O detalhe no desfile da Portela que gerou pedido de esclarecimento da Anac
A agência solicitou à escola informações
247 - A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) notificou a escola de samba Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) pelo uso de um drone tripulado durante o desfile da agremiação no Sambódromo. As informações foram divulgadas pela CNN Brasil.
O equipamento foi utilizado na apresentação da comissão de frente da escola de Oswaldo Cruz, na zona norte do Rio, e transportou um integrante do grupo cênico em um sobrevoo de cerca de 40 segundos. Ao todo, o chamado “superdrone” foi acionado quatro vezes ao longo do desfile, sobrevoando um tripé alegórico e os demais bailarinos na Avenida Marquês de Sapucaí.
Segundo a Anac, o transporte de pessoas, animais e artigos perigosos em drones é "expressamente proibido". A agência solicitou à escola informações detalhadas sobre o aparelho, incluindo modelo, número de série, comprovação de registro e identificação do piloto remoto responsável pela operação. A Portela terá prazo de dez dias para prestar esclarecimentos.
Em nota, o órgão regulador reforçou que a operação de aeronaves não tripuladas no Brasil é regida pelo Regulamento Brasileiro de Aviação Civil nº 94 (RBAC-E nº 94), que veta expressamente o uso de drones com tripulantes. A norma também determina que "o piloto não pode, em hipótese alguma, colocar vidas em risco", além de exigir distância horizontal mínima de 30 metros de estruturas que possam ser atingidas.A agência destacou ainda que há "risco de acidentes, inclusive fatais" em operações desse tipo.
Até o momento, nem a Portela nem a Liesa haviam se manifestado publicamente sobre a notificação.O drone utilizado na apresentação é um modelo de grande porte, equipado com oito hélices e múltiplas baterias de alta capacidade, cuja autonomia de voo chega a cerca de cinco minutos. Após cada apresentação, o equipamento retornava ao tripé alegórico para substituição ou recarga das baterias.A performance integrou o conceito teatral da comissão de frente e foi repetida diante das diferentes torres de jurados espalhadas pela Sapucaí, como prevê a dinâmica dos desfiles do Grupo Especial.
No enredo deste ano, a Portela abordou a presença e a resistência da população negra no Rio Grande do Sul. O personagem transportado pelo drone representava o Negrinho do Pastoreio, figura central do folclore gaúcho. Na narrativa apresentada pela escola, o voo simbolizava a libertação do personagem, após sofrer violências durante o período da escravidão.
A lenda conta que o menino, escravizado e castigado após o desaparecimento de um cavalo, teria sido abandonado em um formigueiro. Posteriormente, seria visto curado ao lado da Virgem Maria, tornando-se uma entidade “encantada” invocada para encontrar objetos perdidos — papel semelhante ao atribuído a São Longuinho na tradição católica.
A proposta da escola foi reinterpretar esse mito, apresentando a “libertação” do personagem como símbolo de resistência e denúncia das violências históricas sofridas pela população negra no Sul do país. Agora, a apresentação também passa a ser analisada sob o aspecto regulatório, após o questionamento formal da autoridade de aviação civil.