana diante da impermanência.

E talvez seja justamente por isso que segue tão vivo. Abaixo, o poema completo:

Mudam-se os Tempos, mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.