Não deixe a democracia morrer

O episódio ocorrido no salão do STF em que Cármen Lúcia e Raquel Dodge cantam a canção "Não Deixe o Samba Morrer", composta em 1974 por Edson Gomes da Conceição e Aloísio Silva, em companhia da cantora Alcione chamou a atenção do músico e linguista Gustavo Conde, que publicou uma análise semiótica da letra da canção em seu blog à luz da presente situação política; para Conde, a letra da canção entoada pela presidente do Supremo representa um pedido de socorro do povo brasileiro: não deixe a democracia morrer

Não deixe a democracia morrer
Não deixe a democracia morrer

247 - O episódio ocorrido no salão do STF em que Cármen Lúcia e Raquel Dodge cantam a canção "Não Deixe o Samba Morrer", composta em 1974 por Edson Gomes da Conceição e Aloísio Silva, em companhia da cantora Alcione chamou a atenção do músico e linguista Gustavo Conde, que publicou uma análise semiótica da letra da canção em seu blog à luz da presente situação política. Para Conde, a letra da canção entoada pela presidente do Supremo representa um pedido de socorro do povo brasileiro: não deixe a democracia morrer.

Leia a íntegra do ensaio de Gustavo Conde, publicado originalmente em seu blog

O grotesco não raro é seguido por repulsa e fascínio. François Rabelais consagrou os sentidos do grotesco com seus romances cômicos Pantagruel, de 1532 e Gargântua, de 1534. A escatologia é engrenagem importante na dicção de Rabelais e ele representa um divisor de águas para os estudos do humor. 

O filósofo e ensaísta russo Mikhail Bakhtin fez uma análise clássica da obra do padre e escritor francês, traçando paralelos importantes entre o imaginário rabelaisiano e a cultura popular na idade média. Rabelais é fundamental para se entender a civilização e suas pulsões suicidas de aniquilação do sentido, bem como as cifras de sobrevivência e resistência subscritas no relato do absurdo. 

Lembrei de Rabelais ao ver a cena em que Cármen Lúcia e Raquel Dodge cantam a canção popular “Não Deixe o Samba Morrer” ao lado de Alcione em uma das antessalas do STF. É assaz emblemático, seja como um estudo de caso, seja para o país de maneira geral e política.

Destaque-se que, enquanto as autoridades da república cantavam desajeitadamente um dos refrões mais populares do samba, sete manifestantes brasileiros agonizavam próximos ao STF, nos seus mais de 21 dias em greve de fome pelo julgamento da ação de constitucionalidade da prisão em segunda instância – que poderia libertar Lula. 

Ação esta, diga-se de passagem, postergada pela mesma ministra que ali cantava quase que em estado de êxtase “Não Deixe o Samba Morrer”. 

O grotesco rabelaisiano se aplica a esta cena, a esta conjunção de elementos sobrepostos, contrários e absurdos. Não apenas pelo grotesco, mas pelo que a cena deixa vazar através da letra da canção entoada por um poder judiciário apodrecido. 

“Não Deixe o Samba Morrer” não é de autoria de Alcione. Trata-se de um samba composto em 1974 por dois modestos compositores baianos radicados em São Paulo, Edson Gomes da Conceição e Aloísio Silva. 

A letra é bem apropriada para o nosso momento político, momento este que começa a desembocar em um possível renascimento da democracia, através da resiliência eleitoral do maior líder popular do país. 

Tem tudo a ver com ‘samba’ e com ‘deixar o samba morrer’. O samba, bem dito, como expressão máxima da cultura popular brasileira está fortemente conectado à ideia de democracia. Samba, por assim dizer, é quase sinônimo de democracia, no poder e na energia social que ele põe em movimento.  

O samba é negro, o samba é pobre, o samba é trabalhador. O samba sofre, o samba grita, o samba morre na sarjeta e ressuscita no morro. O sambista é o mais brasileiro dos brasileiros. Ele dá sua vida pelo samba, ele desnuda o peito na avenida, ele explode de alegria para depois agonizar no sistema escravocrata que lhe rende alguns trocados – para, então, voltar ao samba e afogar suas mágoas em meio a vis dinheiros e uma caixinha de fósforo. 

Este samba nada tem de conexão com aquele desfile imóvel e quadrado, tão improvável quanto intragável, encenado em plena casa máxima do poder judiciário. Se foi marketing para humanizar a confraria preposta judicial do golpe, devo dizer que fracassou. Mais que isso: o sentido possível ali foi o exato contrário. 

Tudo é tão inacreditável e, a rigor, pitoresco, que não é trivial traçar uma temática adequada para imortalizar o que deveria ser para sempre esquecido. Há relatos, por exemplo, de que Alcione tem várias pendências na justiça por calote a músicos e há um registro concreto de que ela foi instada pela justiça a pagar indenização ao filho do Cartola por injúria. São muitas referências cruzadas da insustentável pobreza do ser. 

Elejo, no entanto, como caminho temático, a via da redenção e da revelação. Quem enunciou aquele samba através daquelas bocas flácidas, aboletadas no monumento ao acovardamento – que é o STF –, foi o povo. Foi o povo e foi Lula, as verdadeiras instâncias populares, investidas de ritmo, cadência e verdade. 

A letra da dupla Edson Gomes da Conceição e Aloísio Silva é a expressão do nosso impasse político-eleitoral, provocado pelos maus perdedores que insistem em levar o pandeiro e o tamborim para casa. 

