‘O dia em que o morro descer e não for Carnaval’, a gente faz uma revolução nesse país, diz compositor da Mangueira

Compositor do samba-enredo da escola de samba de 2019, Deivid Domênico falou no 7º Encontro de Assinantes do 247, em Niterói, sobre a resistência por meio da cultura e a relevância da luta pela consciência de classes no país. “A (falta de) consciência de classe é que faz com que o povo não vá para as ruas lutar”, disse. Assista

Deivid Domênico
Deivid Domênico (Foto: Ederson Casartelli)

247 - Compositor do samba-enredo de 2019 da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, Deivid Domênico falou no 7º Encontro de Assinantes do 247, em Niterói, no último sábado 26, sobre a importância da consciência de classes e do debate direcionado ao povo. Ele opinou também sobre o samba como resistência.

O sambista afirmou que a desigualdade e a consciência de classes são dois problemas do Brasil, porém salientou que o último é o que faz com que o povo não vá às ruas para lutar. “Depois de tantos avanços que nós tivemos no Brasil, nós voltamos a um retrocesso de mais de 40 anos, socialmente e culturalmente falando, e em termos de militância também. Isso é responsabilidade nossa porque existem dois grandes problemas que vivemos no Brasil hoje, o primeiro deles é a desigualdade, que sempre existiu e que a gente precisa combater, mas a consciência de classes é um grande problema que nós temos no país. A consciência de classe é que faz com que o povo não vá para as ruas lutar”.

Deivid exemplificou como a discussão acerca da Reforma da Previdência não dialogou com o povo brasileiro, por mais que a esquerda tenha tentado tanto mostrar os danos que a mudança causaria à população. “O que dominou a discussão no país no último ano e que foi fechada há pouco tempo foi a reforma da Previdência. Nós que temos empregos discutimos a reforma da Previdência sob a ótica da aposentadoria, de que não vamos conseguir nos aposentar, de que o povo não vai se aposentar. Meus amigos, o povo não se aposenta! O companheiro que mora no morro da Mangueira e que acorda às quatro horas da manhã, vai para o  Mercadão de Madureira e compra sacolé ou a muamba dele para vender, tu acha que esse cara vai se aposentar? Com qualquer sistema existente hoje, que já existiu ou vai existir, alguém acredita que ele vai se aposentar? Não vai! A gente está fazendo uma discussão por cima e não estamos olhando para quem de fato está sofrendo neste país”.

“Porém, a reforma da Previdência afeta diretamente o SUS, e esse cidadão, que não vai se aposentar mas que acorda às quatro horas da manhã para comprar a muamba dele para vender no trem, depende do hospital público. Mas nós, que temos plano de saúde, não nos atentamos para isso e não chamamos o povo para aquilo que o afeta, focamos na aposentadoria. Eles não vão vir para a luta se não tiver essa consciência, essa discussão. Falta consciência de classe ao nosso povo. ‘O dia em que o morro descer e não for Carnaval’, a gente faz uma revolução nesse país e o transforma”, concluiu Deivid, fazendo alusão ao samba de Wilson das Neves.

Deivid pontuou ainda o papel do samba como resistência, lembrando os ataques de Jair Bolsonaro à cultura, inclusive pelo episódio no qual Bolsonaro se recusou a assinar o diploma do cantor Chico Buarque, ganhador do Prêmio Camões. “Estamos sendo fortemente atacados pelo governo municipal e fortemente atacados por todos os governos. O Bolsonaro diz que não vai assinar o diploma do Chico Buarque, Chico Buarque é uma referência para todos nós, é um guerreiro, um lutador. Quando ele faz isso ele tenta atacar com a imagem do Chico, com tudo aquilo que ele representa, a cultura brasileira, a representação da cultura brasileira. O samba é cultura brasileira, o samba é resistência, o samba não é o chope gelado e a cerveja na praia, o samba é a luta da resistência. Por isso a importância de valorizar a cultura e, de quem faz cultura, entender o momento em que nós vivemos”.

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