O refrão apresenta um clamor de emergência: o samba corre o risco de morrer. Ele se mistura ao povo (o morro é o povo, que ‘é feito de samba’) e se condensa em um gesto amplo, materializado no verbo ‘sambar’. 

O clamor do eu cancional, portanto, pede para que não se interrompa a ação, a ação que é ‘sambar’, pois ela é definidora da existência – ‘sambar’, nesse sentido, é sinônimo de ‘viver’ e, tal é a força desta relação de sinonímia, que a ‘morte’ invade o território da ação como antissujeito:  

Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De samba pra gente sambar 

A partir desta ‘mola’ semiótica singular de um samba que começa inusitadamente pelo seu próprio clímax (o refrão), a extensão narrativa da canção se projeta no relato pessoal-passional de um sambista-vivente que está pressionado pelo tempo: ele envelhece e antecipa seu envelhecimento lamentando sua futura ausência na ‘avenida’: 

Quando eu não puder
Pisar mais na avenida
Quando as minhas pernas
Não puderem aguentar 

As pernas ainda jovens que sustentam e dão mobilidade ao eu cancional tomado pela dor e a alegria de pertencer ao universo do samba (que necessita tanto da voz quanto das pernas e mesmo da jovialidade para continuar a sambar) são projetadas em um futuro certo que lhes trará fraqueza e paralisia. A senha semiótica aqui é o tempo como toxina do movimento passional do samba. A letra prossegue:

Levar meu corpo
Junto com meu samba
O meu anel de bamba
Entrego a quem mereça usar 

O corpo se funde ao samba e ocorre o primeiro gesto de transmutação desse eu cancional: ele quer-vai passar o bastão (‘o meu anel de bamba entrego a quem mereça usar’). O sambista anuncia que vai continuar sambando, mas através de outro corpo, pois o seu corpo não aguenta mais. 

O rito de passagem e de transmutação é representado pelo ‘anel de bamba’, um elemento concreto que dá legitimidade às práticas sociais de co-representação. O anel vai significar a presença do velho sambista no novo sambista que, por sua vez, tem que ‘merecer’ a deferência. A letra avança:  

Eu vou ficar
No meio do povo espiando
A Mangueira perdendo ou ganhando
Mais um carnaval 

O velho sambista abdica do protagonismo e se junta ao povo, tomando uma posição de mero observador ao espetáculo do samba. Faz isso restituindo a si mesmo um processo de rotina e de normalidade, em que não importa perder ou ganhar, mas sim ver passar o carnaval. Há ares de despedida magnânima por parte desse eu que, experimentou um dia a força do samba como elemento irradiador de sua energia vital. 

Há uma disjunção, que não é amorosa, mas é visceral: o samba deixa um corpo para se tornar um conceito e um vetor de contemplação. 

Antes de me despedir
Deixo ao sambista mais novo
O meu pedido final 

O tom de despedida dramática é tão forte que ela se materializa lexicalmente (‘antes de me despedir’), não sem introduzir um último desejo deste sambista que já viveu muito diante de seu alter ego jovial. A interpelação é tão intensa que ele tem que repetir: 

Antes de me despedir
Deixo ao sambista mais novo
O meu pedido final 

Para, então, finalmente, retomar o refrão introdutório, mas agora com a densidade avassaladora da história pessoal e humana de alguém que entregou sua vida ao samba. 

Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De Samba, pra gente sambar 

A canção tem uma segunda parte, mas a imensa força dela se concentra neste conjunto aqui arrolado. O recado, por assim dizer, foi dado. Torna-se, mesmo, mais forte, produzindo com a brevidade de uma dor derradeira que atravessa um eu cancional tão complexo, pleno de emoções transversais, projeções subjetivas sob o signo da ausência e fusões semânticas e conceituais. 

O samba se transforma em povo que se transforma em espólio que se transforma rito que se transforma em vida que segue. 

Não há condições legais ou jurídicas de personagens como Cármen Lúcia cantarem tal obra prima. Data vênia é preciso humanidade para entoar esta letra. 

Concluo o breve passeio semiótico por esta bela canção popular, evocando um salto narrativo cinematográfico que se torna essencial para chegarmos a um termo. 

No filme ‘As Aventuras de Pi’, de Ang Lee, o narrador conta sua história a um escritor. A história, no limite do verossímil, equilibrava-se entre literalidades e metáforas, equilíbrio esse que caracteriza o grande mecanismo discursivo responsável pela História com H maiúsculo. 

Ao final da contação extremamente cativante porque mesmo inverossímil (já que narra a história do convívio em um bote salva-vidas à deriva habitado também por um tigre-de-bengala), o educado ouvinte-escritor formula uma tese e questiona seu interlocutor: tais animais naufragados seriam apenas personagens fantasísticos presentes na imaginação prodigiosa da mente narrativa daquele indiano genial. 

O ex-náufrago-narrador responde que não importa. E que aquele efeito entre o verossímil e o inverossímil é o segredo linguístico que torna possível acreditar em Deus. 

O filme é belíssimo e enseja reflexões filosóficas com extrema delicadeza. 

Meu interesse em evocá-lo, no entanto, não tem nada a ver com Deus. Tem a ver com política, com Brasil, com intepretação de texto e com as delícias do imponderável. 

Retomem a análise semiótica da canção. Relembrem dela por um segundo. 

Pois bem. 

O samba é a democracia, o sambista é o Lula e o ‘novo sambista’ é um tal de Fernando. 

Inscreva-se na TV 247 e assista abaixo Cármen Lúcia cantando samba no STF na montagem do documentarista Celso Maldos. 

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